Córdoba, a cidade mexicana onde a independência tem gosto de café
Em 24 de agosto de 1821, em um edifício de arcadas brancas voltado para uma praça arborizada, o último vice-rei espanhol Juan O'Donojú assinava a certidão de nascimento de uma nação. Os Tratados de Córdoba puseram fim a três séculos de domínio colonial.
Hoje, sob essas mesmas arcadas do Portal de Zevallos, os garçons servem café cultivado nas encostas vizinhas enquanto músicos tocam danzón perto do coreto. Esta cidade do estado de Veracruz vive no ritmo de suas fazendas de café e de suas lendas coloniais, longe dos roteiros turísticos tradicionais.
Uma parada para viajantes curiosos
Córdoba não é um destino de cartão-postal. A cidade cresceu rápido, às vezes sem coerência arquitetônica. Mas é justamente esse lado bruto, com sua vida local preservada do turismo de massa, que a torna cativante. Você vai cruzar com poucos viajantes estrangeiros. Os moradores, os Jarochos, estão entre os mexicanos mais calorosos do país.
Esta cidade atende aos amantes de café que desejam conhecer os bastidores da produção mexicana, do pé à xícara. Ela também agrada aos viajantes a caminho da costa do Golfo ou do Pico de Orizaba que buscam uma parada autêntica. Os apaixonados por história vão apreciar seu papel fundador na independência mexicana.
Algumas realidades práticas para conhecer
O centro histórico ao redor do Parque 21 de Mayo é percorrido facilmente a pé. Em contrapartida, as principais fazendas de café exigem transporte. O clima continua agradável o ano todo com média de 22°C, mas as tardes podem ser chuvosas de junho a novembro. O inglês não é comum e algumas noções de espanhol vão facilitar muito a sua comunicação.
A questão da segurança
O estado de Veracruz não tem a melhor reputação em termos de segurança. As autoridades consulares emitiram recomendações de cautela para certas áreas, incluindo Córdoba. Na prática, a estrada entre Puebla e Córdoba é um dos trechos rodoviários mais sensíveis do país para o transporte de cargas.
Para quem viaja, as precauções de uso se aplicam: evitar deslocamentos à noite em estradas secundárias, permanecer nas áreas turísticas e manter objetos de valor discretos. O centro e os pontos turísticos não apresentam problemas particulares durante o dia. A prefeitura anuncia uma queda significativa na criminalidade nos últimos anos, mas a vigilância continua necessária.
Um orçamento acessível para o México
Córdoba oferece excelente custo-benefício. Espere gastar de 600 a 1.500 pesos mexicanos por noite (cerca de 190 a 480 reais) em um hotel adequado com piscina. Uma refeição completa em um restaurante local custa entre 100 e 200 pesos (cerca de 32 a 64 reais). Os passeios guiados pelas fazendas com transporte e degustação giram em torno de 300 a 500 pesos (cerca de 95 a 160 reais). O ônibus desde a Cidade do México custa cerca de 500 a 750 pesos (cerca de 160 a 240 reais) dependendo da classe.
O centro histórico e suas arcadas
Tudo converge para o Parque 21 de Mayo, a praça central planejada segundo o modelo colonial espanhol clássico. De um lado, a Catedral da Imaculada Conceição e suas duas torres, um dos edifícios religiosos mais ornamentados do estado de Veracruz. Do outro, o Palacio Municipal, onde murais do artista Jaime Sánchez Nava contam a história local. O painel chamado "Córdoba para siempre" merece atenção, pois nele aparecem os primeiros habitantes pré-hispânicos, Yanga, o primeiro libertador de escravizados na América, e é claro a famosa Mulata de Córdoba.
Os portales, as arcadas que contornam a praça, abrigam cafés e lojas de artesanato. É aqui que as pessoas se sentam para pedir um café lechero ou um mint julep, o coquetel local à base de rum e hortelã fresca introduzido pelos franceses no século XIX.
Dica de amigo: aos sábados de manhã, o posto de turismo oferece uma visita guiada gratuita pelo centro histórico com duração de cerca de 1h10. O ponto de partida é no Museo del Café.
As fazendas de café: o coração pulsante da região
Córdoba se autodenomina o berço do café mexicano. As primeiras plantações da região datam da época colonial, e algumas fazendas premiadas em concursos internacionais abrem as portas aos visitantes. A visita geralmente inclui a descoberta dos pés de café arábica, a explicação do processo de colheita e torrefação, seguida por uma sessão de degustação chamada cata.
O Museo del Café, no centro, oferece uma excelente introdução ao tema. Nele você descobre uma "finca muestra" que apresenta nove variedades de café, ferramentas tradicionais dos produtores e fotografias de época. O passeio termina com uma degustação. O ingresso custa em torno de 50 pesos (cerca de 16 reais). Para uma imersão mais completa, fazendas periféricas como Cafetalera San Felipe ou Finca los Tres Caballeros oferecem experiências mais aprofundadas com almoço incluído.
A melhor época para visitar as plantações vai de novembro a março, durante a safra e o processamento.
