Corniglia, a vila das Cinque Terre que se recusa a descer para o mar
Ânforas gravadas com "vinum Corneliae" foram encontradas nas escavações de Pompéia. Há dois mil anos, o vinho produzido neste promontório rochoso da costa da Ligúria já viajava até a Campânia. Boccaccio, no Decamerão, conta que um bandido curou as dores de estômago de um abade prisioneiro com duas fatas de pão tostado e um bom copo de Vernaccia di Corniglia.
Hoje, a vila continua produzindo vinho em encostas vertiginosas, mas primeiro é preciso encarar 377 degraus para conseguir provar a bebida.
A vila mais tranquila das Cinque Terre, para quem ousa encarar as escadas
Este destino atrai praticantes de trekking, amantes do vinho e todos que preferem calmaria a cartões-postais lotados. Com uma posição central entre as cinco vilas, panoramas amplos e um fluxo moderado de turistas mesmo na alta temporada, é a base ideal para explorar a região a pé sem enfrentar a multidão que toma conta de Vernazza ou Monterosso al Mare.
Por outro lado, se você sonha em mergulhar no mar direto da sua varanda ou jantar com os pés na areia, escolha outro lugar. Não há acesso direto ao mar a partir da vila. Nada de porto, barcos de passeio ou praia de verdade. Famílias com carrinhos de bebê ou pessoas com mobilidade reduzida vão achar o acesso bastante complicado, pois é preciso subir a Scalinata Lardarina saindo da estação de trem ou esperar a van que para de circular às 19h30.
A mais econômica das cinco vilas
Esta é a opção mais em conta nas Cinque Terre para quem cuida do orçamento. As hospedagens custam entre 70 e 90 EUR (cerca de 430 a 550 reais) por noite em quartos de hóspedes, bem abaixo dos 150 a 300 EUR (cerca de 920 a 1.830 reais) cobrados nas vilas vizinhas. Uma refeição em restaurante sai por 25 a 40 EUR (cerca de 150 a 245 reais) por pessoa. A Cinque Terre Card com passe livre de trem custa 19,50 EUR (cerca de 120 reais) por dia na baixa temporada.
Os 377 degraus e a Via Fieschi: a vila em uma única rua
A chegada já começa como aventura. Logo na saída da estação, no nível do mar, a Lardarina desdobra seus 33 lances de tijolos em zigue-zague por entre parreirais e oliveiras. São quinze minutos de subida com patamares regulares e uma vista da costa em direção a Manarola que se revela a cada curva. Esse trajeto acaba filtrando os visitantes: quem chega ao topo realmente merece a recompensa.
A vila inteira se resume a um único eixo, a Via Fieschi, que liga a igreja San Pietro ao mirante Santa Maria. Menos de 500 metros separam as duas pontas. Tudo se faz a pé, em poucos minutos.
A igreja San Pietro foi erguida em 1334 em arenito local, seguindo o estilo gótico da Ligúria. Sua rosácea em mármore branco de Carrara, adicionada em 1351, traz um cervo esculpido, símbolo antigo da vila. O interior, remodelado em estilo barroco, preserva uma pia batismal do século XII, afrescos e um altar de mármore colorido.
Dica de amigo: a van que faz o trajeto entre a estação e a vila está incluída na Cinque Terre Card. Se você se hospedar por lá, desça pela Lardarina de manhã para aproveitar a vista e volte de van à noitinha carregando suas compras.
Os terraços panorâmicos: duas vistas, duas atmosferas
No fim da Via Fieschi, o mirante Santa Maria entrega uma vista panorâmica de 180 graus para o mar. Trata-se do mirante mais aberto de todas as cinco vilas, já que o promontório domina a costa sem nenhum obstáculo à frente. Lunetas estão instaladas ali para avistar Vernazza ao norte e Manarola ao sul. O Bar Terza Terra, bem ao lado, é o ponto certo para apreciar o cenário com um copo de vinho branco da região.
A outra vista exige um pouco mais de esforço. Atrás do oratório de Santa Caterina, no Largo Taragio, um pequeno terraço reservado aponta para o sul, em direção aos penhascos que despencam rumo a Manarola. O oratório, construído no século XVIII, esconde um teto pintado em trompe-l'œil que imita o céu. Poucos turistas chegam até ali.
Os vinhedos e o vinho: a alma agrícola da vila
É aqui que as Cinque Terre revelam sua verdadeira identidade. Muito antes do turismo e da pesca, o que sustentava o lugar era a produção de vinho. Os fasce, terraços de pedra seca esculpidos na encosta, ainda cultivam uvas em declives onde as parreiras não passam de um metro de altura para resistir ao vento forte. A colheita é feita de joelhos, inteiramente à mão, em taludes acessíveis apenas por monotrilhos de cremalheira.
