A Arábia Saudita, o gigante que sai da sombra
A areia vermelha de AlUla range sob os seus passos. Bem na sua frente, tumbas nabateias esculpidas na rocha há dois milênios, tão majestosas quanto as da Petra, mas sem as multidões.
Bem-vindo à Arábia Saudita, um país quatro vezes maior que a Alemanha, que começou a abrir suas portas aos turistas em 2019. Por aqui, os arranha-céus futuristas de Riyad dividem espaço com oásis milenares, os recifes de coral preservados do mar Vermelho competem com as Maldivas, e a hospitalidade local surpreende pela generosidade.
Um reino que não agrada a todo mundo
Este país fascina tanto quanto gera dúvidas. Se você sonha com sítios arqueológicos preservados do turismo de massa, mergulho em águas cristalinas ainda intocadas ou estradas deserticas espetaculares, a Arábia Saudita vai te conquistar. Quem viaja com passaporte brasileiro precisa solicitar o visto eletrônico antecipadamente. Os amantes de aventura, road-trips e aqueles que valorizam o contato autêntico com as populações locais encontram aqui um destino fora do comum.
Os sauditas demonstram uma curiosidade genuína em relação aos visitantes estrangeiros e praticam uma hospitalidade sincera, com café árabe e tâmaras oferecidos espontaneamente.
Por outro lado, esta viagem não é para qualquer um. O consumo de álcool é estritamente proibido em todo o país, inclusive nos hotéis internacionais. Demonstrações de afeto em público são proibidas. Viajantes LGBTQ+ devem estar cientes de que a homossexualidade é severamente reprimida por lei.
O país continua conservador apesar das reformas recentes, e a infraestrutura turística permanece limitada fora dos grandes centros. Se você busca uma agitação noturna intensa ou lida mal com calor extremo, melhor escolher outro destino.
Mulheres podem viajar sozinhas para a Arábia Saudita?
A resposta é sim. Desde 2019, as mulheres não precisam mais de um tutor masculino para viajar pelo país. A abaya preta deixou de ser obrigatória para turistas estrangeiras, embora ainda se espere uma vestimenta modesta: ombros e joelhos cobertos, sem roupas coladas ao corpo.
Em cidades grandes como Jeddah ou em AlUla, os costumes mudam rápido. Mulheres que viajam sozinhas costumam relatar experiências positivas, marcadas pelo respeito e pela curiosidade dos locais em vez de assédio. Para entrar em mesquitas abertas a visitantes, leve um lenço na bolsa.
Meca e Medina: proibidas para não muçulmanos
Este ponto é inegociável. Meca e Medina, as duas cidades santas do islamismo, continuam estritamente proibidas para não muçulmanos. Há barreiras de fiscalização nas rodovias de acesso. Planeje seu roteiro com atenção a isso.
Prepare o bolso com antecedência
A Arábia Saudita não é um destino barato. Reserve de 200 a 350 SAR por dia (cerca de 300 a 530 reais) para um estilo de viagem moderado: diárias em hotéis corretos entre 150 e 400 SAR (cerca de 225 a 600 reais), refeições locais de 15 a 40 SAR (cerca de 22 a 60 reais), e ingressos para atrações entre 20 e 100 SAR (cerca de 30 a 150 reais). O visto eletrônico custa cerca de 500 SAR (cerca de 750 reais) já com o seguro básico incluído. As grandes distâncias muitas vezes exigem voos domésticos ou aluguel de carro, o que encarece o orçamento.
Os tesouros arqueológicos que competem com Petra
AlUla é a grande estrela turística do país. Este vale no noroeste abriga Hegra, o primeiro local saudita reconhecido como Patrimônio Mundial da UNESCO. Mais de 110 tumbas monumentais esculpidas no arenito pelos nabateus no primeiro século da nossa era se erguem no meio do deserto. Os mesmos artesãos construíram Petra na Jordânia, mas Hegra recebe uma fração mínima de visitantes. As fachadas adornadas com colunas e frises funerárias contam a história de uma civilização mercantil que controlava as rotas do incenso.
