Uji, onde o tempo se infunde como o chá
São 8h30 e a névoa matinal ainda flui sobre o rio Uji. Um aroma vegetal e levemente adocicado escapa das lojas que começam a abrir ao longo da Omotesando. O chá preparado aqui há oito séculos moldou cada canto desta pequena cidade.
Esremada entre Kyoto e Nara, antigas capitais imperiais do Japão, Uji desenvolveu uma personalidade própria. É um refúgio para quem deseja desacelerar, observar o reflexo de um templo milenar em um lago e entender por que o matcha japonês conquistou o mundo.
Uma escapada para quem busca cultura e tranquilidade
Se você quer fugir do movimento intenso de Kyoto sem abrir mão da riqueza histórica de Kansai, Uji é uma excelente escolha. O passeio de um dia atrai entusiastas do chá, curiosos pela história japonesa e viajantes que preferem caminhar sem pressa. As famílias também encontram um ótimo atrativo no novo Nintendo Museum, inaugurado em outubro de 2024.
Por outro lado, quem busca agito urbano ou luzes de neon deve seguir viagem. Uji fecha cedo. A maioria das lojas baixa as portas por volta das 17h, e a noite recupera o ritmo calmo de cidade do interior. Esse perfil agrada quem viaja em busca de paz, mas pode frustrar visitantes com outro ritmo.
Um orçamento acessível
Uji continua sendo uma opção econômica na comparação com Kyoto. Os gastos diários com passeios, que incluem a entrada no templo Byodo-in e uma cerimônia tradicional do chá, ficam entre 15 e 25 euros (cerca de 95 a 160 reais). Um almoço com soba ao matcha custa de 1.000 a 1.500 ienes (cerca de 38 a 58 reais). Já o deslocamento de trem a partir de Kyoto custa 240 ienes (cerca de 9 reais) o bilhete só de ida na linha JR.
O coração histórico: templos e margens do rio
O Byodo-in é a grande estrela da cidade. Este templo budista do século XI aparece no verso das moedas de 10 ienes, e o motivo fica evidente ao ver o Pavilhão Fênix refletido nas águas do lago. Construído em 1052 pelo filho de um poderoso regente do clã Fujiwara, o local representa a Terra Pura do Buda. No interior, uma estátua de 2,7 metros de altura de Amida Buddha, esculpida pelo mestre Jocho, recebe visitantes há quase mil anos.
A entrada para os jardins e o museu custa 700 ienes (cerca de 27 reais). Para entrar no Pavilhão Fênix, paga-se mais 300 ienes (cerca de 12 reais), sendo recomendável garantir o horário logo na chegada, pois as vagas esgotam rápido. As visitas guiadas ocorrem em japonês, mas há material informativo traduzido para visitantes estrangeiros.
Dica de amigo: chegue logo na abertura, por volta das 8h30. Você terá o templo quase exclusivo para si antes da chegada dos grupos de turistas por volta das 10h.
Do outro lado do rio, o santuário Ujigami costuma passar despercebido, embora seja o santuário xintoísta mais antigo ainda de pé no Japão, erguido por volta de 1060. O salão principal e a estrutura de culto são reconhecidos como tesouros nacionais. A tradição local diz que um coelho guardião guia os passos de quem faz suas preces, por isso é comum notar referências ao animal pela vizinhança.
A cultura do chá: muito mais do que uma bebida
O chá de Uji mantém uma reputação impecável desde o século XIII. O monge zen Eisai, responsável por introduzir o budismo zen e o chá vindos da China, orientou os sacerdotes locais sobre as técnicas de cultivo. A combinação de solo fértil e microclima fez o resto. Hoje, o matcha de Uji é considerado o melhor do país.
Para uma experiência completa, a casa de chá municipal Taihoan oferece cerimônias tradicionais por 1.000 ienes (cerca de 38 reais). Sentado sobre tatames com vista para um jardim japonês, você aprende a etiqueta básica, como girar a tigela antes de beber e limpar a borda com os dedos. O ambiente informal acolhe bem quem está experimentando pela primeira vez.
Os puristas costumam preferir a Tsuen Tea, fundada em 1160. Esta é a casa de chá em atividade mais antiga do Japão, operada pela 24ª geração da mesma família. Figuras históricas como os xoguns Tokugawa Ieyasu e Toyotomi Hideyoshi já pararam por lá. Para uma vivência prática, a Fukujuen Ujicha Kobo promove oficinas onde você mesmo mói as folhas de chá antes de saboreá-las.
Dica de amigo: na Itoh Kyuemon, deixe para comprar chás na lojinha somente após terminar sua refeição. Eles entregam um cupom de 300 ienes (cerca de 12 reais) de desconto na saída do restaurante.
A rua Omotesando: o paraíso do matcha
Este corredor de 300 metros que conduz ao Byodo-in concentra a maioria das lojas e restaurantes locais. Há de tudo um pouco: sorvetes de matcha, sobas verdes, chocolates, cheesecakes de hojicha e até cerveja artesanal infundida com chá verde. A variedade pode impressionar.
Alguns locais se destacam. A Nakamura Tokichi atrai filas longas por causa de seus pratos de soba gelada com matcha e parfaits elaborados; espere por uma hora ou mais de espera nos fins de semana. A Mitsuboshien Kanbayashi Sannyu, uma casa de chá fundada em 1522, oferece um ambiente mais reservado com cerimônias e degustação de matcha premium por 1.100 ienes (cerca de 43 reais).
Se quiser fugir do tumulto, basta caminhar pelas ruas paralelas. Os becos vizinhos abrigam casas de chá mais tranquilas, muitas delas com vista para pequenos pátios internos.
