Clermont-Ferrand, a cidade negra construída sobre um vulcão adormecido
Em 2017, os sismólogos que monitoravam a atividade vulcânica da região tomaram um susto diante das telas. Tremores repentinos e massivos pareciam vir do subsolo da place de Jaude. Evacuação iminente? Não: era dia de jogo do ASM, e os torcedores pulavam em uníssono para incentivar seu time de rúgbi. Essa anedota resume bem Clermont-Ferrand, uma cidade erguida sobre um vulcão, apaixonada a ponto de fazer a terra tremer, e ainda assim pouco conhecida pelos roteiros turísticos tradicionais.
Clermont-Ferrand: a escolha certa para quem gosta de natureza e queijo
Se você sonha com um destino onde a trilha a pé termina com uma truffade fumegante e uma tábua com cinco queijos de denominação de origem protegida, esta capital da Auvérnia vai te conquistar. Os caminhantes, os curiosos por geologia e os gulosos encontram aqui um terreno de jogo excepcional: oitenta vulcões a uma curta distância de carro, lagos de cratera e vilarejos de pedra preta.
Em contrapartida, quem busca o glamour mediterrâneo ou monumentos famosos vai se decepcionar. Clermont-Ferrand não tem a fama de Lyon ou Bordeaux. Seu charme funciona com os viajantes que aceitam cavar sob a superfície, se aventurar pelas ruelas e subir aos pontos mais altos para entender por que os romanos se instalaram aqui há dois milênios.
Um orçamento bem camarada para uma capital regional
Espere gastar de 60 a 100 euros por dia para duas pessoas (cerca de 370 a 615 reais), hospedagem inclusa. Os hotéis no centro registram tarifas bem inferiores às das grandes metrópoles, em torno de 70 euros a diária (cerca de 430 reais). Uma refeição caprichada com truffade e queijos sai por 15 a 20 euros por pessoa (cerca de 90 a 120 reais).
O Clermont antigo: uma catedral negra e ruelas secretas
A catedral Notre-Dame-de-l'Assomption se impõe logo de cara. Inteiramente construída em pedra de lava, ela ergue suas torres escuras a quase cem metros de altura. O arquiteto Viollet-le-Duc a restaurou no século XIX, dando a ela essa silhueta gótica reconhecível de qualquer ponto da cidade. No interior, os vitrais inundam a nave com cores que contrastam com a obscuridade da pedra.
A poucas ruas de distância, a basílica Notre-Dame-du-Port apresenta um rosto totalmente diferente. Esta igreja românica do século XII, inscrita no patrimônio mundial da UNESCO como etapa do caminho de Santiago de Compostela, esconde-se em um bairro popular. Seus capitéis esculpidos conservam a policromia de origem. O clima ali é mais íntimo, quase confidencial.
Dica de amigo: Reserve uma visita guiada no posto de turismo para acessar os pátios internos dos casarões renascentistas. A cidade é repleta de passagens secretas e escadas escondidas que a gente acaba perdendo sem um guia local.
O bairro do Port: a alma boêmia da cidade
Ao redor da basílica estende-se o quartier du Port, o mais animado de Clermont. De manhã, os cafés são tranquilos e os terraços ficam banhados de sol. À noite, os bares com música ao vivo e os restaurantes agitados entram em cena. A rue du Port desemboca na fontaine d'Amboise, de onde se avista a cadeia de vulcões.
É neste bairro que você encontra os melhores endereços para saborear as especialidades locais sem cair na armadilha para turistas. O L'Alambic, uma instituição clermontoise, serve um aligot tão elástico que desafia as leis da física. A fromagerie Nivesse, perto da catedral, oferece degustações comentadas dos cinco queijos protegidos da região.
A praça de Jaude e Montferrand: uma cidade dupla
A place de Jaude, imensa esplanada cercada de magnólias, forma o coração comercial da cidade. No centro, brilha a estátua equestre de Vercingetórix, obra de Bartholdi, o escultor da Estátua da Liberdade. O líder gaulês venceu as legiões de César bem perto dali, em 52 antes da nossa era.
Poucos visitantes chegam até Montferrand, a outra metade histórica da cidade. Esse bairro conserva um centro medieval notável com suas casas de torres, seus casarões dos séculos XV e XVI e suas cinquenta fontes. As duas cidades rivais só se uniram em 1630, por ordem de Luís XIII.
