Quioto, mil templos e um único arrependimento: não ter ficado mais tempo
São 6h da manhã no bairro de Gion. As lanternas de pedra ainda estão acesas, o asfalto está úmido e a única pessoa à vista é um monge cruzando a rua a passos apressados. Daqui a três horas, essas mesmas vielas estarão lotadas. Mas agora, neste exato momento, o que se ouve é o som seco das sandálias de madeira batendo nas pedras e o murmúrio do rio Kamo.
Capital imperial do Japão por mais de mil anos, esta cidade de 1,5 milhão de habitantes sobreviveu a guerras, incêndios e até à lista de alvos atômicos de 1945, da qual foi retirada in extremis. O resultado são quase 2.000 templos e santuários intactos, 17 locais declarados Patrimônio Mundial da UNESCO e mais de 100 restaurantes estrelados pelo Guia Michelin.
A antiga capital, para quem exatamente?
Sendo francos, se você busca vida noturna agitada ou parques de diversões, siga direto para Osaka, a 30 minutos de trem. Por outro lado, se a sua vontade é desacelerar e entender uma cultura milenar através de gestos cotidianos e detalhes sutis, você está no lugar certo.
Destino adequado para:
- Apaixonados por cultura, história e espiritualidade
- Amantes da alta gastronomia japonesa
- Casais em busca de romantismo e serenidade
- Fotógrafos e entusiastas da estética em qualquer estação
- Famílias com crianças curiosas, desde que o ritmo de visitas aos templos seja bem dosado
Destino inadequado para:
- Viajantes em busca de vida noturna intensa ou praias
- Quem detesta multidões, já que os principais pontos turísticos ficam lotados na alta temporada
- Pessoas com mobilidade reduzida, pois muitos templos exigem subir muitas escadas
- Viajantes apressados que têm apenas meio dia para explorar o destino
Um orçamento acessível graças à cotação favorável do iene
Uma boa notícia: o Japão já não é o país proibitivo de antigamente. O iene continua enfraquecido frente às principais moedas, e os preços ao consumidor mudaram pouco nas últimas décadas. Uma refeição farta em um restaurante pequeno costuma custar menos do que um almoço básico nas capitais brasileiras.
| Tipo de despesa | Média |
|---|---|
| Noite em albergue de juventude ou guesthouse | 15 € a 35 € (cerca de 95 a 220 reais) |
| Noite em hotel intermediário ou ryokan simples | 60 € a 120 € (cerca de 380 a 760 reais) |
| Refeição rápida: ramen, bento, konbini | 4 € a 8 € (cerca de 25 a 50 reais) |
| Refeição em restaurante clássico | 10 € a 25 € (cerca de 65 a 160 reais) |
| Transporte + ingressos de templos por dia | 8 € a 20 € (cerca de 50 a 130 reais) |
| Total diário mochileiro | 40 € a 70 € (cerca de 255 a 445 reais) |
| Total diário confortável | 90 € a 180 € (cerca de 575 a 1.150 reais) |
O que você precisa saber antes de viajar
A cidade é extremamente segura. Você pode caminhar a qualquer hora sem preocupações, inclusive sozinhas. A barreira linguística é real fora das áreas mais turísticas, já que pouca gente fala inglês fluentemente, mas as sinalizações nas estações e museus geralmente estão traduzidas. Baixe o Google Translate com o pacote de japonês offline, pois ele funciona como uma ótima ferramenta de apoio.
Clima e ritmo da cidade
O verão, de junho a agosto, é bastante abafado. Espere calor úmido, sensação térmica de 35°C e muitos mosquitos. Evite essa época se você sofre com o calor e a umidade. O inverno é frio e seco, com temperaturas em torno de 5°C e uma luz incrível. A primavera e o outono são as estações mais cobiçadas, mas também as que atraem mais visitantes.
Dica de amigo: reserve sua hospedagem de 3 a 6 meses antes se planeja viajar na época das cerejeiras em flor, entre o fim de março e o início de abril, ou durante a temporada das folhagens avermelhadas de outono em novembro. Os preços sobem bastante e os hotéis lotam rápido.
Gion e Higashiyama: o Japão dos cartões-postais
É aqui que o coração da cidade bate mais forte. O bairro de Gion, com suas casas de chá em madeira escura e ruelas iluminadas por lanternas, ainda é o melhor lugar para tentar avistar uma geiko ou uma maiko a caminho de um compromisso. O momento é sempre rápido, resumido ao farfalhar de um quimono antes de desaparecer.
