Ménerbes, o vilarejo onde Picasso escondia seus amores
Em algum lugar entre o cemitério e o antigo lavador público, uma casa não exibe nenhuma placa. Uma única porta, uma única janela, debruçada sobre o vale. Antigamente, aquilo ali funcionava como a cadeia do vilarejo. Essa pequena curiosidade resume bem o espírito de Ménerbes: até as paredes mais simples guardam histórias, e ninguém tem pressa de contar nada. É preciso merecer.
Empoleirado em um esporão de calcário a 230 metros de altitude, esse vilarejo de mil almas se estende ao longo de uma crista rochosa como um navio de pedra navegando sobre um mar de vinhedos. O nome vem de Minerva, deusa romana da sabedoria. A inspiração não é por acaso.
Para quem prefere a calmaria às listas de obrigações
Se você curte vilarejos-museu entupidos de lojas de souvenir e multidões, melhor seguir direto para Gordes. Ménerbes atrai outro tipo de público. Gente que busca arte, vinho e silêncio para contemplar. Peter Mayle escreveu ali o seu best-seller Um Ano na Provence em 1989, o que atraiu uma invasão de ônibus britânicos que felizmente já diminuiu bastante. O lugar recuperou sua lentidão original.
E já avisamos: o carro é indispensável. Não há transporte público decente que chegue até lá. O ritmo aqui é de caminhada sem pressa, longe de qualquer correria turística. Meio período basta para ziguezaguear pelas vielas, mas reservar o dia todo permite sentar com calma em um restaurante, caminhar até o Domaine de la Citadelle e descer até o dólmen neolítico escondido no vale.
Um orçamento à altura do Luberon
O Luberon não é um destino econômico. Prepare o bolso para gastar de 120 a 200 EUR (cerca de 750 a 1.250 reais) por noite em uma pousada charmosa, e de 25 a 40 EUR (cerca de 155 a 250 reais) em um almoço acompanhado de vinho. As degustações nas vinícolas costumam ser gratuitas, o que dá um alívio parcial no orçamento.
O cerco que moldou a lenda
Em outubro de 1573, 150 soldados protestantes tomaram o vilarejo, que na época pertencia ao território papal. A reação católica demorou quatro anos para se organizar, mas quando veio, apareceu com força total: 12.000 soldados, 1.200 cavaleiros, 800 sapadores e 12 canhões. O cerco durou cinco anos, dois meses e oito dias. Os 150 protestantes aguentaram firmes até a água acabar. Novecentas balas de canhão atingiram as muralhas. Algumas ainda continuam ali, cravadas nas fachadas das casas.
Toda essa resistência feroz explica a arquitetura defensiva do lugar. O Château du Castellet, no lado oeste, e a Citadelle, do século XVI, no lado leste, protegem o centro como duas sentinelas. No meio delas, ruas estreitas e tortuosas foram desenhadas para atrapalhar qualquer invasor. Hoje em dia, elas servem apenas para desacelerar os turistas que se encantam com as paredes cor de ocre e as janelas com venezianas azuis desbotadas.
Pelos caminhos dos artistas
Ménerbes sempre atraiu criativos em busca de luz e isolamento. Dora Maar, fotógrafa e musa de Picasso, morou ali até morrer em 1997, em uma casa que o pintor lhe deu em 1944. Hoje, a Maison Dora Maar funciona como residência artística. O pintor expressionista russo Nicolas de Staël se instalou no Castellet em 1953, antes de tirar a própria vida dois anos depois. O castelo continua pertencendo à família dele.
Atualmente, galerias de arte contemporânea pontuam as vielas. A Galerie Pascal Lainé, aberta há mais de 25 anos, expõe artistas internacionais em um espaço intimista. Já o ateliê de Jane Eakin, pintora americana que viveu na região por décadas, abre para visitação de maio a outubro.
Dica de amigo: caminhe até a Place de l'Horloge, no ponto mais alto do vilarejo, para ter a vista mais bonita do Luberon e do Mont Ventoux. O campanário do século XVI continua marcando as horas.
Trufas, vinho e saca-rolhas
A Maison de la Truffe et du Vin du Luberon ocupa o antigo Hôtel d'Astier de Montfaucon, um casarão do século XVII restaurado pelo ex-prefeito Yves Rousset-Rouard. A enoteca reúne rótulos de 60 vinícolas do Parque Natural Regional. As degustações são gratuitas de abril a outubro. No inverno, passeios de caça à trufa acompanhados por um produtor local e seu cachorro permitem encontrar a tuber melanosporum, o famoso diamante negro do Luberon.