Três rótulos merecem atenção. O Cinque Terre DOC, um branco seco e fresco feito com as castas Bosco, Albarola e Vermentino. A Vernaccia di Corniglia, um branco mais estruturado produzido por aqui desde o século XIV, o mesmo que Boccaccio elogiava. E o Sciacchetrà, um vinho doce ambarino feito de uvas secas ao sol por 40 dias: são necessários 20 quilos de uva fresca para render uma única garrafa, envelhecida por pelo menos seis anos.
Dica de amigo: o Terra Rossa Wine Bar, na Via Fieschi, serve ótimos vinhos locais, incluindo opções orgânicas e biodinâmicas, com vista para a costa. É o endereço perfeito para uma degustação ao anoitecer, quando a vila esvazia.
Trilhas com saída direto da vila
A localização central da vila funciona como excelente ponto de partida. O Sentiero Azzurro em direção a Vernazza serpenteia por 4 km entre vinhedos em terraços e a vegetação mediterrânea, com vistas constantes para o mar. Conte com 1h30 a 2h de caminhada em nível moderado. O trajeto até Manarola é mais curto, mas pode fechar em alguns trechos conforme a época do ano. Vale checar o site do Parque Nacional antes de colocar o pé na estrada.
Para fugir do fluxo principal, a subida rumo ao santuário de San Bernardino avança pelas colinas até o vilarejo homônimo. A igreja abriga uma tela da Virgem com o Menino que recebe devoção há séculos. A festa do santuário acontece todo dia 8 de setembro, com uma romaria tradicional dos moradores locais.
Onde comer e beber em Corniglia?
As opções são limitadas, mas honestas, e a qualidade costuma superar a de outras vilas vizinhas justamente porque o local recebe menos fluxo de passagem. O Ristorante Cecio, um pouco afastado do centro, serve pratos de peixe bem preparados em um terraço com vista para os telhados coloridos. O Bar da Matteo, mais informal, serve pratos do dia simples e fartos por preços justos.
Nas especialidades, prove a torta di riso, um bolo salgado de arroz, queijo e ovos preparado especialmente para a festa de San Pietro em 29 de junho. A focaccia fresquinha da manhã na padaria Pan e Vin, acompanhada de um café e de frente para o mar, garante o melhor café da manhã da vila. E não vá embora sem experimentar o gelato de manjericão com limão na Alberto Gelateria, feito com folhas colhidas na horta do próprio dono.
Onde dormir em Corniglia e arredores?
Não há hotéis no estilo tradicional. A oferta se resume a quartos de aluguel e apartamentos, que devem ser reservados com antecedência por conta do espaço reduzido. O Madūneta 5 Terre oferece quartos reformados com vista para o mar a partir de 135 EUR (cerca de 825 reais) a diária, café da manhã incluso. A Locanda Il Carugio aposta em um ambiente mais intimista com três quartos, um terraço na cobertura e estacionamento gratuito, um privilégio raro por ali.
Uma alternativa inteligente é se hospedar em Levanto ou La Spezia. La Spezia fica a 14 minutos de trem e cobra preços duas a três vezes menores. Já Levanto, a cerca de 20 minutos, acrescenta uma ampla praia de areia e uma atmosfera agradável de cidade litorânea.
Como chegar e circular em Corniglia?
O trem é a única escolha sensata. Partindo da estação de La Spezia Centrale, a viagem leva 14 minutos com partidas a cada 20 ou 30 minutos. Saindo de Gênova, conte com cerca de 1h30 com uma conexão. De Pisa, o trajeto leva de 1h30 a 2h via La Spezia. Os aeroportos mais próximos são os de Pisa e Gênova, ambos bem conectados por trens regionais.
Ir de carro é uma péssima ideia. O estacionamento da vila tem apenas cerca de 60 vagas com custo de 2,50 EUR (cerca de 15 reais) por hora, lotando logo cedo no verão. A partir da estação, a van faz o transporte até o alto da vila a cada 15 minutos até as 19h30. Depois desse horário, só resta encarar a Lardarina a pé. Barcos de passeio não param por lá devido à ausência de um porto.
Quando ir?
A melhor época vai de meados de maio ao final de junho e de setembro a meados de outubro, quando as trilhas estão abertas, a luz é suave e as folhas dos vinhedos começam a mudar de cor. No dia 29 de junho, a festa de San Pietro movimenta a vila com procissão e distribuição da tradicional Torta dei Fieschi na pracinha. Evite o pico do verão: mesmo aqui, os caminhos ficam lotados e o calor torna a subida pela Lardarina bem cansativa.
Um passeio para reservar a quem não tem medo de fazer um pouco de esforço! 382 degraus! É isso que é preciso subir. No entanto, a chegada é extremamente gratificante. A gente tem a impressão de entrar em um lugar preservado e que precisa ser conquistado. Uma atmosfera mais ligada à terra, que me lembrou algumas vilas na Córsega. E ainda por cima, o charme dos vinhedos traz uma identidade única.