A visita a Hegra é feita exclusivamente em tour guiado, seja em ônibus com ar-condicionado ou em um Land Rover antigo para uma experiência mais imersiva. O ingresso custa a partir de 95 SAR (cerca de 145 reais). Os passeios de balão ao amanhecer oferecem um visual inesquecível, embora caros. Além de Hegra, AlUla revela uma cidade velha de tijolos de barro abandonada, a formação rochosa Elephant Rock em formato de elefante gigante, e Jabal Ikmah, uma biblioteca a céu aberto coberta por milhares de inscrições antigas.
Dica de amigo: reserve seus passeios no site oficial Experience AlUla com várias semanas de antecedência, principalmente entre dezembro e março. Os horários esgotam rápido.
Diriyah e o berço do reino
A poucos minutos de Riyad, o bairro de At-Turaif em Diriyah mostra as origens da Arábia Saudita moderna. O local da UNESCO traz as ruínas restauradas da primeira capital saudita, com palácios e mesquitas de terra batida. A área passou por um projeto massivo de revitalização e hoje reúne restaurantes sofisticados e espaços culturais no terraço de Bujairi.
A costa do mar Vermelho, o segredo mais bem guardado do Oriente Médio
Esqueça Sharm el-Sheikh e suas hordas de turistas. A costa saudita do mar Vermelho continua muito preservada, com recifes de coral em excelente estado e visibilidade submarina que chega a 40 metros. Umluj, apelidada de "Maldivas da Arábia", forma um arquipélago de mais de 100 ilhas de águas azul-turquesa cercadas por areia branca. Mergulhadores encontram mais de 300 espécies de corais e 1.200 de peixes, incluindo espécies exclusivas do mar Vermelho.
A infraestrutura ainda é simples se comparada a destinos de praia tradicionais, o que garante o charme do lugar. Barcos de turismo em massa são proibidos na área do Red Sea Project, mantendo as praias em calmaria absoluta. Passeios de barco até ilhas como Jabal Hassan permitem nadar com tartarugas, observar dugongos e, às vezes, golfinhos. Mergulhadores experientes aproveitam os naufrágios e paredões perto de Al Wajh.
Yanbu e Jeddah contam com escolas de mergulho estruturadas para quem prefere suporte profissional. A orla de Jeddah oferece um ótimo passeio no fim do dia, quando o calor diminui.
Jeddah, a porta de entrada para o mar
Mais cosmopolita e relaxada que Riyad, Jeddah conquista pela atmosfera menos rígida. O centro histórico de Al-Balad vale uma tarde inteira de caminhada. Suas casas de coral com varandas de madeira trabalhada, chamadas de mashrabiyas, formam um labirinto fotogênico protegido pela UNESCO. Lojas de especiarias e tecidos mantêm viva uma tradição comercial secular.
A cidade moderna exibe arranha-céus, shoppings refrigerados e restaurantes de culinárias do mundo todo. É ali que as regras de vestimenta são mais flexíveis, e as mulheres sauditas têm um pouco mais de liberdade comparadas ao resto do país. O calçadão à beira-mar convida a aproveitar a brisa no fim da tarde.
O deserto e suas falésias monumentais
A cerca de uma hora de carro de Riyad, Jebel Fihrayn, conhecido como Edge of the World (Fim do Mundo), entrega uma vista impressionante. Esta falésia de 300 metros de altura domina um cânion que se estende até o horizonte, vestgio de um antigo fundo marinho. O acesso exige um veículo 4x4 e, de preferência, um guia local. O pôr do sol ali ganha tons surreais.
O deserto de Rub al-Khali, o Bairro Vazio, forma a maior extensão de dunas contínuas do planeta. Suas dunas vermelhas e laranjas se espalham por centenas de quilômetros. Alguns acampamentos permitem dormir sob as estrelas no estilo beduíno. A experiência é rústica, mas marcante para quem busca isolamento total.
Ao sul, a região de Asir e suas montanhas verdes quebram o estereótipo desértico do país. Abha e Taif oferecem temperaturas amenas mesmo no verão, vilarejos empoleirados de arquitetura colorida e vegetação surpreendente, onde macacos babuínos selvagens aparecem com frequência.
