Se eu te disser "road trip pelos Estados Unidos", você com certeza vai me responder: "Rota 66". Pois bem, caros leitores e amigos, sinto em informar que vocês estão "indo pelo caminho errado", pois hoje, neste artigo, não vamos falar da Rota 66, mas sim de outra rota igualmente emblemática e fascinante, embora mais secreta e menos conhecida pelo grande público... Senhoras e senhores, tenho a honra de apresentar aquela que apelidamos de "Rota do Blues", ou seja, a "Rota 61" em todo o seu esplendor, ou melhor, em todo o seu asfalto, , já que vou levá-los a descobri-la de ponta a ponta em uma viagem de carro que vai de Nova Orleans até Chicago, passando por algumas cidades icônicas da música americana, como Memphis e Clarksdale. Nesses lugares, a música reina absoluta e parece ter parado o tempo, nos transportando direto para a época de Elvis Presley, a MAIOR figura do rock'n'roll, ou do ilustre B.B. King, o ícone do blues por excelência.
Então, o que me dizem? Estão prontos para uma escapada de 1.600 km ao longo do rio Mississippi onde, mais do que uma simples peregrinação musical, o que vos espera de verdade é uma viagem fascinante pela história: a história dos escravos nas plantações de algodão do sul dos Estados Unidos e a da América segregacionista, mas também uma viagem pelas paisagens "bigger than life" (maiores que a vida) dos Estados Unidos da América?
Se sim, tenho apenas um conselho a dar: preparem uma boa "possante" ou um bom conversível, encham o tanque até a boca e não se esqueçam de levar a gaita ou a vossa trilha sonora favorita para vos acompanhar nesta road trip belíssima e repleta de musicalidade.
Pessoalmente, meu companheiro e eu escolhemos uma possante Harley Davidson com assentos bem fofinhos e confortáveis, e posso dizer que, com o rosto ao vento ao som de uma boa música country, tivemos realmente a sensação de estar nas portas do paraíso durante toda a nossa jornada!

1/ Etapa 1: Nova Orleans.


Tudo começa aqui, neste lugar que poderíamos considerar uma das joias da América, uma cidade que não se parece com nenhuma outra nos Estados Unidos, que coleciona apelidos sem fim, mas entre os quais destacamos especialmente o de "Big Easy", que traduz perfeitamente o estilo de vida local, marcado por uma descontração e liberdade únicas. Esta joia da Luisiana vive exclusivamente para a culinária e para a música, especialmente o jazz, que nasceu ali e continua ecoando em cada esquina e em cada bairro. Esta antiga colônia francesa e espanhola tornou-se, sucessivamente, terra de acolhimento para milhares de escravizados africanos, além de inúmeros refugiados cajuns e caribenhos... Em suma, esta cidade de uma miscigenação incrível pela qual me apaixonei completamente: Nova Orleans, um dos meus maiores amores desta road trip!
Meu queridinho
Na verdade, um dos motivos que explica minha paixão à primeira vista por essa cidade atípica é sua arquitetura incomparável. E quando digo arquitetura, refiro-me evidentemente àquelas casas coloridas com balcões espetaculares de ferro forjado, que parecem uma renda finamente trabalhada; aquelas antigas casas coloniais de estilo espanhol que você vai encontrar, contra todas as expectativas, no antigo bairro francês, também conhecido como Vieux Carré ou French District, o centro histórico da cidade, um lugar emblemático e muito famoso que você simplesmente não pode perder!


"Muito famoso", em especial, por causa da "Bourbon Street", a rua mais conhecida do bairro por sua atmosfera festiva e vibrante que, ao cair da noite, vira o verdadeiro playground de todos os foliões e turistas!


