Ōtsu, a capital esquecida às margens do maior lago do Japão
Por cinco anos, entre 667 e 672, esta cidade foi a capital do Japão. Depois o imperador mudou a corte de lugar, e o mundo a esqueceu. Hoje, Ōtsu vive na sombra massiva de Kyoto, a apenas nove minutos de trem. O lago Biwa, o maior do país com seus 670 km², se estende diante dela como um mar interior. Os templos milenares que pontilham suas montanhas formaram os maiores mestres do budismo japonês. No entanto, os turistas passam direto.
Uma escapada para quem foge das multidões
Se você procura o Japão dos cartões-postais, com suas ruas lotadas e templos tomados por paus de selfie, siga viagem. Ōtsu é para quem prefere a contemplação à agitação. Quem gosta de templos budistas encontra aqui locais listados como patrimônio mundial em uma calmaria impossível de achar em Kyoto. Os fãs de literatura japonesa caminham pelos passos de Murasaki Shikibu, que escreveu o primeiro romance da história em um templo com vista para o lago.
O centro em si não tem tanto charme. Os guias honestos admitem que o urbanismo dos anos 1970 deixou marcas. Mas ninguém vai lá pelo concreto. O destino atrai pelo monte Hiei e seus mosteiros perdidos na névoa, pelos onsens de frente para o lago e por aquela sensação de escapar do circuito turístico mantendo Kyoto logo ali.
Um orçamento camarada comparado a Kyoto
Os gastos continuam razoáveis. Reserve de 15 a 25 euros por dia para os passeios (cerca de 95 a 160 reais), e de 30 a 50 euros para um ryokan com onsen em Ogoto (cerca de 190 a 320 reais). Um almoço em um restaurante local custa entre 1.000 e 2.000 ienes (cerca de 38 a 75 reais). O transporte desde Kyoto sai por 200 ienes (cerca de 7,50 reais).
Monte Hiei: berço do budismo japonês
O templo Enryaku-ji domina a região desde 788. Fundado pelo monge Saicho, virou a sede da seita Tendai e formou gerações de religiosos que criaram suas próprias escolas depois. O zen japonês, o budismo da Terra Pura e a seita Nichiren nascem aqui. No auge, o complexo tinha 3.000 prédios e um exército de monges guerreiros tão poderoso que o senhor feudal Oda Nobunaga mandou incendiar tudo em 1571.
As estruturas de hoje, reconstruídas por Toyotomi Hideyoshi, se espalham por 1.700 hectares divididos em três áreas: To-do, Sai-to e Yokawa. O Konpon Chu-do guarda uma chama que queima há 1.200 anos, alimentada todos os dias. A vista do lago Biwa dos terraços do complexo vale a viagem por si só. A entrada custa 1.000 ienes (cerca de 38 reais) para as três zonas.
Dica de amigo: pegue o Sakamoto Cable, o funicular mais longo do Japão, partindo do bairro de Sakamoto, ao sopé da montanha. O trajeto de 11 minutos entrega vistas espetaculares, sobretudo no outono.
Ishiyama-dera: onde nasceu o primeiro romance do mundo
Em agosto de 1004, a dama da corte Murasaki Shikibu se isolou por sete dias neste templo. Numa noite de lua cheia, olhando para o lago, ela imaginou a trama de O Conto de Genji. Essa obra, vista como o primeiro romance da história, retrata a vida da nobreza do período Heian com uma sensibilidade psicológica que fascina até hoje.
O templo em si fica sobre uma formação geológica impressionante: um maciço de wollastonite, pedra branca considerada monumento natural. O salão principal e o pagode de dois andares são tesouros nacionais. Uma recriação do quarto de Genji mostra Murasaki Shikibu trabalhando. Exposições sobre o livro acontecem na primavera e no outono dentro do museu Hojoden.
O lugar faz parte da peregrinação dos 33 templos de Kannon em Kansai. O artista Hiroshige eternizou a vista da lua de outono a partir do Ishiyama-dera na série das Oito Vistas de Omi.
Lago Biwa: atividades e panoramas
O lago Biwa existe há quatro milhões de anos. Sua biodiversidade inclui espécies que não vivem em nenhum outro lugar, como o nigorobuna, uma carpa usada no preparo do funazushi. Os passeios de barco saem do porto de Ōtsu no Michigan, uma embarcação de pás com estilo americano, gêmea de um navio de Lansing, cidade-irmã de Ōtsu.
Para ver tudo do alto, a estação Biwako Valley é imbatível. O teleférico mais rápido do Japão leva você a 1.100 metros de altitude em cinco minutos. A Biwako Terrace, um mirante panorâmico inaugurado em 2016, garante uma visão de 360 graus do lago e das montanhas ao redor. Em dias limpos, dá para enxergar os arranha-céus de Osaka a oeste. No inverno, nove pistas de neve atraem os moradores de Kyoto para um bate-volta.
