Marraquexe, quando o caos vira arte
O cheiro chega antes de os seus olhos se acostumarem à claridade. É uma mistura de cominho tostado, couro curtido e flor de laranjeira, trazida por uma brisa que parece vir de outro século. Nas vielas da medina, um vendedor de khobz equilibra na cabeça uma tábua cheia de pães recém-saídos do forno coletivo do bairro.
A poucos metros, o ronco de uma mobilete abafa o chamado para a oração que ecoa do minarete da Koutoubia. A cidade vermelha existe há quase um milênio e se recusa obstinadamente a desacelerar.
Uma cidade que não deixa ninguém indiferente
Este destino atrai quem gosta de sair da zona de conforto. Se você curte o imprevisto, o acaso e surpresas pelo caminho, vai se dar muito bem. Quem ama artesanato, gastronomia e arquitetura vai encontrar aqui um prato cheio.
Vamos ser sinceros: o ritmo cansa. A abordagem constante de vendedores nos souks, falsos guias que aparecem em cada esquina, o calor forte e o barulho contínuo exigem preparo mental. Quem viaja em busca de silêncio pode achar a experiência puxada. O GPS costuma ficar perdido no labirinto da medina, e andar sem rumo faz parte do programa.
Um bolso amigável para o viajante brasileiro
Reserve entre 400 e 800 MAD por dia (cerca de R$ 220 a R$ 440) para uma viagem confortável, incluindo riad, três refeições e alguns passeios. Uma cama em hostel custa de 80 a 150 MAD por noite (cerca de R$ 45 a R$ 85), enquanto um riad charmoso sai por 400 a 800 MAD (cerca de R$ 220 a R$ 440). Um bom tajine em um botequim local custa de 30 a 50 MAD (cerca de R$ 16 a R$ 27).
A praça Jemaa el-Fna e a medina: o coração que não para
Tudo começa e termina nesta praça, considerada Patrimônio Imaterial da Humanidade pela UNESCO. De manhã, ela pertence aos vendedores de suco de laranja espremido na hora a 4 MAD o copo (cerca de 2 reais). A partir das 17h, o cenário muda completamente. Contadores de histórias, músicos gnawa, encantadores de serpentes e barracas de comida tomam conta de tudo. Parece um programa puramente turístico, mas famílias locais jantam ali todas as noites.
A medina funciona como um organismo vivo. Atrás de portas sem identificação existem riads com pátios internos cobertos de zelliges, aqueles azulejos de mosaico pintados à mão. Cada quadra tem seu forno coletivo onde os moradores assam o próprio pão, seu hammam e seu mercadinho. Os artesãos continuam trabalhando o couro, o cobre e a madeira de cedro com técnicas passadas de geração em geração.
Dica de amigo: visite os souks bem cedo, antes das 9h, quando as lojas estão abrindo as portas. É o único momento para fotografar com calma e observar o trabalho dos artesãos sem a pressão dos vendedores.
Os monumentos: entre a riqueza arquitetônica e o sossego
A medersa Ben Youssef vale a viagem por si só. Esta antiga escola coranica do século XVI já abrigou até 900 estudantes. Suas paredes de estuque trabalhado, o pátio central e os quartos dos alunos mostram o auge da arquitetura islâmica no Marrocos. A entrada custa 100 MAD (cerca de R$ 55). Chegue no horário de abertura para curtir o pátio antes da chegada dos grupos de turistas.
O palácio da Bahia espalha seus 8 hectares de jardins e 150 cômodos com tetos pintados. O espaço foi construído no século XIX para um vizir que queria ostentar poder. O jardin Majorelle, com seu azul marcante idealizado por um pintor francês e salvo por Yves Saint Laurent, traz um respiro de sombra e verde. Já o palácio El Badi, em ruínas mas muito tranquilo, é o refúgio perfeito para fugir da multidão.
Além da medina: Gueliz e os arredores
O bairro de Gueliz mostra o outro lado da cidade. Essa área nova, construída durante o período do protetorado francês, tem avenidas arborizadas, cafés em estilo art déco e galerias de arte moderna. É o ponto de encontro dos moradores mais descolados para um brunch de fim de semana no restaurante +61 ou no Chez Elle. O contraste com a medina é impressionante.