Aliás, não é aconselhável passear por lá à noite com seus filhos, pois a devassidão e a luxúria estão bem presentes! Mas se você estiver isento de obrigações e responsabilidades parentales, então, acima de tudo, não se prive e deixe-se levar pela embriaguez dessa rua extremamente agitada, onde a música está por toda parte, onde o álcool corre solto e onde as palavras "complexo" e "julgamento" perdem totalmente o sentido... Por tê-la atravessado no fim da tarde, posso lhe dizer que até Las Vegas, apelidada de "cidade do pecado", é uma mera aprendiz em comparação!
Mas, acima de tudo, que isso não lhe dê uma má imagem do Vieux Carré, que não se resume a essa rua, mas na verdade abriga cento e vinte quarteirões, cada um mais colorido, suntuoso e fascinante que o outro, onde os tijolos, os pátios internos e as fontes de belas mansões que parecem casas de boneca mostram inexoravelmente que a influência espanhola supera em muito a influência francesa, embora esta última ainda esteja bem presente com nomes de ruas tipicamente franceses como Orléans Street, Toulouse Street, Chartres Street, Bourbon Street e muitos outros...
Portanto, se eu pudesse lhe dar um conselho, não hesite em vagar, flanar e, sobretudo, sonhar por estas pequenas ruas deliciosas e requintadas deste bairro antigo, até porque são mínimas as chances de você se perder, dado o seu plano retangular com um traçado perfeitamente milimetrado!
Inclusive, se você o seguir escrupulosamente, ele o levará a monumentos de enorme beleza, como a Catedral de St. Louis, seu presbitério ou até mesmo The Cabildo (antiga sede do governo onde foi assinada a compra da Luisiana para os Estados Unidos em 1803, hoje transformada em um museu dedicado à história deste estado). Não muito longe dali, você também encontrará a Jackson Square, Plaza de Armas (a antiga praça de armas) com seus músicos e pintores que encantam todos os dias os ouvidos e os olhos dos transeuntes maravilhados, sem esquecer as autênticas charretes puxadas por mulas alinhadas na Decatur Street, que prometem uma visita inesquecível pelo bairro!
Por fim, não vá embora de Nova Orleans sem andar em um de seus bondes pitorescos, cujo ponto de partida fica na Canal Street (outra rua imperdível!) e que o levarão até as margens do Mississippi, mais precisamente ao Riverfront, , onde outra grande surpresa o aguarda: o histórico e mítico navio a vapor "Natchez", diante do qual você não terá outra escolha senão se encantar, além de poder embarcar nele para um cruzeiro mágico e memorável, uma viagem inédita através do tempo...
Uma viagem que começa especialmente assim que o Natchez deixa o porto, quando seu sino de cobre começa a tanger, quando sua grande roda de pás de 25 toneladas agita as águas do rio e quando um carrilhão começa a tocar melodias do Velho Sul, transportando-o de volta diretamente aos aromas suaves e deliciosos daquela época em que o algodão era rei e Nova Orleans era uma cidade portuária vibrante que maravilhava os visitantes com sua cultura crioula, africana, americana e europeia cheia de cor!
Aliás, esse lado multicultural continua bem presente hoje em día, especialmente através das diversas especialidades culinárias que a cidade oferece a qualquer bom-vivant que queira se render à tentação... Pessoalmente, não precisei de insistência! Ao mesmo tempo, como resistir a um imperdível "po’ boy", "jambalaya", "gumbo" ou até mesmo aos tradicionais beignets frescos e açucarados que são o orgulho da cidade e que você pode saborear em um dos inúmeros restaurantes do French District? Tendo provado e saboreado esses pratos típicos até a última garfada, posso garantir que partir da Big Easy sem experimentar sua culinária seria uma verdadeira heresia!
É assim, com essa nota saborosa e colorida, que se encerra a nossa primeira parada em Nova Orleans, cuja beleza melancólica soube nos subjugar e nos enfeitiçar, e da qual guardaremos como particularidade única: não pertencer a nenhum estilo e, ao mesmo tempo, ter se apropriado de todos eles...

2/ Etapa 2: Natchez
Se a emoção foi grande no momento de deixar aquela que tanto nos encantou, nossa tristeza logo se dissipou quando chegamos, após umas boas três horas de estrada, às portas da segunda cidade da nossa road trip: Natchez, onde uma bela porção de consolações nos esperava...
Primeira consolação, e não menos importante: foi aqui que meu companheiro me pediu em casamento!
Segunda consolação, para uma apaixonada por casas americanas como eu: Natchez transborda de inúmeros tesouros a céu aberto!