Os arredores: fazendas históricas e aventura
A dez minutos do centro em direção ao leste, a Hacienda San Francisco Toxpan testemunha o passado açucareiro da região. Foi um dos primeiros engenhos de açúcar do México colonial. O site abriga hoje um museu sobre a arqueologia local e a história da cana-de-açúcar. A área arqueológica adjacente revela vestígios pré-hispânicos ainda pouco estudados.
Para quem busca aventura, Fortín de las Flores, a 30 minutos, oferece voos de parapente com vista para as montanhas. As pozas del río Atoyac perto de Amatlán de los Reyes, também a 30 minutos, permitem banho e caiaque em meio à natureza. O teleférico de Orizaba e o Pico de Orizaba, o pico mais alto do México com 5.636 metros, atraem os trilheiros mais experientes.
Um passeio de barco em estilo trajinera na Laguna El Porvenir oferece uma alternativa tranquila, perfeita no fim da tarde quando a luz fica dourada.
A lenda da Mulata de Córdoba
É impossível passar por aqui sem esbarrar nessa história. Nos tempos da Inquisição, uma mulher mestiça chamada Soledad vivia sozinha em Córdoba. Sua beleza e seus talentos como cur Seteavam tanta admiração quanto desconfiança. Quando o prefeito da cidade, rejeitado por ela, a acusou de feitiçaria, ela foi presa na fortaleza de San Juan de Ulúa, no porto de Veracruz. Na véspera da execução, ela pediu um pedaço de carvão. No dia seguinte, os guardas encontraram na parede da cela o desenho perfeito de um navio com as velas cheias. A Mulata havia desaparecido, embarcando segundo testemunhas naquele barco desenhado que partia rumo ao alto-mar. Ainda hoje é possível visitar a suposta cela em San Juan de Ulúa.
Onde comer e beber em Córdoba?
A gastronomia local reflete a miscigenação de Veracruz. Os tepejilotes, brotos de palmeira servidos com ovos ou carne, são uma especialidade regional. O chileatole, sopa de milho apimentada, e os tamales rancheros são fáceis de encontrar nas barracas de mercado. Para quem gosta de doces, a calabaza en tacha e as cocadas satisfazem os fãs de sobremesas tradicionais.
Sob as arcadas da praça principal, vários cafés servem o famoso café local acompanhado de picadas, tortillas grossas recheadas com feijão, queijo e molho. O Centro Cultural Casa Baltazar, uma antiga torrefação remodelada, oferece um ambiente mais moderno para saborear o café, com redes no piso superior e programação cultural regular.
Onde dormir em Córdoba e arredores?
O centro concentra a maior parte da oferta de hospedagem. Os hotéis ao redor do Parque 21 de Mayo permitem aproveitar a animação da praça a pé. O Hotel Layfer e o Hotel Palacio estão entre os mais bem avaliados pela localização. Para mais conforto, o Comfort Inn Córdoba, na periferia, conta com piscina e belos jardins. As famílias vão gostar das Villas Layfer, que oferecem cozinha compacta e área verde.
Quem busca charme pode se hospedar em Fortín de las Flores, uma vila vizinha famosa pelos jardins floridos e pelo clima mais sossegado.
Como chegar e circular em Córdoba?
Saindo da Cidade do México, ônibus da viação ADO partem regularmente da rodoviária TAPO e do aeroporto internacional. Espere de 4h30 a 6h de viagem dependendo do trânsito e da classe escolhida. As passagens custam entre 500 e 900 pesos (cerca de 160 a 290 reais). Do porto de Veracruz, a viagem leva apenas 1h30 por cerca de 200 pesos (cerca de 64 reais). Orizaba fica a apenas 30 minutos.
De carro desde a Cidade do México, pegue a rodovia 150D sentido Veracruz. A viagem leva cerca de 3h30. Chegando da Europa ou do exterior, o aeroporto mais próximo é o de Veracruz, atendido por voos com conexão na Cidade do México. O aeroporto de Puebla é outra alternativa, a pouco mais de 2h de carro.
No destino, o centro pode ser explorado facilmente a pé. Para passeios até as fazendas ou atrações naturais, táxis e excursões guiadas continuam sendo as opções mais práticas. Alugar um carro dá mais liberdade, mas exige atenção redobrada nas estradas.
Quando ir?
O período de março a maio combina temperaturas agradáveis e pouca chuva. Outubro e novembro também oferecem boas condições, coincidindo com o início da safra do café. Evite setembro, se possível, que é o mês mais chuvoso com risco de tempestades tropicais. O Festival dos Tratados de Córdoba movimenta a cidade todo ano por volta de 24 de agosto com shows, teatro e celebrações patrióticas. O Festival Internacional de Jazz também atrai visitantes ao Teatro Pedro Díaz.
Saindo de Veracruz em direção à subida do Pico de Orizaba, o mais alto do México, vale a pena fazer uma parada em Córdoba para visitar o museu do café e descansar na praça em frente à catedral, assistindo ao danzón dançado ao som das marimbas.