Xico, o vilarejo mexicano onde o mole tem sabor de festa
O cheiro chega antes mesmo de você avistar a torre da igreja. Um aroma complexo de chocolate, pimentas secas e especiarias escapa das cozinhas que se abrem para a rua. Aqui, neste vilarejo encravado nas encostas do Cofre de Perote, as mulheres preparam o mole xiqueño em imensas panelas de barro. Fundado em 1313 sob o nome totonaca de Xicochimalco, que significa "lugar das colmeias de cera amarela", este Pueblo Mágico de Veracruz permanece fiel a uma doçura ancestral.
Um vilarejo para viajantes em busca de calmaria e sabores
Este vilarejo situado a 1.320 metros de altitude vai agradar aos amantes do México rural que procuram experiências gastronômicas e paisagens de floresta de neblina. Os apaixonados por café encontram por aqui uma das melhores regiões cafeeiras do país. Os praticantes de trilhas vão se esbaldar com as cachoeiras ao redor.
Xico vai decepcionar quem busca ag sobretudo noturna ou uma estrutura turística engessada com visitas guiadas em vários idiomas. A vida no vilarejo segue o ritmo local: café da manhã sem pressa, aquela soneca e a caminhada ao entardecer na praça. Pouca gente fala português ou inglês, mas com boa vontade e gestos básicos você se vira na maioria das situações.
Um refúgio tranquilo onde o tempo passa devagar
Dá para percorrer as ruas de paralelepípedo a pé em meio dia. As cenas do cotidiano pegam a gente de surpresa: os burreros que entregam leite no lombo de burros pela manhã, as vendedoras de flores nas calçadas e as senhoras preparando tortillas na porta de casa. O clima fica ameno o ano todo, girando em torno de 20°C (cerca de 20°C). Leve um casaco para as noites e uma capa de chuva entre junho e setembro.
Orçamento amigável para uma viagem cheia de sabor
Xico continua com preços bem acessíveis. Espere gastar de 450 a 1.200 pesos (cerca de 140 a 375 reais) por uma noite em hotel ou cabana, e de 80 a 150 pesos (cerca de 25 a 47 reais) por uma refeição completa com enmoladas e café. Atividades como canyoning saem por volta de 800 pesos (cerca de 250 reais) com equipamentos e guia incluídos.
As cachoeiras: cenários de cinema no meio da selva
A três quilômetros do centro, a Cascada de Texolo despenca de mais de 20 metros de altura. Essa queda d'água serviu de cenário para vários filmes de Hollywood, incluindo "Tudo por Esmeralda" com Michael Douglas e "Perigo Real e Imediato" com Harrison Ford. Um mirante oferece vista panorâmica, mas os mais dispostos podem descer pela trilha sinalizada até a base da queda.
A Cascada de la Monja fica a 20 minutos de caminhada de Texolo e forma uma piscina natural própria para banho. A trilha passa por meio de plantações de café e bananeiras. A entrada para as cachoeiras é gratuita, pagando-se apenas o estacionamento.
Dica de amigo: venha na estação das chuvas, de junho a setembro, para ver as cachoeiras com volume total. No resto do ano, o fluxo d'água diminui bastante.
O mole xiqueño: mais do que um prato, uma identidade
O mole de Xico se destaca pela suavidade. Mais adocicado que o primo de Puebla, ele leva mais de 25 ingredientes: pimentas mulato e pasilla, chocolate, amendoim, amêndoas, gergelim e, às vezes, banana-da-terra ou pão. A fábrica Mole Xiqueño produz perto de 500.000 quilos por ano.
Para provar o mole do jeito certo, vá ao estabelecimento de La Tía Celsa para uma versão caseira, ou ao restaurante Acamalin para enchiladas generosamente banhadas no molho. Os tamales canarios, feitos com manteiga e farinha de arroz, também merecem uma provada. Já a sopa de xonequi, um caldo de feijão temperado com uma erva aromática da região, esquenta as manhãs com neblina.