História local
Dito isso, dá para entender por que esta cidade ocupa um lugar tão especial no meu coração e por que eu estava ansiosa para apresentá-la a vocês. Mas, antes de mais nada, deixe-me dar alguns detalhes históricos para ajudar a compreender e apreciar melhor a visita.
Para começar, Natchez deve seu nome aos índios Natchez, seus primeiros habitantes. Embora essa tribo adoradora do sol tenha levado uma existência relativamente pacífica por muitos e muitos anos, o cotidiano deles acabou sendo um pouco abalado com a chegada dos franceses, que construíram em 1716 o Forte Rosalie na encosta escarpada do Mississippi (cujos vestígios das muralhas podem ser observados do Bluff Park, o parque histórico nacional de Natchez que não deve ser perdido por nada neste mundo, mas já vamos falar disso...).
Bom, até aqui, sem problemas ou conflitos aparentes entre os dois "lados", cujas relações eram, para falar a verdade, bastante cordiais. Mas essa paz aparente logo começou a se deteriorar quando, em 1728, o comandante do forte decidiu desapropriar os índios de suas terras sagradas para transformá-las em uma plantação de tabaco. Sentindo-se ameaçados e buscando vingança, os índios se rebelaram contra os franceses em 29 de novembro de 1729, marcando o início de um conflito sangrento que resultou na dizimação completa da tribo Natchez e fez com que a cidade adotasse o nome "Natchez".
Triste ironia do destino ou sincera homenagem à tribo derrotada?
Deixo a critério de vocês... De qualquer forma, se, assim como eu, você é apaixonado pela cultura ameríndia, saiba que o "Grande Vilarejo dos Índios Natchez" espera por você na periferia da cidade para ilustrar essa vertente da cultura do Mississippi que remonta pelo menos ao século VIII. Habitações foram reconstruídas no local para mostrar o estilo de vida da tribo Natchez, e encenações são realizadas na temporada para mergulhar você por completo em como deve ter sido a vida deles no passado.
Então, se você tiver tempo e vontade, não hesite em dar uma paradinha nesse site antes ou depois de contemplar as esplêndidas e magníficas mansões que enchem a cidade, testemunhas de uma época mais próspera e feliz. Afinal, Natchez não se resume apenas a esse massacre triste e sombrio dos índios de mesmo nome. A cidade também foi uma das mais ricas e prósperas dos Estados Unidos no início do século XIX, impulsionada pelas plantações de algodão e pelo comércio da fibra, facilitado pela navegação a vapor no rio Mississippi. Dá para entender por que Natchez já teve mais bilionários do que qualquer outra cidade do país, com exceção de Nova York, Boston e Filadélfia, e por que hoje podemos admirar por lá casas luxuosas e suntuosas herdadas desse período de prosperidade.


Saiba que o Historic Downtown Natchez abriga 300 dessas antigas mansões sulistas (muitas vezes nas mãos da mesma família há mais de 150 anos), sendo que umas vinte delas, mesmo privadas, abrem as portas ao público duas vezes por ano, na primavera e no outono, durante as Natchez Pilgrimages. Nessas ocasiões, os visitantes podem redescobrir a atmosfera sulista de antigamente, sonhando com a época de E o Vento Levou graças às anfitriãs em trajes de época, apresentações musicais e teatrais, e palestras, transformando esses eventos de cenário e clima nostálgicos em verdadeiras "instituições" culturais!
Para meu completo pesar, não pudemos conferir de perto porque não estávamos lá na época certa. No entanto, ainda assim conseguimos nos encantar com aquelas grandes residências de notáveis de charme distinto ao dar uma volta pelo bairro. Nossos olhos também se fartaram com construções de madeira mais modestas, igualmente charmosas, com aquelas igrejas antigas de tijolos vermelhos ou de brancura imaculada, com aquelas lojinhas retrô de outra época, com aquelas casas de tijolos vermelhos, símbolo do passado da cidade como antiga colônia espanhola e que nos fariam companhia por toda a duração da nossa road trip, subindo ao longo do Mississippi, , e, por fim, naquelas ruas estreitas onde se passeia de charrete e naquele parque majestoso, o





Com esse rápido passeio por Natchez concluído, vamos retomar nossa Harley e seguir em direção a Vicksburg, a apenas uma hora e meia dali, onde outras grandes surpresas nos aguardam!
3/ Etapa 3: Vicksburg

Foi enquanto andávamos descontraídos, ansiosos para descobrir a próxima parada, que vários detalhes chamaram nossa atenção e despertaram nossa curiosidade ao chegarmos aos arredores de Vicksburg: túmulos, estelas, canhões e estátuas erguidos ali, bem no gramado, na beira da estrada... Ora vejam só, que recepção estranha e singular para nós, franceses, acostumados com cemitérios relativamente afastados e cercados por um longo muro na maior parte das vezes, como se quisessem proteger as almas de nossos cidadãos falecidos! Decidimos então nos aproximar de uma placa para, quem sabe, obter mais informações e, ali, descobrimos que estamos na verdade na entrada do Vicksburg National Military Park!