O Nintendo Museum: a nova atração
Instalado em outubro de 2024 na antiga fábrica da Nintendo, este museu acompanha 135 anos de trajetória da empresa, desde a produção de cartas Hanafuda até o console Switch. O edifício em si já chama atenção com um bloco gigante em estilo Super Mario no topo.
O interior abriga dois andares de exposições interativas. O piso térreo traz jogos clássicos adaptados com tecnologia moderna, como controles gigantes para dois jogadores, testes de mira com pistola em tela gigante e uma gaiola de rebatidas inspirada na Ultra Machine. Cada visitante ganha 10 fichas incluídas no ingresso para usar nas atrações. O andar superior exibe consoles e brinquedos de todas as eras, desde o Famicom até protótipos inéditos.
Os ingressos são vendidos por meio de sorteio prévio. É necessário fazer o cadastro com três meses de antecedência no site oficial usando uma conta Nintendo gratuita, com os resultados divulgados no primeiro dia do mês seguinte. Os preços são de 3.300 ienes (cerca de 128 reais) para adultos, 2.200 ienes (cerca de 85 reais) para jovens de 12 a 17 anos e 1.100 ienes (cerca de 43 reais) para crianças de 6 a 11 anos. Reserve de 2 a 4 horas para a visita.
Dica de amigo: os horários do fim da tarde, após as 16h, costumam ter menos movimento. Nos fins de semana, as filas para os jogos mais procurados podem chegar a 30 minutos.
Além do centro: templos floridos
Para quem tem mais tempo na cidade, o templo Mimuroto-ji merece uma visita. Conhecido como o templo das flores, ele exibe 20.000 azaleias em maio e 10.000 hortênsias em junho. A entrada custa 1.000 ienes (cerca de 38 reais), e o ônibus número 43 que parte da estação Keihan Uji deixa você no local em 15 minutos.
Mais ao norte, o templo zen Mampuku-ji apresenta um estilo bem diferente. Fundado em 1661 pelo monge chinês Ingen, ele preserva uma arquitetura com forte influência continental. O local aceita reservas para refeições vegetarianas tradicionais shojin ryori, mas é obrigatório agendar com antecedência.
Onde comer e beber em Uji
A culinária da cidade gira em torno do chá. As sobas ao matcha são o prato principal, feitas com macarrão de trigo sarraceno esverdeado e servidas frias acompanhadas de um caldo leve. A Nakamura Tokichi e o Renge Chaya preparam excelentes versões, sendo que o segundo conta com tatames no andar superior com vista para a rua.
Na parte de doces, o sorvete de matcha é indispensável, encontrado em diversas variações de amargor conforme a qualidade do pó utilizado. Para algo inusitado, vale provar o curry de matcha no Wamucha Café ou a cerveja verde da Akamon Chaya, perto do Byodo-in. Já a loja Terashiyama vende chás a granel de alta qualidade para levar na mala.
Onde dormir em Uji e arredores
A maioria dos viajantes faz bate-volta a partir de Kyoto, mas passar uma noite por lá permite aproveitar as ruas vazias nas primeiras horas do dia, antes da chegada dos excursionistas.
Duas hospedagens tradicionais do tipo ryokan se destacam ao sul do Byodo-in, na beira do rio, oferecendo refeições kaiseki e a vivência clássica japonesa. Para uma opção mais em conta, a pousada Uji Cha-gan-ju-tei House foca na cultura do chá com chopp à vontade e localização próxima ao templo. Quem busca economia encontra hotéis executivos perto da estação JR Uji com o padrão japonês de conforto a preços moderados.
Como chegar e circular em Uji
Partindo de Kyoto, a linha JR Nara liga a estação central a JR Uji em um percurso de 17 a 30 minutos, dependendo do trem. A passagem custa 240 ienes (cerca de 9 reais) e é coberta pelo Japan Rail Pass. Outra alternativa é a linha Keihan saindo de Gion-Shijo ou Sanjo até a estação Keihan Uji, que fica mais próxima dos pontos principais, levando cerca de 40 minutos (trajeto não coberto pelo JR Pass).
Saindo de Osaka, a viagem leva cerca de uma hora combinando o shinkansen ou trem JR até Kyoto e fazendo a baldeação para Uji. A linha direta da Keihan saindo de Yodoyabashi ou Kyobashi também demora uma hora, com troca em Chushojima, ao custo de 400 ienes (cerca de 15 reais).
Na cidade, tudo pode ser feito a pé. As principais atrações ficam em um raio de 15 minutos de caminhada ao redor da ponte Uji. Para ir ao Nintendo Museum, situado em Ogura, pegue um trem local até as estações Kintetsu Ogura ou JR Ogura e caminhe de 5 a 8 minutos. Há também um ônibus circular que liga as estações de trem ao museu por 230 ienes (cerca de 9 reais).
Quando ir?
A primavera é a época mais procurada, entre o final de março e o começo de maio, quando as cerejeiras enfeitam o rio e as glicínias centenárias do Byodo-in criam um cenário impressionante em meados de abril. O outono, de meados de novembro ao início de dezembro, cobre os templos com tons avermelhados e alaranjados.
O verão japonês, quente e úmido, pode desanimar caminhadas longas, mas traz as hortênsias do Mimuroto-ji e as apresentações tradicionais de pesca com cormorões no rio entre junho e setembro. O inverno garante tranquilidade com menos turistas e o aconchego de uma tigela de matcha quente diante de um jardim coberto de neve.
Uji é uma pequena pérola! Localizada bem perto de Kyoto, é muito menos conhecida que esta última. Eu recomendo fortemente que você saia do roteiro tradicional. É uma cidadezinha muito relaxante. O clima me lembra um pouco Arashiyama. Um passeio marcado pela água, com o rio, templos e chá tradicional para saborear!