A 45 minutos de carro, o deserto de Agafay permite dormir sob as estrelas sem precisar encarar as 9 horas de estrada até o Sahara. Suas colinas rochosas são uma ótima alternativa para quem tem poucos dias. As montanhas do Atlas, que aparecem no horizonte a partir dos terraços da cidade, convidam para trilhas de um dia em vilarejos berberes. Para quem quer ver o mar, a charmosa cidade costeira de Essaouira fica a 2h30 de ônibus.
Dica de amigo: reserve uma aula de culinária em um riad. Você vai ao mercado de Rahba Kedima com o chef para escolher as especiarias e depois prepara o seu próprio tajine. É o melhor jeito de entender os segredos da cozinha local, por cerca de 400 MAD por pessoa (cerca de R$ 220).
Onde comer e beber em Marraquexe?
A culinária marraquina gira em torno de pratos clássicos. O tajine, cozido lentamente em uma panela de barro cônico, ganha dezenas de variações: frango com azeitonas e limão siciliano, cordeiro com ameixas secas e amêndoas, ou legumes com especiarias. A tanjia é a especialidade máxima da cidade, feita com paleta de cordeiro marinada e cozida por 5 horas nas cinzas do forno do hammam do bairro.
Para comer como quem mora lá, vá ao restaurante Chaabi, perto da praça Jemaa el-Fna, onde um tajine sai por cerca de 50 MAD (cerca de R$ 27). O Chez Chegrouni, na esquina da praça, serve pratos fartos há décadas. A Terrasse des Épices aposta em uma culinária marroquina repaginada com vista para os telhados da medina. Para provar a culinária de rua sem preocupações, um tour noturno guiado é a melhor pedida para evitar surpresas com a digestão.
Onde dormir em Marraquexe e arredores?
Ficar em um riad dentro da medina é a experiência mais autêntica. Essas casas tradicionais construídas ao redor de um pátio garantem silêncio e frescor longe do movimento das ruas. Os arredores da rua Mouassine e do Mellah oferecem opções aconchegantes e com preços justos, um pouco fora do circuito mais turístico.
O bairro de Gueliz agrada quem faz questão de estrutura moderna, com hotéis mais em conta que contam com estacionamento e piscina. Já a região chique da Hivernage reúne hotéis de luxo como o lendário La Mamounia, bem no meio do caminho entre a medina e a parte nova.
Como chegar e circular em Marraquexe?
O aeroporto Menara fica a 6 km do centro. Uma corrida de táxi até a medina custa entre 70 e 150 MAD (cerca de R$ 38 a R$ 80), dependendo da sua habilidade na negociação. O ônibus L19 liga o aeroporto à praça Jemaa el-Fna por 4 MAD (cerca de 2 reais). Os aplicativos Careem e Heetch funcionam bem na cidade e ajudam a fugir do estresse do taxímetro.
Para quem sai do Brasil, há voos com conexão na Europa (como Madri, Lisboa ou Paris) rumo a Marraquexe. Dentro da medina, esqueça os veículos: tudo é feito a pé. Os táxis pequenos de cor bege circulam livremente pela cidade nova, mas não entram nas ruas estreitas do centro histórico.
Quando ir?
A primavera e o outono trazem o clima ideal. De março a maio e de setembro a novembro, os termômetros ficam entre 20°C e 28°C, perfeitos para caminhar pela medina sem sofrer com o calor. O verão deve ser evitado, pois os dias ultrapassam facilmente os 40°C e transformam as vielas em uma verdadeira fornalha.
O mês do Ramadã exige planejamento. A atmosfera noturna após o pôr do sol é mágica com as ruas cheias de vida, mas o funcionamento durante o dia pode ser lento, com comércios fechados e atendimento reduzido. Vale a pena conferir o calendário lunar antes de marcar a viagem.
Marraquexe continua sendo a capital turística de Marrocos, a cidade é hoje muito procurada.
É verdade que a cidade vermelha se desenvolve muito rápido, mas está mais acolhedora do que nunca e vai com certeza conquistar você!
Eu adorei seus novos riads, seus restaurantes variados, seus habitantes calorosos e seu patrimônio único.
A partir da praça Jemaa el fna, eu admirei as montanhas e os jardins emoldurados por palmeiras gigantes.