Mas por que "military", o que aconteceu aqui antigamente?
Louca para encontrar uma resposta para minhas perguntas, apressei-me em pegar o telefone e pesquisar na internet sobre o assunto. E aí, de repente, tudo faz sentido. Fico sabendo que Vicksburg era uma cidade-fortaleza empoleirada em um penhasco com vista para o Mississippi, palco de combates violentos durante a Guerra de Secessão (1861-1865), que opôs os estados industriais do Norte (a União) aos estados escravistas do Sul (os Confederados).
Particularmente, não tivemos a chance de nos aventurar por esse parque porque o tempo estava curto. Mas uma coisa é certa: se essa recepção um tanto fria e austera pudesse ter feito muitos darem meia-volta, esse definitivamente não foi o nosso caso! Pelo contrário, isso atiçou ainda mais nossa curiosidade e nos incentivou a continuar o caminho até o centro da cidade para ver se por lá reinava o mesmo clima... E que surpresa tivemos ao descobrir esse coração histórico, que pulsa entre a cidade alta e a cidade baixa, conectadas por ruas íngremes que acolhem casinhas de tijolos vermelhos muito fofas e aconchegantes, além de belíssimas mansões coloniais. Elas lembram inegavelmente a atmosfera de Natchez, embora seja verdade que se encontrem menos residências majestosas em Vicksburg!
Ainda assim, há o suficiente para nos apaixonarmos pelo charme desta cidade, como por exemplo Cedar Grove, Corners Mansion, George Washington Ball House, Mc Raven Home, Duff Green Mansion, entre outras, para citar apenas algumas das mais famosas.



Vocês podem imaginar que, para uma amante da arquitetura americana como eu, a simples contemplação delas foi um verdadeiro deleite, que continuou ao chegarmos àquela que foi a "cereja do bolo" para qualquer fã de Coca-Cola que se preze: o pequeno museu da Biedenharn Candy Company, instalado em um casarão lindo de 1890 e inteiramente dedicado à Coca-Cola!


Aliás, foi bem aqui que a preciosa bebida teria sido engarrafada pela primeira vez em 1894! É claro que as garrafas mudaram bastante desde aquela época, mas o sabor continua o mesmo e não para de conquistar fãs, que encontram de monte oportunidades para gastar dinheiro com todo tipo de lembrancinha neste pequeno paraíso açucarado! Aliás, precisei de uma força sobre-humanada para resistir e não comprar tudo! Por isso, meu companheiro e eu preferimos sair e ir nos refrescar no terraço de umカフェzinho logo ao lado do museu, que tinha um charme irresistível!




Enfim, chegou a hora de levantar acampamento rumo a novas aventuras, mas, quando já estávamos de volta à estrada e prontos para partir, a visão de um barco a vapor magnífico e extraordinário, três vezes maior que o Natchez de Nova Orleans, nos fez fazer uma última parada obrigatória, como se a cidade estivesse nos laçando em suas redes...

Vejam só que elegância e majestade! Acho que nunca tinha visto um barco de tal beleza. Essa embarcação e os inúmeros tesouros que a cidade esconde farão de Vicksburg um lugar gravado para sempre na minha memória!
4/ Etapa 4: Clarksdale


Depois de três boas horas de estrada saindo da fascinante e empolgante Vicksburg, nossos posteriores começaram a reclamar e a pedir por uma parada! A pequena cidade de Clarksdale caiu como uma luva!
À primeira vista, achamos que era cenário de um daqulias thrillers ruins de TV: viva alma não há nesta cidade que, no entanto, se intitula o berço do blues e afirma ter visto tantos músicos nascerem, viverem ou passarem por ali.
No momento, parecia que eles tinham dado o fora de vez e que apenas suas sombras continuavam vagando por lá! Mas vocês me conhecem, não seria essa aparência de cidade fantasma que iria me desanimar e me fazer seguir viagem. Pelo contrário, aquele cenário congelado atiçou ainda mais minha curiosidade e me levou a arrastar meu companheiro para dar uma volta pelo bairro. E foi com encanto que descobrimos velhas lojinhas e também construções antigas, novamente de tijolos e ostentando belíssimos afrescos coloridos, dando aquela sensação deliciosa de estar no coração da América autêntica!


Prova dessa autenticidade: o Madidi, um restaurante que pertence a Morgan Freeman e que manteve perfeitamente o seu estilo de antigamente, ou ainda o Ground Zero Blues Club, do mesmo dono e igualmente rústico, mas que aparentemente figura entre os 100 melhores bares e boates dos Estados Unidos!


