Em missão a trabalho, passei dois meses na Arábia Saudita, mais precisamente na capital, <strong>Riad</strong>, durante os meses de novembro e dezembro.
Para todos aqueles que, assim como eu, precisarem viajar para lá, compartilho um pouco da minha modesta experiência para que saibam o que esperar e possam se preparar da melhor forma para a viagem, já que este país não revela seus segredos facilmente (veja também o meu post «<a href="https://www.avygeo.com/fr/carnets-voyage/71-conseils-pour-un-voyage-en-arabie-saoudite" target="_blank">Dicas para uma viagem à Arábia Saudita</a>»).
Riad é indissociável da história do país: na época do primeiro reino saudita, Riad (ou Riyadh) fazia parte dele, mas sem ser a capital, pois essa função pertencia a <strong>Diriyah</strong>, hoje uma cidade nos arredores de Riad. Após as várias lutas travadas pela <strong>família Al Saud</strong>, e com a ajuda dos ingleses, eles chegaram ao poder conquistando Riad em 1902 (o <strong>museu do Forte Al Masmak</strong> testemunha isso hoje em dia). A cidade tornou-se a base para a reconquista do país e o reino atual nasceu em 1932. A família real governante ainda vive na zona oeste da periferia da cidade.
Trabalhar na Arábia Saudita
Os sauditas trabalham pouco pela manhã, fazem uma longa pausa à tarde, mas ficam acordados até tarde da noite. Trabalhar com eles expõe você a ligações ou reuniões por volta da meia-noite ou uma hora da manhã... Além disso, espere participar de «<strong>majlis</strong>» (grafia aproximada), que são reuniões sob tendas onde os homens bebem café ou chá, comem e conversam, especialmente sobre negócios, perto da fogueira. A propósito, se lhe passarem um recipiente com incenso, saiba que é de bom tom puxar a fumaça em direção ao corpo com gestos amplos da mão para se perfumar. Mas lembre-se de fechar os olhos: arde muito!
De resto, se não quiser beber litros e litros de café ou chá durante as reuniões de trabalho, lembre-se de balançar ostensivamente sua xícara ao devolvê-la ao seu anfitrião. Assim, ele saberá que você não quer mais e vai parar de servir. Depois, você comerá cordeiro e arroz com as mãos. As refeições são realmente fartas.
Outra surpresa para mim em relação ao trabalho por lá: um saudita, contratado por uma empresa francesa de obras públicas, apareceu no primeiro dia de trabalho com mais de duas horas de atraso. O empregador chamou sua atenção, mas ele nem se abalou. No dia seguinte, quem apareceu para trabalhar foi um filipino: o saudita havia terceirizado seu próprio emprego! Essa história é anedótica, é verdade, mas reflete bem a mentalidade de que os sauditas consideram certas tarefas indignas para eles, apesar do desemprego crescente no país.
Para terminar, é preciso entender que a noção de tempo e urgência deles não é a mesma que a nossa. Portanto, você precisará ter paciência e levar tudo isso com filosofia.
Como se locomover na cidade: o carro
Cidade banhada de luz e fervilhante de vida, Riad é <strong>o paraíso dos carros</strong>. Tudo foi planejado para que ninguém precise se deslocar a pé. Aliás, ser pedestre costuma ser quase uma tendência suicida, pois praticamente não existem calçadas. E os motoristas sauditas ou filipinos não demonstram nenhuma compaixão pelo pobre pedestre perdido. A imensa quantidade de carros também se explica pelo fato de a gasolina ser muito barata.
Resumindo, o trânsito nas vias é intenso e é comum ver acidentes de carro mais ou menos espetaculares. Dizem que as mulheres fazem uma prece ao Profeta para agradecê-lo quando o marido volta são e salvo... Durante a minha estadia, tive a oportunidade de ver um caminhão enferrujado e acabado que havia perdido uma roda, um carro equilibrando-se na mureta de um viaduto, pequenas colisões por toda parte e um carro com as quatro rodas para o alto atravessado na rodovia. É sempre impressionante, até porque o risco de engavetamento ou novo acidente é real: em caso de batida, os motoristas não devem mover os veículos até que a polícia e os seguradores cheguem, sob pena de terem a cobertura do seguro pura e simplesmente recusada. Felizmente, a polícia rodoviária está muito presente na infraestrutura da cidade, seja em viaturas caracterizadas ou descaracterizadas. Para os adeptos da velocidade, vale notar também que os radares fixos se multiplicaram e a fiscalização no trânsito tornou-se rigorosa, ao contrário do que acontecia há apenas cinco anos.