A dois quilômetros do vilarejo, o Domaine de la Citadelle cultiva tanto uvas quanto originalidade. O seu Musée du Tire-Bouchon exibe 1.200 exemplares de saca-rolhas do século XVII até hoje, com peças únicas no mundo. A visita termina com uma degustação dos vinhos tintos e rosés da casa. Para quem prefere vinhos orgânicos, a dica é seguir até o Château La Canorgue, que ficou famoso por aparecer no filme Um Bom Ano, dirigido por Ridley Scott.
O dólmen e as relíquias esquecidas
Seguindo pela rodovia D3 em direção a Bonnieux, a um quilômetro do vilarejo, o Dolmen de la Pitchoune aparece logo abaixo de uma pequena ponte. Esse megalito neolítico data de aproximadamente 4800 antes da nossa era. A laje de cobertura pesa seis toneladas. No local, arqueólogos encontraram ossos humanos, dentes, cerâmicas e pontas de flecha de sílex. Pitchoune significa menina em provençal antigo, embora ninguém saiba exatamente o motivo.
Três quilômetros adiante, a Abbaye de Saint-Hilaire, do século XIII, guarda um claustro românico e afrescos medievais. Os monges cederam espaço aos produtores de vinho, e hoje o local produz um AOC Luberon que pode ser degustado em um ambiente de sobriedade impressionante.
Onde comer e beber em Ménerbes?
O Galoubet serve pratos provençais autênticos e sem frescura em um ambiente acolhedor bem no centro do vilarejo. A caldeirada de peixe bouillabaisse e o ensopado de cordeiro valem a parada, enquanto a tarte Tatin encerra a refeição perfeitamente. A La Cave à Manger aposta em um cardápio bistrô com vista para o vale. Para uma experiência gastronômica mais sofisticada, a La Bastide de Marie, na estrada para Bonnieux, mistura alta gastronomia e vinhedos a perder de vista.
O suco de cereja orgânico é uma iguaria local pouco conhecida, feita com frutos colhidos nas fazendas da região. Nas manhãs de quinta-feira, a feira provençal toma conta da rua principal com queijos de cabra artesanais, mel de lavanda, azeitonas pretas de Nyons e legumes frescos. No inverno, o mercado de trufas permite comprar o ingrediente direto de quem produz.
Onde ficar em Ménerbes e arredores?
As opções de hotéis dentro do vilarejo são restritas. A La Bastide de Marie oferece quartos sofisticados em uma propriedade vinícola equipada com piscina e restaurante. As pousadas instaladas em casas de pedra proporcionam uma vivência mais intimista, e o site oficial da prefeitura lista as acomodações locais.
Para quem busca mais variedade, L'Isle-sur-la-Sorgue fica a 20 minutos de distância e concentra hotéis e restaurantes para todos os bolsos. Bonnieux e Gordes, a menos de quinze minutos, seguem a mesma linha charmosa. Alugar uma casa de campo tradicional, conhecida como mas ou gîte, continua sendo a melhor pedida para passar vários dias explorando o Luberon.
Como chegar e circular por Ménerbes?
O aeroporto de Marseille-Provence fica a 1h15 de carro. Já o aeroporto de Avinhão, a 30 minutos, opera voos ligando a cidade a Paris e outros pontos da Europa. De trem, o TGV chega a Avignon Centre em 2h40 saindo de Paris, e à estação de Aix-en-Provence TGV em 3h. Alugar um carro é obrigatório, pois nenhum transporte público conecta os vilarejos do Luberon de forma eficiente.
Saindo de Cavaillon, pegue a rodovia D2 em direção a Apt. O caminho é bem sinalizado. Estacione no bolsão da Rue de la Fontaine, logo na entrada do centro medieval. As ruas da parte alta são exclusivas para pedestres e bastante íngremes, por isso calçados confortáveis são fundamentais.
Quando ir?
Maio e setembro oferecem o cenário ideal, combinando clima agradável e menor circulação de turistas. O verão na Provence costuma ser escaldante e lotado. O inverno revela outro lado do vilarejo: silencioso e contemplativo, com direito a pratos trufados nos cardápios de dezembro a março. No verão, as Musicales du Luberon agitam a igreja de Saint-Luc com concertos de música clássica. Evite o mês de agosto se você prefere fugir de aglomerações.
Uma vila linda que é melhor visitar na primavera, como pude fazer. É um lugar muito iluminado, que parece uma pintura. Se você quiser aproveitar um clima autêntico, é por lá mesmo. Muito verde, flores, casas bonitas, uma vista muito agradável... Ideal para um passeio de uma tarde! Perfeito se você precisar recarregar as energias bem longe da agitação da cidade.