Dica de amigo: o teleférico custa cerca de 3.500 ienes ida e volta (cerca de 135 reais). Leve um casaco, pois lá no alto faz de 5 a 7 graus a menos que na base.
Ogoto Onsen: fontes termais de frente para o lago
A vinte minutos de trem de Kyoto, Ogoto Onsen oferece algo que a cidade vizinha não tem: banhos termais com vista para o lago Biwa. A área reúne nove ryokans tradicionais, alguns com banheiras privativas na varanda. As águas, descobertas há 1.200 anos pelo próprio monge Saicho, são famosas pelos benefícios para a pele.
Os hotéis vendem pacotes com o jantar kaiseki feito com ingredientes da região. O Yumotokan e o Biwako Ryokusuitei estão entre os favoritos. Espere gastar de 20.000 a 40.000 ienes por pessoa (cerca de 770 a 1.540 reais) pela diária com refeições inclusas.
Onde comer e beber em Ōtsu?
A especialidade local divide opiniões: o funazushi. Esse sushi fermentado, avô de todos os sushis, fica curtindo por até três anos em arroz e sal. O cheiro forte afasta os iniciados, mas os gourmets veem ali uma iguaria refinada. O restaurante Koshū, perto do templo Ishiyama-dera, organiza degustações guiadas com explicações em inglês.
A carne de Ōmi é o outro orgulho da culinária local. Este wagyu, um dos três mais famosos do Japão, derrete na boca graças ao seu marmoreio perfeito. O Matsukiya, aberto em 1870, continua sendo a principal referência. A casa usa uma técnica de maturação em baixa temperatura que realça os sabores. Conte com 5.000 a 15.000 ienes por refeição (cerca de 190 a 580 reais).
Os peixes do lago também merecem atenção: o ayu, o salmão do Biwa e a truta da casa aparecem nos cardápios dos restaurantes tradicionais. O saquê de Shiga, fabricado com a água pura das montanhas da região, acompanha esses pratos perfeitamente.
Onde dormir em Ōtsu e arredores?
A escolha depende do seu foco. Para a experiência de um ryokan com onsen, Ogoto Onsen é tiro certo. Os hotéis oferecem vans gratuitas a partir da estação JR Ogoto Onsen, a 20 minutos de Kyoto. Os preços vão de 15.000 ienes em opções básicas (cerca de 580 reais) a mais de 50.000 ienes em suítes com ofurô particular (cerca de 1.930 reais).
Para economizar ou ter praticidade, os hotéis executivos ao redor da estação JR Ōtsu funcionam muito bem. O Lake Biwa Otsu Prince Hotel junta conforto moderno e uma vista marcante do lago. Alguma gente prefere ficar em Kyoto e visitar Ōtsu em um bate-volta, já que o trajeto leva apenas nove minutos.
Como chegar e circular em Ōtsu?
Saindo de Kyoto, a linha JR Tokaido liga as duas estações em 9 minutos por 200 ienes (cerca de 7,50 reais). O Japan Rail Pass vale para este trecho. A linha JR Kosei atende a margem oeste do lago, incluindo a estação Ogoto Onsen e Shiga para chegar ao Biwako Valley.
Vindo de Osaka, a viagem dura perto de 50 minutos passando por Kyoto. Do aeroporto de Kansai, o trem expresso limitado Haruka chega a Ōtsu em 80 minutos. Quem sai de Tóquio pega o shinkansen até Kyoto e faz baldeação para o trem local.
Na cidade, a rede Keihan conecta os templos e pontos turísticos na beira do lago. Andar a pé continua sendo o melhor jeito de explorar cada cantinho. Para o monte Hiei, o ônibus Hieizan Drive ou o funicular Sakamoto Cable são as principais alternativas. Alugar uma bicicleta é uma boa pedida para pedalar na orla.
Quando ir?
A primavera atrai multidões de japoneses por causa das cerejeiras ao longo do canal do lago Biwa. O outono, de meados de novembro até o começo de dezembro, tinge os bordos do monte Hiei em tons avermelhados intensos. O verão é quente e úmido, mas propício para natação e esportes náuticos no lago.
O inverno transforma o Biwako Valley em estação de esqui, proporcionando uma mistura rara: esquiar na neve enquanto se avista um lago gigante logo abaixo. Os onsen de Ogoto caem como uma luva nessa época, especialmente depois de um dia inteiro nas pistas.
Fácilmente acessível a partir de Kyoto, esta cidade charmosa vai te oferecer um pouco mais de calmaria. A primeira coisa a fazer é aproveitar o lago Biwa, um lugar à altura da sua reputação poética. O centro da cidade não é muito animado e isso é uma pena. Por outro lado, os templos são muito bonitos. Eu tenho uma queda pelo Gichu-Ji, com seu jardim verdejante e seus túmulos de samurais lendários (incluindo a famosa Tomoe Gozen, que é a minha foto de perfil).