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Para sua informação, se você for dirigir, saiba que, diante de um semáforo vermelho fixo, se precisar virar à direita e não houver ninguém, você pode seguir. No começo parece estranho, mas a gente se acostuma rápido!
De qualquer forma, os fãs de carros bonitos e potentes vão ficar encantados, pois por lá se encontram todos os modelos mais luxuosos: <strong>Maserati, Ferrari, Porsche, Mercedes, BMW, Ford Mustang, Bentley, Lexus,</strong> etc. Algumas concessionárias são especializadas em uma única marca, mas outras são verdadeiros supermercados onde se encontram todas as marcas e modelos, desde que transpirem luxo.
Não existem verdadeiras redes de transporte público, embora você possa tentar pegar um ônibus fumacentor e lotado de filipinos, já que estes formam a maioria da imigração no reino. Alguns desses imigrantes se especializaram nesse tipo de transporte "paralelo": você o pega onde puder, paga antecipadamente pelo trajeto (sem saber bem onde vai descer...) e pula fora do ônibus quando achar que chegou ao destino. Caso contrário, restam os táxis.
A segurança
Na cidade, você talvez se assuste com a presença de vários postos de controle (check-points), carros blindados e policiais e militares espalhados ao redor de prédios sensíveis. Vale lembrar que o reino pagou um preço alto para o terrorismo islâmico durante os "anos de sangue" no início dos anos 2000.
Antes de adotar uma política firme contra os extremistas violentos, a Arábia Saudita meio que fechou os olhos para certas ações, mas isso acabou se voltando contra ela, principalmente com atentados contra suas autoridades máximas.
Hoje, a situação melhorou bastante, mas o reino continua lutando, o que explica as medidas de precaução adotadas por toda parte. Essas medidas ficam bem visíveis perto dos ministérios, especialmente o do Interior. Essa realidade também explica o motivo pelo qual os expatriados vivem agrupados em compounds, uma espécie de acampamento fortificado cercado por arame farpado e com entradas controladas por guardas armados.
O que fazer em Riade
Você não encontrará muitas opções de entretenimento além de visitar o único parque de atrações ou sentar na mesa de uma cafeteria para tomar chá ou café e fumar um narguile. Vale lembrar que você deve tirar da cabeça a ideia de tomar um chopp gelado na calçada: o álcool é proibido. Existem cervejas sem álcool com gosto de suco de maçã e vinhos sem álcool com um sabor... indefinível! Não há cinemas, teatros nem shows de música. Por isso, os jovens passam as noites, especialmente nos fins de semana, acelerando os motores potentes de seus carros ou andando de quadriciclo no equivalente à nossa avenida Champs-Élysées.
A cidade ganha vida de dia, mas também por boa parte da noite, quando a temperatura externa fica mais fresca e agradável.
Praticar esportes em Riade significa ir à academia. Os fãs de corrida vão se frustrar, pois não há estruturas adequadas e planejadas para isso. No entanto, é possível correr em algumas centenas de metros de calçada adaptada no centro (esqueci o nome dessa rua), que também serve como ponto de passeio para as famílias.
A cidade de Jidá é considerada um pouco a rival de Riade: mais liberal, ela desfruta de um regime um tanto especial que o poder vigente tenta conter. Por isso, os governantes buscam atrair investidores para a capital em vez de Jidá. Para isso, investem pesado fazendo surgir do chão vários complexos gigantescos destinados a abrigar empresas, o que explica a quantidade de guindastes que pontilham o céu saudita.
A cidade, principalmente na periferia, está repleta de enormes shoppings onde você pode fazer compras. Vale saber que, durante as liquidações, não há um limite máximo de desconto, então é possível encontrar promoções de até 90% de desconto sobre o preço original! E para fechar uma compra, sua palavra basta: se você não estiver com dinheiro no momento, sem problemas, pode voltar no dia seguinte. Só não se esqueça de que os centros comerciais fecham durante os horários de oração...
O que é imperdível
Arquitetura moderna
Você não vai conseguir deixar de notar duas torres gigantescas que se destacam no céu saudita sobre a cidade: a Kingdom Tower (ou Kingdom Centre) e a Faisaliah Tower.
As duas valem muito a pena. A primeira tem 302 metros de altura e formato de um enorme abridor de garrafas. É possível visitá-la pagando ingresso, o que permite ter uma vista panorâmica de Riade e perceber a imensidão da cidade. É preciso dizer que ela não para de crescer, pois as construções se espalham horizontalmente e crescem pouco para cima. Os sauditas preferem morar cada um na sua casa, protegidos dos olhares alheios por trás de muros altos.![]()
Por outro lado, as torres residenciais têm altura regulamentada para não desafiar a Deus. Assim, as torres que visitamos não tinham apartamentos nosandares mais altos, sendo esses reservados para escritórios, o que permitia contornar as restrições.