Quem diria ao ver essas fachadas inanimadas?
Fomos totalmente tapeados, ainda mais porque, de acordo com os poucos moradores que cruzamos e com quem trocamos algumas palavras para entender o que estava rolando naquela cidade petrificada, parece que a calmaria e a inatividade do dia dão lugar a um clima totalmente diferente à noite, quando os fantasmas do blues assombram os lendários "juke joints" da cidade, incluindo o famoso Ground Zero Blues Club ou o Red!
Assim, por trás de sua fachada de "santa do pau oco", parece que Clarksdale tem muito mais cartas na manga, especialmente quando se trata de blues! Esta cidade é, portanto, uma parada essencial para todos os fãs do gênero, que eu convido expressamente para uma pausa obrigatória na entrada da cidade, em frente à emblemática placa erguida em The Crossroads, o cruzamento onde Robert Johnson teria vendido sua alma ao diabo para alcançar sua virtuosidade na guitarra e se tornar o excepcional tocador de blues que todos conhecemos...

Lenda ou fato real, o fato é que Clarksdale nos deixou profundamente intrigados!
Seguimos agora para outro estado, o do Tennessee, onde, após deixar para trás as paisagens bem verdes, os pântanos e os incontáveis campos de algodão típicos do Mississippi, nos espera outra cidade ícone do blues, cujo nome deixo você adivinhar através destes versos lendários cantados por Eddy Mitchell:
Eu ouvia o disc-jockey
No carro que me levava
Na estrada para Memphis
Na estrada para Memphis...
Todos já adivinharam, trata-se obviamente da inabalável Memphis, que nos reserva muitas surpresas...

5/ Etapa 5: Memphis
Entre todas as surpresas que mencionei acima, apresento justamente esta rua lendária e principal atração turística do Tennessee, a Beale Street, que merece absolutamente um passeio noturno. E calhou perfeitamente, pois chegamos a Memphis à noite! De fato, teria sido uma pena perder essa abundância de néons de cores chamativas e espalhafatosas, e não ouvir essa música que parece ancorada em cada cantinho desta rua...


Nós nos sentimos atraídos por uma melodia de blues e um som de guitarra que vinham de um dos pátios daqueles belos edifícios de fachadas retrô, atrás dos quais se escondem restaurantes, clubes e várias lojinhas, em um clima que lembra a Bourbon Street, em Nova Orleans!

Que noite fabulosa passamos naquele pequeno bar que, com certeza, não parecia grande coisa, mas que nos mergulhou direto no universo dos estúdios de gravação e da música blues, soul e rock'n'roll que consagraram Memphis! Prova disso são as calçadas adornadas com os nomes de 150 grandes nomes da música de Memphis, indo desde Robert Johnson e B.B. King até Justin Timberlake!

Sem esquecer o do inesquecível Elvis Presley, cuja casa continua sendo A visita obrigatória em Memphis, exigindo umas boas três horas para explorar toda a propriedade: trata-se, é claro, de Graceland, sem dúvida a residência americana mais famosa depois da Casa Branca! Para você ter uma ideia, no aniversário do "Rei", em agosto, a cidade fica lotada de turistas! Mas isso não desagrada em nada a economia local. Pelo contrário, para atrair visitantes, a cidade apostou tudo nesse ícone do rock'n'roll que você encontra em todo lugar, em cada vitrine, em cada lembrança, em cada pôster...
Mas ele não é o único responsável pela fama de Memphis. A cidade também apostou em outra personalidade ilustre, o Dr. Martin Luther King, assassinado em 1968 no Lorraine Motel, hoje transformado no Museu Nacional dos Direitos Civis (National Civil Rights Museum), que eu recomendo fortemente que você visite se tiver tempo.
Porque você vai precisar de tempo para dar conta desta cidade de mil e uma joias que, devido ao seu caráter musical e à simpatia de seus habitantes, figura entre as regiões mais acolhedoras e calorosas que encontramos em nossa viagem! Mas não vamos parar por aqui e vamos ver o que nos aguarda em outros horizontes mais distantes...
6/ Etapa 6: Lynchburg
Aqui, não se fala de blues, soul ou rock'n'roll, mas sim de álcool, álcool e mais álcool... Senhoras e senhores, estamos às portas do reino do uísque: Lynchburg, onde fincou suas raízes, ou melhor, seus alambiques, o número 1 do uísque, a famosa destilaria Jack Daniel's!


