La Spezia, a cidade que todo mundo atravessa sem parar
Em 8 de julho de 1822, o poeta Percy Bysshe Shelley morreu afogado em uma tempestade repentina bem no golfe de La Spezia. Dizem que seu amigo Lord Byron atravessava esse mesmo golfe a nado para visitá-lo em Lerici. Desde então, essa baía ganhou um apelido: o golfo dos Poetas.
Dois séculos depois, milhões de viajantes passam por La Spezia todos os anos. Quase nenhum para. Eles correm para as Cinque Terre, Portovenere ou Florença. É uma pena, porque esta cidade portuária de 93.000 habitantes tem uma personalidade própria marcante: palácios estilo Liberty, mercados barulhentos e culinária da Ligúria sem filtro turístico.
La Spezia: base ideal ou mera estação de passagem?
Falando francamente. La Spezia não é um cartão-postal. É uma cidade viva, um porto militar e comercial, com bairros residenciais comuns. Se você busca o pitoresco absoluto das ruelas suspensas na falésia, vá direto a Manarola. Mas se você quer um ponto de apoio prático, com preços acessíveis e bem conectado, com restaurantes onde os moradores realmente comem, você está no lugar certo.
La Spezia atende bem quem quer explorar a Riviera do Levante sem gastar muito. Em 8 minutos de trem, você está em Riomaggiore. Em 25 minutos de ônibus, em Portovenere. Em uma hora, em Pisa. Casais, famílias e viajantes solo encontram o que procuram por aqui, desde que o objetivo não seja passar o dia na praia, pois a cidade não tem faixa de areia aproveitável. Para dar um mergulho, siga para Lerici, San Terenzo ou a ilha de Palmaria.
O que saber antes de viajar
A Itália é um país seguro e La Spezia não foge à regra. O centro histórico é compacto e pode ser explorado a pé. O idioma predominante é o italiano, mas o inglês funciona bem em hotéis e restaurantes. O ritmo é o de uma cidadezinha italiana: comércio fechado entre 13h e 16h, restaurantes abertos a partir das 19h30, e o domingo em ritmo bem lento.
Um orçamento razoável para a Ligúria
Espere gastar de 70 a 120 € (cerca de 430 a 740 reais) por noite em um quarto duplo em B&B ou hotel 3 estrelas, e de 25 a 40 € (cerca de 155 a 245 reais) por pessoa ao dia para refeições. Um orçamento confortável para viajantes gira em torno de 90 a 130 € (cerca de 550 a 800 reais) por dia por pessoa, já com a hospedagem inclusa. Fica de 30% a 50% mais barato do que nas Cinque Terre.
O centro histórico e a orla
Duas ruas paralelas estruturam a cidade velha: o Corso Cavour e a Via del Prione. A primeira é o corredor comercial. A segunda liga o porto à estação de trem, e é ali que acontece todas as noites a passeggiata, aquela caminhada ritualística em que os moradores desfilam antes do jantar. Entre as duas vias, um labirinto de ruelas esconde fachadas coloridas e escadarias íngremes.
Do lado do mar, a Passeggiata Morin contorna o golfo sob as palmeiras e leva ao Porto Mirabello, conectado pela ponte de pedestres Thaon di Revel, uma estrutura elegante em madeira e aço branco. É o local perfeito para um aperitivo de frente para os veleiros.
Dica de amigo: o mercado da Piazza Cavour funciona todas as manhãs de segunda a sábado. Na sexta-feira, uma feira de antiguidades toma conta da Via Garibaldi. Vá com fome.
As colinas e os museus
O Castello di San Giorgio domina a cidade desde o século XIII. A subida pelas escadas é íngreme, mas a vista panorâmica do golfo e o museu arqueológico com suas fascinantes estátuas-estelas da Lunigiana compensam o esforço. Na descida, o Museo Civico Amedeo Lia, instalado em um antigo convento, abriga cerca de mil obras que vão da Antiguidade ao século XVIII. Raramente fica lotado e tem uma qualidade surpreendente.