Quanto à segunda torre, tive o prazer de jantar no restaurante localizado dentro da esfera. Além dos pratos refinados, a vista é deslumbrante, desde que você tenha o cuidado de pedir uma mesa perto das janelas de vidro. Antes de descer, passe pelo fumódromo, onde você encontrará uma vista ainda mais impressionante da cidade lá embaixo.
Os museus
Existem dois museus principais. O primeiro é o museu do forte Al Masmak. Ele reconta a tomada de Riade por Abd al-Aziz ben Abd al-Rahman Al Saoud em 1902. Ali é possível ver o poço, fonte de vida, ao redor do qual o forte foi construído, além de amostras do artesanato da época. A visita costuma ser rápida, pois as coleções estão em processo de reformulação. Também há uma maquete de como era Riade no momento de sua conquista, no início do século XX.
O segundo é o museu King Abdelhaziz (ou Centro Histórico do Rei Abdulaziz).
Este último é um pouco evitado pelos sauditas, pois gera um certo mal-estar. Afinal, ele evoca a possibilidade de terem existido vestígios de vida antes do nascimento do Profeta. Essas descobertas arqueológicas às vezes são refutadas por religiosos mais rígidos, e o museu não exibe todas as peças encontradas. Por isso, há grandes chances de que, assim como eu, você acabe tendo o museu inteirinho só para você. Ele realmente vale a pena se você quiser aprender um pouco mais sobre o país.
O souk
Ao estacionar no bolsão próximo ao forte Al Masmak, você poderá caminhar até o souk, onde encontrará joias de ouro, além de tecidos e pergaminhos de qualidade. Pode ser a oportunidade perfeita para garantir uma túnica *thobe*, um *ghutra* ou uma bengala para camelo. Esse bairro é apontado como o centro histórico da cidade. De qualquer forma, é o mais antigo e típico, contrastando com as construções modernas e sem alma do restante da metrópole.
Apenas um detalhe útil: alguns caixas eletrônicos (nos quais é possível sacar riais diretamente com cartões internacionais, sem precisar ir a uma casa de câmbio) localizados nos arredores do souk são programados para não liberar dinheiro durante os horários de oração.
O mercado de "camelos"
Esse *camel market* é, na verdade, um mercado de dromedários, já que os camelos não são nativos desta região. Para encontrá-lo, basta perguntar aos moradores ou aos taxistas, todos o conhecem. Localizado nos arredores da cidade, abriga tendas de beduínos que vendem os animais. Os nobres sauditas adoram ter um dromedário, principalmente para corridas. Alguns espécimes são vendidos por somas astronômicas (às vezes um milhão de riais, ou seja, mais de 215.000€!). É bem provável que ofereçam para você provar um pouco de leite de "camela". Não hesite, pois faz muito bem para a saúde. Por outro lado, cuidado se você tiver o estômago sensível!
Outra coisa importante sobre essas belas criaturas: embora lhes atribuam uma inteligência superior, os dromedários às vezes perdem a paciência. Nesses momentos, fique atento: o animal não dá coices para trás como se espera. Ele desfere patadas laterais! E, por experiência própria, isso dói bastante...
O deserto
Como mencionei na minha primeira publicação sobre a Arábia Saudita, recomendo que você saia um pouco de Riade para explorar o deserto. Atenção: esse passeio não deve ser improvisado, e você precisará tomar todas as precauções necessárias, incluindo verificar os alertas sobre atividade terrorista na península arábica, especialmente perto da fronteira com o Iêmen. Para isso, consulte o site da embaixada, atualizado regularmente conforme a evolução dos conflitos.
O deserto saudita nessa região é um pouco rochoso. Ele abriga belos cenários e, se possível, não deixe de assistir a um pôr do sol: é simplesmente espetacular!
Para concluir, como você deve ter percebido, esta cidade oferece uma cultura totalmente diferente do nosso estilo de vida ocidental. Por exemplo, a chamada para a oração e as ruas que se esvaziam de repente são momentos marcantes de se vivenciar. Nesse sentido, a experiência é extremamente enriquecedora. Por outro lado, em termos de entretenimento, oito dias serão mais do que suficientes para ver tudo o que ela tem a oferecer, especialmente porque é muito difícil (quando não impossível e desaconselhado para não muçulmanos) entrar em alguma das várias mesquitas da cidade para conhecer de perto a arquitetura islâmica. Portanto, leve bastante material de leitura e aproveite para mergulhar na história turbulenta do reino: há muito o que aprender por lá!
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