Mas por que escolher essa parada quando poderíamos ter seguido direto rumo a Chicago?
Bem, na verdade, se eu tenho uma paixão toda especial pela marca Coca-Cola e seus produtos derivados, acontece que o meu companheiro, por sua vez, é um adepto fervoroso e colecionador de uísques. É por isso que uma parada na destilaria mais antiga do país parecia mais uma evidência do que um simples capricho de fã!
E a visita incrível e sensacional que pudemos fazer nos deu total razão: da descoberta das instalações do local até a rica degustação, passando pelo sotaque rocambolesco do nosso guia, bem típico daquelas terras caipiras, , tudo conspirou para uma experiência inesquecível e única!



Pessoalmente, eu não consumo álcool e não entendo nada de uísque, mas posso garantir que saí de lá mais culta e com uma bagagem enorme após essa visita extremamente enriquecedora e cativante sobre a história da marca e o processo de fabricação desse precioso néctar. Infelizmente, não é possível comprar garrafas por lá, a não ser edições de colecionador, já que a destilaria fica em um condado "seco" (ou seja, um território onde a venda de álcool é proibida desde a Lei Seca).
Mas não se preocupe, você sempre pode se consolar com os vários produtos oficiais do Jack Daniel's que são vendidos na lojinha dedicada a eles, bem no "centro" logo ao lado. Trata-se do coração histórico de Lynchburg, onde os relógios parecem ter parado na época dos saloons e cowboys de velho oeste... Pelo menos, é essa a impressão que nos passam aquelas charmosas lojinhas à moda antiga, as fachadas fabulosas no estilo Velho Oeste e o magnífico tribunal de tijolos vermelhos que fazem de Lynchburg um verdadeiro vilarejo autêntico e atemporal. Essa beleza e serenidade só são interrompidas pelos visitantes que chegam em busca dos segredos de fabricação do famoso Old N° 7 e para garimpar alguma lembrança tentadora. Nossa carteira foi a primeira vítima! Mas esses poucos dólares gastos não foram motivo para nos arrependermos de visitar este vilarejo simplesmente mágico, que figura facilmente entre os meus lugares preferidos para morar, se eu pudesse escolher... Afinal, Lynchburg continua sendo o meu segundo grande favorito desta road trip!






Mas, como diz o ditado, "não há duas sem três", e uma última cidade no nosso trajeto veio para balançar minhas emoções: estou falando, é claro, de Chicago, que se revelou uma verdadeira surpresa maravilhosa para mim!
7/ Etapa 7: Chicago


O que poderia ser melhor do que a cidade de Chicago para encerrar essa road trip com chave de ouro...?!
Francamente, a menos que tivéssemos mais tempo livre, não vejo como poderíamos ter terminado melhor essa viagem. O gran finale foi embalado pela contemplação dos arranha-céus, pela adrenalina de nos debruçarmos sobre uma daquelas incontáveis pontes levadiças com vistas excepcionais e de tirar o fôlego do rio Chicago em tom verde-esmeralda, pelas caminhadas pelo bairro histórico e central da cidade conhecido como "Loop" e, por fim, por um passeio de barco fantástico nesse mesmo rio, que nos fez perceber toda a grandeza e a elegância do skyline de Chicago, ainda mais bonito quando visto das águas!


Para mim, esse passeio de barco me deixou sem palavras... Eu jamais teria imaginado que Chicago pudesse ser tão deslumbrante, com tantos edifícios imensos, cada um mais original e singular que o outro. Isso faz da terceira maior cidade dos Estados Unidos uma verdadeira enciclopédia de arquitetura contemporânea a céu aberto, tudo cercado por muita água.

Porque Chicago não se resume apenas a esse rio que carrega orgulhosamente o seu nome, mas também conta com dezesseis praias, sendo que uma delas te recebe bem nos arredores da cidade e já te faz imaginar os momentos maravilhosos que você vai viver por lá… Foi exatamente isso que pensei, montado na nossa Harley, rumo àquele lugar que faria meu coração se apaixonar para sempre!


Infelizmente, não tivemos tempo nem o prazer de descobrir mais sobre essa cidade que foi refúgio para populações negras vindas do Sul, trazendo instrumentos e partituras na bagagem, transformando gradualmente esta metrópole na capital mundial do blues. Mas uma coisa é certa: essa visita inacabada logo, cedo ou tarde, vai nos chamar de volta. De volta àquela que também foi o nosso último refúgio após 1600 quilômetros inesquecíveis e deliciosos de asfalto ao longo do rio Mississippi e de sua música, me levando inevitavelmente a terminar este artigo com esta frase simples: « Como a vida é bela »!

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