O café e as bebidas locais
A região produz um café arábica de altitude muito respeitado. Vários torrefadores vendem a produção direto na Avenida Miguel Hidalgo. No quesito bebidas típicas, experimente a mora, uma bebida alcoólica artesanal de amoras silvestres, ou o verde xiqueño, um digestivo feito com ervas da terra.
A festa de Santa Maria Magdalena: quando o vilarejo vira palco
Todo ano, de 15 a 23 julho, Xico celebra Santa María Magdalena com uma devoção impressionante. No dia 19, os moradores criam um imenso tapete de aserrín, um mosaico de serragem colorida espalhado por toda a extensão da avenida principal. No dia 20, um grande arco floral enfeitado com a flor de cucharilla é levado em procissão até a igreja.
O ápice acontece no dia 22 com a Xiqueñada: uma dezena de touros é solta pelas ruas, no estilo das tradicionais touradas de rua de Pamplona. O evento atrai entre 50.000 e 100.000 visitantes, por isso reserve sua hospedagem com bastante antecedência.
O Patio de las Palomas exibe mais de 600 vestidos bordados oferecidos à santa desde 1898. O Museo del Danzante Xiqueño mostra as fantasias dos payasos, palhaços com máscaras de madeira esculpida que desfilam durante as festividades batendo castanholas.
Onde comer e beber em Xico
O mercadito de Xico é o melhor lugar para um café da manhã reforçado: picaditas com pasta de feijão, chiles rellenos ou enmoladas acompanhadas de café passado na hora. O Mesón Xiqueño e o El Campanario, na avenida principal, servem pratos regionais caprichados em um ambiente colonial.
Às margens do rio Coyopolan, o restaurante do Hôtel Coyopolan tem mais de 400 pratos no cardápio, com destaque para a truta preparada de várias maneiras. Para quem quer economizar, o El Chinini serve petiscos tradicionais com vista para as montanhas.
Onde dormir em Xico e arredores
O Hôtel Agua Bendita oferece chalés com lareira e banheira de hidromassagem em meio à natureza. A Posada Los Naranjos, bem no centro, tem quartos bem cuidados a partir de 450 pesos (cerca de 140 reais). Para quem busca isolamento verde, as cabanas perto da cachoeira, como o Rincón de Texolo, permitem acordar com o som da água corrente.
A oferta de hotéis cresce em Coatepec, o Pueblo Mágico vizinho a 6 quilômetros. O Mesón del Alférez e o Hotel Casa Real del Café funcionam em casarões coloniais restaurados, facilitando o acesso aos dois vilarejos.
Como chegar e circular em Xico
Saindo da Cidade do México, pegue um ônibus da ADO até Xalapa. A viagem leva de 4 a 5 horas e custa entre 400 e 600 pesos (cerca de 125 a 185 reais). De Xalapa, vans chamadas combis saem com frequência do Parque Revolución. O trajeto dura 30 minutos e sai por volta de 20 pesos (cerca de 6 reais). De táxi, o trecho desde Xalapa sai por uns 200 pesos (cerca de 62 reais).
De carro a partir da capital, pegue a rodovia em direção a Puebla e depois siga para Xalapa, numa viagem de cerca de 4 horas. Para quem vem do porto de Veracruz, são 2 horas rumo ao interior. Quem chega de avião do Brasil aterrissa na Cidade do México, com algumas opções de voos de conexão para Xalapa.
Na cidade, dá para fazer tudo a pé pelo centro. Para ir às cachoeiras, um táxi partindo da praça custa de 50 a 80 pesos (cerca de 15 a 25 reais) o trecho.
Quando ir?
Os meses de novembro a maio trazem as melhores condições, com tempo seco e temperaturas amenas. A semana da festa de Santa Magdalena, entre 15 e 23 de julho, altera completamente a rotina do vilarejo e exige reserva de hospedagem com meses de antecedência. Evite setembro e outubro se quiser fugir das chuvas fortes e da neblina constante.
Xico é realmente um ótimo ponto de partida para explorar a produção de café. Plantações por toda parte ao redor da cidade, escondidas no meio das bananeiras. Muitas opções de caminhadas nos arredores.