Dica de amigo: comece seus passeios em Gion logo às 6h30 da manhã. Às 8h, o movimento já triplicou. No fim da tarde, entre 17h e 19h, a luz dourada transforma as ruas em um cenário de cinema.
Vale lembrar que algumas ruas agora proíbem a entrada de turistas para preservar a rotina dos moradores. Informe-se antes de explorar os becos secundários.
Seguindo para o leste, Higashiyama enfileira atrações imperdíveis. As ladeiras de Ninenzaka e Sannenzaka, repletas de lojas de artesanato e casas de chá tradicionais, levam ao Kiyomizu-dera. Esse templo empoleirado em uma estrutura de madeira de 13 metros de altura, construída sem um único prego, proporciona uma vista panorâmica de toda a cidade.
Mais abaixo, o santuário Yasaka-jinja e o temple Kennin-ji, famoso pelo teto pintado com dragões gêmeos, merecem uma parada.
O norte: Kinkaku-ji, bambus e jardins zen
O Kinkaku-ji, o conhecido Pavilhão Dourado, é provavelmente a imagem mais icônica da cidade. Revestido em folhas de ouro, ele se reflete perfeitamente em um lago cercado por pinheiros seculares. O lugar impressiona pela beleza, mesmo com dezenas de pessoas disputando espaço no mirante. Vá bem cedo para aproveitar com calma.
A poucos quilômetros dali, o Ryoan-ji abriga o jardim zen mais famoso do país. São quinze pedras dispostas sobre cascalho branco ratelado, criadas de forma que, não importa o ângulo de observação, apenas quatorze fiquem visíveis ao mesmo tempo. O espaço foi feito para o silêncio. Logo ao lado, o Ninna-ji reúne pavilhões e jardins em uma atmosfera muito tranquila.
Mais a oeste, Arashiyama e a sua famosa bambuseraie de Sagano atraem multidões. Os caules gigantescos balançando com o vento produzem um som característico, misturando estalos e assobios. O temple Tenryu-ji e a ponte Togetsukyo sobre o rio completam o passeio. Para fugir do tumulto, caminhe até o temple Gio-ji, um santuário compacto coberto de musgo e fora das rotas tradicionais.
O sul: Fushimi Inari e o distrito do saquê
O Fushimi Inari Taisha e seus milhares de portões torii vermelhos enfileirados nas encostas do monte Inari formam o santuário mais fotografado do Japão. A caminhada completa até o topo leva cerca de duas horas. A maioria dos visitantes para no primeiro terço do trajeto, então, se você continuar subindo, os portões ficam mais distantes uns dos outros, a floresta recupera o espaço e a sensação de isolamento é total.
Dica de amigo: no Fushimi Inari, chegue antes das 7h ou depois das 16h. O local funciona 24 horas por dia e a entrada é gratuita. Subir à noite com as lanternas acesas é uma experiência inesquecível.
Já na parte plana, o distrito de Fushimi é o berço histórico da produção de saquê na cidade. As antigas destilarias, como a de Gekkeikan, oferecem degustações. A água da região tem uma pureza única, o que explica tanto a qualidade da bebida quanto a excelência do tofu produzido ali.
O centro: mercados, galerias e o rio Kamo
O mercado de Nishiki, considerado a cozinha da cidade, estende-se por cinco quadras cobertas. Mais de 100 barracas vendem tsukemono (os tradicionais legumes conservados), mochi fresquinho, espetinhos e doces à base de matcha. É um lugar movimentado e barulhento, exatamente como deve ser.
O castelo de Nijo, residência dos xóguns da dinastia Tokugawa, fica a poucos minutos a pé. Seus chamados pisos rouxinol, feitos para chiar a cada passo e alertar contra invasores, continuam chamando atenção.
Ao anoitecer, a rua Pontocho, um beco estreito repleto de restaurantes com mesas voltadas para o rio Kamo, oferece um dos cenários mais atmosféricos para jantar. Os preços variam bastante, permitindo encontrar desde um prato de ramen acessível até uma experiência gastronômica completa do tipo kaiseki.
Onde comer e beber em Quioto?
A culinária local se desenvolveu longe do mar, o que levou a cidade a criar técnicas próprias focadas no tofu, nos legumes conservados, no matcha e no preparo refinado de ingredientes sazonais. O kaiseki, a alta gastronomia originada nas cortes imperiais com dezenas de pequenos pratos, nasceu aqui.
Provar um menu kaiseki em um restaurante renomado como o Kikunoi, em Higashiyama, é uma vivência marcante, embora os valores sejam elevados.