A Arábia Saudita no prato: generosidade e especiarias
O kabsa reina absoluto nas mesas sauditas. Este prato nacional combina arroz longo temperado com cardamomo, canela, cominho e limão-secou, coroado com carne cozida lentamente. Seja frango ou cordeiro, as porções são fartas e servidas em grandes travessias para compartilhar. Nos locais tradicionais, come-se sentado em almofadas no chão, usando apenas a mão direita. Os sauditas lideram o consumo mundial de frango, e o kabsa explica parte dessa estatística.
O mandi, primo iemenita do kabsa, ganha destaque pelo cozimento lento em forno subterrâneo que deixa a carne extremamente macia. Os mezze costumam acompanhar as refeições: homus, falafel, folhas de uva recheadas. As tâmaras aparecem em dezenas de variedades. O café árabe, aromatizado com cardamomo e servido em xícaras pequenas sem alça, sela cada recepção. Recusá-lo é considerado falta de educação.
Para quem economiza, lanchonetes populares servem pratos de arroz com frango por 8 a 15 SAR (cerca de 12 a 23 reais). A culinária de rua existe, mas é menos desenvolvida do que em outras partes do Oriente Médio.
Quando ir à Arábia Saudita?
A melhor época vai de novembro a março. Os termômetros ficam entre 20°C e 28°C na maioria das regiões, tornando os passeios bem agradáveis. As noites no deserto costumam ser frias, então leve um casaco. É também a alta temporada, com eventos culturais como o Winter at Tantora em AlUla e festivais em Riyad.
O verão, de maio a setembro, traz um calor sufocante que frequentemente ultrapassa os 45°C. Apenas as áreas montanhosas do sudoeste, como Abha, continuam suportáveis. O Ramadã, cujas datas mudam anualmente, altera a rotina das viagens: restaurantes fecham durante o dia e o ritmo da cidade inverte. A menos que você queira vivenciar essa imersão religiosa, melhor evitar essa época.
Como chegar à Arábia Saudita?
A companhia aérea nacional opera voos frequentes para Riyad e Jeddah, com conexões fáceis a partir de hubs europeus ou do Oriente Médio. Companhias como Emirates, Qatar Airways e Etihad oferecem rotas via suas capitais com tarifas competitivas. No inverno, há até voos diretos sazonais para AlUla a partir de capitais europeias.
Espere gastar entre 3.000 e 6.000 BRL para uma passagem de ida e volta, dependendo da antecedência. Companhias low cost como a Wizz Air voam para Jeddah e Riyad a partir de cidades da Europa, mas com pontualidade nem sempre garantida.
O visto eletrônico é emitido online pelo site oficial Visit Saudi em poucos dias. Ele custa cerca de 500 SAR (cerca de 750 reais), inclui seguro saúde obrigatório e permite múltiplas entradas por um ano, com estadias de até 90 dias por vez. Cidadãos brasileiros precisam emitir o visto com antecedência.
Como se deslocar na Arábia Saudita?
As distâncias continentais tornam os voos domésticos essenciais para cruzar o país. Companhias como Saudia, Flynas e Flyadeal cobrem o território com preços justos. O voo entre Riyad e AlUla leva 1h30, contra 12 horas ao volante.
O aluguel de carro traz a liberdade ideal para explorar no seu próprio ritmo. As rodovias principais são excelentes e bem sinalizadas, e a gasolina custa muito pouco. Locadoras internacionais como Budget operam nos aeroportos. Fique atento aos limites de quilometragem nos contratos. A direção dos motoristas locais pode exigir atenção redobrada pelo estilo audacioso.
Os ônibus da SAPTCO conectam as grandes cidades por preços baixos, com venda online. A rede ferroviária ainda está em expansão. Nas metrópoles, aplicativos como Careem e Uber funcionam perfeitamente e eliminam a necessidade de negociar corridas com táxis tradicionais. O transporte público urbano ainda engatinha, embora o metrô de Riyad esteja em fase final de implantação.