A cadeia dos Puys: o chamado dos vulcões
O Puy de Dôme chega a 1.465 metros de altitude, a apenas quinze quilômetros do centro. Esse vulcão do tipo peleano, com onze mil anos de idade, oferece um panorama de 360 graus sobre os oitenta vulcões da cadeia, inscrita no patrimônio mundial da UNESCO desde 2018. No topo, os vestígios de um templo galo-romano dedicado a Mercúrio testemunham a antiguidade do lugar.
Para subir até lá, há duas opções: o Panoramique des Dômes, um trem de cremalheira que sobe em quinze minutos, ou o chemin des Muletiers a pé, levando de 45 minutos a duas horas dependendo do ponto de partida. O parque Vulcania completa a experiência com atrações lúdicas e filmes imersivos sobre vulcanismo.
Dica de amigo: No verão, um ônibus liga a estação de trem de Clermont-Ferrand ao Panoramique des Dômes. Não precisa de carro para conhecer os vulcões.
Onde comer e beber em Clermont-Ferrand?
A Auvérnia concentra sozinha 25% dos queijos de denominação de origem protegida da França. Saint-Nectaire, Cantal, Salers, Fourme d'Ambert, Bleu d'Auvergne: esses cinco nomes resumem a riqueza queijeira local. A Ronde des fromages, no mercado coberto marché Saint-Pierre, oferece um Saint-Nectaire maturado sobre uma cama de palha que vale a pena.
A truffade continua sendo o prato emblemático: batatas fritas na gordura misturadas com a massa de queijo fresco do Cantal até obter uma textura elástica. O Cassolette, perto do Palácio da Justiça, e o Le Dôme, no último andar do centro Jaude, contam-se entre os endereços mais recomendados. Conte com 15 a 20 euros para uma truffade caprichada servida com presunto curado e salada (cerca de 90 a 120 reais).
Onde dormir em Clermont-Ferrand e arredores?
O centro histórico, entre a catedral e a place de Jaude, oferece a melhor localização para explorar a pé. Os hotéis ali continuam acessíveis se comparados às grandes cidades francesas. A região da estação de trem apresenta opções econômicas, a dez minutos de caminhada do centro.
Para juntar cidade e natureza, os vilarejos do massif du Sancy, a 40 minutos, permitem montar base para passear: o Mont-Dore e La Bourboule também oferecem seus balneários de águas termais. Saint-Nectaire, além do queijo, possui uma igreja românica esplêndida e pousadas charmosas.
Como chegar e circular em Clermont-Ferrand?
O trem de alta velocidade liga Paris a Clermont-Ferrand em 3h30, com bilhetes a partir de 29 euros (cerca de 180 reais). Saindo de Lyon, conte com 2h30 de trem. O aeroporto de Aulnat, a sete quilômetros do centro, atende a alguns destinos europeus. De carro, a rodovia A71 vinda de Paris e a A75 vinda de Montpellier convergem para a cidade.
Na cidade, o bonde e os ônibus cobrem bem o centro e os bairros periféricos. A passagem custa 1,60 euro (cerca de 10 reais). A zona de pedestres do centro é percorrida facilmente a pé. Para ir aos vulcões, o aluguel de carro continua útil fora da temporada de verão, embora ônibus facilitem o acesso ao Puy de Dôme.
Quando ir?
De maio a setembro, as condições são perfeitas para fazer trilhas nos vulcões e aproveitar os bares ao ar livre. O Festival internacional do curta-metragem, no começo de fevereiro, atrai 160.000 espectadores e transforma a cidade na capital mundial do formato curto. O inverno traz neve aos picos e abre as estações de esqui do Sancy, a 45 minutos.
Parada quase obrigatória para visitar o Puy de Dôme, Clermont-Ferrand não tem nada do charme das cidades de montanha. A catedral é bonita, mas achei a cidade bem sem graça, triste e não muito segura. A arquitetura de concreto não tem nenhum charme e reforça a sensação de sufoco. Quando está calor, é um verdadeiro sufoco. Se puder, recomendo se hospedar em outro lugar e fugir para o Puy de Dôme para respirar ar puro.