Especialidades imperdíveis
- O yudofu: tofu macio cozido em caldo leve, servido principalmente em restaurantes nos arredores dos templos
- A yuba: película retirada do leite de soja, de textura única, consumida fresca ou seca
- O sabazushi: sushi prensado de cavalinha marinada, uma herança culinária da região
- O obanzai: pratos caseiros tradicionais preparados com vegetais locais da estação
Para quem busca economia, redes de ramen como Ippudo ou Tenkaippin (nascida na cidade com um caldo de frango denso e cremoso) servem tigelas fartas. Os konbini, as lojas de conveniência abertas 24 horas, também salvam o dia com onigiris, bentos e sanduíches de ótima qualidade a preços baixos.
Onde dormir em Quioto e arredores?
A região ao redor da estação de Quioto é a mais prática para deslocamentos, embora tenha menos charme. Já o centro, entre Shijo e Sanjo, permite ir a pé a Gion, Pontocho e Nishiki, sendo o melhor meio-termo entre comodidade e imersão.
Dormir em um ryokan: a experiência clássica
Passar pelo menos uma noite em um ryokan, a hospedagem tradicional com pisos de tatame, camas futon e banhos termais, completa a viagem. As opções de alto padrão em Gion e Higashiyama costumam ter tarifas mais altas, mas existem alternativas econômicas caso você reserve com antecedência.
Alugar uma machiya, casa de madeira tradicional japonesa, é outra escolha popular para famílias e grupos.
Para viagens econômicas, há ótimas guesthouses e hostels na região central. Redes de hotéis funcionais como o Toyoko Inn e o Mitsui Garden também oferecem quartos práticos por valores moderados.
Como chegar a Quioto?
A cidade não possui aeroporto comercial. A principal porta de entrada é o aeroporto do Kansai (KIX), em Osaka. O trem expresso Haruka faz a ligação entre o KIX e a estação de Quioto em cerca de 75 minutos, trajeto que pode ser coberto pelo passe JR Pass. Ônibus executivos também realizam o percurso em aproximadamente uma hora e meia.
Saindo de Tóquio
O trem-bala Shinkansen Tokaido conecta Tóquio a Quioto em cerca de 2h15. O bilhete avulso é bastante utilizado, com dezenas de partidas diárias. Se você planeja se deslocar bastante de trem pelo país, vale a pena calcular se o Japan Rail Pass compensa para o seu roteiro.
Saindo do Brasil
Não há voos diretos do Brasil para o Japão. As rotas mais comuns passam por cidades europeias (como Frankfurt, Paris ou Londres) ou pelos Estados Unidos, com conexão em aeroportos como Tóquio (Haneda ou Narita) ou Osaka (Kansai). De lá, pega-se o trem-bala ou outro trem expresso até Quioto.
Como se deslocar em Quioto?
A cidade funciona muito bem combinando metrô, ônibus e caminhadas. O metrô conta com duas linhas principais: a Karasuma (norte-sul) e a Tozai (leste-oeste).
O uso de cartões de transporte recarregáveis como o Suica ou Icoca facilita bastante os pagamentos nas catracas. Passes diários de ônibus e metrô também ajudam a economizar caso você faça muitos trajetos no mesmo dia.
Andar de bicicleta é uma excelente alternativa para explorar bairros residenciais e ruas menos movimentadas. Há várias locadoras que alugam bikes por diárias acessíveis, lembrando apenas de estacionar nos locais permitidos para evitar multas. Os táxis são limpos e eficientes, mas têm tarifas elevadas. O aplicativo Uber funciona de forma bastante restrita no país.
Quando ir?
Os períodos mais procurados são a primavera, entre o fim de março e meados de abril, devido à floração das cerejeiras, e o outono, de meados de outubro ao final de novembro, pelas cores avermelhadas das árvores. O visual é espetacular, mas espere atrações cheias.
Para equilibrar clima agradável e menor movimento, escolha o início de março ou o início de dezembro, quando as temperaturas seguem suportáveis e a circulação de pessoas é menor. Evite os meses de verão (junho a agosto) se possível, já que o calor úmido cansa rápido e o festival Gion Matsuri em julho lota completamente a cidade.
Impossível deixar de visitar a magnifica cidade de Quioto, que transborda santuários, templos e vilas imperiais, cada um mais impressionante que o outro. Infelizmente, você não será o único a querer ver tudo isso! O segredo é acordar cedo nessa cidade, mas também ter coragem de se aventurar um pouco fora dos circuitos turísticos tradicionais. Acredite em mim, você não vai se arrepender! É uma cidade incrível que esconde pequenas joias preciosas na sombra. E é o lugar perfeito para encontrar oficinas de artesanato legais também: cutelaria, escultura, bijuterias...