Passeios bate-volta a partir de La Spezia
É aqui que a cidade mostra sua maior vantagem. A partir da estação central, os trens levam você aos cinco vilarejos das Cinque Terre em um percurso de 8 a 25 minutos. O passe Cinque Terre Treno MS Card custa 32,50 € (cerca de 200 reais) por dia no verão para viagens ilimitadas e acesso às trilhas. Você chega a Portovenere de ônibus ou barco, sendo que esta segunda opção permite ver de perto a costa e as ilhas de Palmaria, Tino e Tinetto.
Do outro lado do golfo, Lerici oferece um castelo medieval e uma praia de areia, enquanto o minúsculo Tellaro, um vilarejo de pescadores grudado nas rochas, continua livre do turismo de massa. Para viagens mais longas, Pisa fica a 1h15 de trem, Florença a 2h30, e Gênova a 1h.
Dica de amigo: no verão, pegue o primeiro trem antes das 9h para as Cinque Terre ou, melhor ainda, visite os vilarejos no fim da tarde, quando os turistas de excursão já foram embora.
Onde comer e beber em La Spezia?
O prato clássico da cidade é a mesciùa, uma sopa espessa de grão-de-bico, feijão branco e espelta regada com azeite de oliva e pimenta-do-reino, criada originalmente para alimentar os portuários. Outra especialidade imperdível é a farinata, uma grande torta rústica de farinha de grão-de-bico assada em forno a lenha. Para comê-la do jeito tradicional, vá ao La Pia Centenaria, uma instituição fundada no século XIX. Peça uma focaccia recheada com farinata: a combinação parece estranha, mas funciona muito bem.
Para frutos do mar econômicos, o restaurante self-service Dai Pescatori, no cais, serve pratos fartos de lula frita. Para uma experiência gastronômica mais refinada, a Osteria della Corte oferece pratos criativos da Ligúria. Não deixe de provar também o trofie al pesto, os cozze ripiene (mexilhões recheados) e os sgabei, bolinhos de massa de pão fritos servidos com embutidos, tudo acompanhado por um vinho Vermentino Colli di Luni.
Onde ficar em La Spezia e arredores?
O centro histórico, localizado entre a estação e o porto, concentra a maior parte da rede hoteleira e continua sendo a opção mais prática. Para curtir a praia, vale mais a pena se hospedar em Lerici ou San Terenzo, que dão acesso direto ao mar. Portovenere custa mais caro, mas o visual é espetacular. Levanto, ao norte das Cinque Terre, funciona como outra base bastante procurada por conta da faixa de areia.
Como chegar e circular em La Spezia?
Os aeroportos mais próximos são o de Pisa-Galileo Galilei, a 1h15 de trem, e o de Gênova-Cristoforo Colombo, a 1h de trem direto. Para quem viaja de carro pela Europa, são cerca de 4h30 de estrada a partir de Nice pela rodovia A12. Há trens diários ligando Paris a Milão ou Gênova com conexão. Partindo de Roma, a viagem de trem leva cerca de 3h30.
Na cidade, tudo é feito a pé e de trem regional. Os barcos turísticos funcionam de abril a outubro. Se vier de carro, os estacionamentos próximos à estação custam de 15 a 20 € (cerca de 90 a 125 reais) por dia: estacione o veículo e esqueça dele pelo resto da viagem.
Quando ir?
A melhor época vai de abril a junho e de setembro a outubro, quando as temperaturas são amenas, a luz é bonita e as Cinque Terre ainda não estão lotadas. Julho e agosto trazem calor intenso, multidões e preços mais altos. O inverno é ameno, mas muitos serviços voltados ao turismo fecham as portas.
É um ótimo lugar para servir de base para explorar os vilarejos das Cinque Terre, e a cidade é bem simpática e prática para se hospedar pagando muito mais barato! Embora não tenha o charme dos seus vizinhos menores, continua sendo uma cidade muito agradável de caminhar, com restaurantes ótimos para entrar no clima da maravilhosa gastronomia italiana.