Salamanca, a cidade onde a pedra muda de cor
Procure o sapo. Essas quatro palavras resumem a obsessão que toma conta de qualquer visitante diante da fachada da universidade. Dezenas de pessoas levantam os olhos, examinam os medalhões esculpidos na pedra ocre, na esperança de avistar o pequeno batráquio que supostamente traz sorte.
Essa busca um pouco absurda diz muito sobre Salamanca: uma cidade que não se revela à primeira vista, onde cada detalhe esconde uma história e onde os estudantes conviven com os fantasmas de Cristóvão Colombo e de Unamuno.
O destino ideal para quem ama história e noites animadas
A universidade mais antiga da Espanha atrai todos os anos 30.000 estudantes que dão à cidade sua energia particular. Os apaixonados por arquitetura vão se encantar com a concentração de obras-primas platerescas e barrocas. Quem gosta de curtir a noite vai encontrar uma cena intensa, alimentada por essa população estudantil que lota os bares da Calle Van Dyck logo ao cair da noite.
Por outro lado, quem busca o mar ou a montanha vai se decepcionar. A planície castelhana oferece pouca variedade de paisagens, e os 160.000 habitantes fazem de Salamanca uma cidade compacta que se conhece bem em dois dias. O clima continental traz verões escaldantes e invernos rigorosos. Prepare bons sapatos: as ruas de paralelepípedos só podem ser percorridas a pé.
Um orçamento bastante econômico
Espere gastar entre 50€ e 80€ por dia com tudo incluso (cerca de 315 a 500 reais). As hospedagens variam de 40€ a 100€ por noite (cerca de 250 a 625 reais) para um quarto decente no centro. As entradas para os monumentos raramente custam mais de 10€ (cerca de 62 reais), e o menu do dia nos bares estudantis costuma ficar abaixo de 10€ com bebida inclusa.
A Plaza Mayor e o coração histórico
Vamos começar pelo óbvio. A Plaza Mayor de Salamanca é considerada uma das praças mais bonitas da Espanha, e com toda razão. Construída no século XVIII por Alberto Churriguera, ela forma um quadrilátero irregular, mas surpreendentemente harmonioso, cercado por 88 arcos e coroado por medalhões que retratam figuras ilustres. Ao contrário de outras praças espanholas que viraram estacionamentos para turistas, esta pulsa dia e noite.
O Café Novelty, o mais antigo da região, ocupa o canto sudoeste desde 1905. Miguel de Unamuno costumava frequentar o espaço. Pedir um café ali é tanto uma pausa cultural quanto uma parada gastronômica. À noite, os grupos estudantis de túnica aparecem de vez em quando para um show improvisado, com capas pretas e fitas coloridas ao vento.
Dica de amigo: volte ao anoitecer. A iluminação noturna transforma as fachadas de arenito em painéis dourados. Salamanca é considerada uma das cidades mais bem iluminadas da Europa, e isso é verdade.
A universidade e seus segredos esculpidos
Fundada em 1218 por Afonso IX de Leão, a universidade de Salamanca é a mais antiga da Espanha e a terceira da Europa. Sua fachada plateresca, trabalhada como uma verdadeira joia, reúne uma floresta de medalhões, brasões e figuras mitológicas. Perdido nesse emaranhado está um sapo empoleirado sobre uma caveira. Encontrá-lo sem ajuda traria sorte nas provas. Na realidade, todo mundo trapaceia procurando no celular.
O interior vale cada centavo dos 10€ da entrada (cerca de 62 reais). A Aula Fray Luis de León preserva seus bancos originais do século XVI, e a antiga biblioteca emana uma atmosfera de saber empoeirado bastante emocionante. Não perca o Cielo de Salamanca, um afresco do século XV que retrata o zodíaco, escondido por muito tempo sob um teto falso.
A Casa de las Conchas
A poucos passos da universidade, essa mansão do século XV chama a atenção pelas 365 conchas de vieira incrustadas na fachada. O número corresponderia aos dias do ano. A lenda diz que um tesouro está escondido sob uma delas. A entrada é gratuita e o pátio interno merece a visita.
As duas catedrais e a vista do Ieronimus
Salamanca possui duas catedrais coladas uma na outra, um caso raríssimo na Europa. A Catedral Vieja, em estilo românico, data do século XII. A Catedral Nueva, gótica, foi construída entre os séculos XVI e XVIII sem destruir a vizinha. O acesso à antiga é feito por dentro da nova, o que gera uma sensação de viagem no tempo bastante marcante.
Na fachada da catedral nova, procure o astronauta. Sim, um astronauta esculpido na pedra medieval. Ele foi adicionado durante uma restauração em 1992 por artesãos brincalhões, ao lado de um macaco comendo sorvete e de uma cegonha. A Igreja deixou passar.
Dica de amigo: a exposição Ieronimus permite subir nas torres por apenas 4€ (cerca de 25 reais). Você caminha pelas passarelas entre as gárgulas e alcança vistas panorâmicas de toda a cidade. O melhor custo-benefício de Salamanca.
Os bairros menos movimentados
O Barrio del Oeste, ao norte do centro, reserva uma grande surpresa. Essa área residencial se transformou em uma galeria de arte urbana a céu aberto. Cada porta de garagem e cada parede cega exibe um mural colorido. Poucos turistas se aventuram por lá, o que reforça a sensação de descoberta autêntica.
O Huerto de Calixto y Melibea, um pequeno jardim empoleirado sobre as antigas muralhas, oferece uma vista aberta para as catedrais e para a ponte romana lá embaixo. A entrada, por uma porta discreta em um beco sem saída, parece a de uma propriedade particular. Continue em frente. O local evoca a trágica história de amor de A Celestina, obra-prima da literatura espanhola.
Outra curiosidade pouco conhecida é a Cueva de Salamanca, uma cripta onde o diabo supostamente ensinava magia negra a estudantes. Hoje, o local abriga os vestígios das muralhas medievais da cidade. A entrada é gratuita e a atmosfera é deliciosamente sombria.
Onde comer e beber em Salamanca?
A gastronomia castelhana não é leve. O hornazo, uma torta recheada com ovo cozido, chouriço e lombo de porco, é o prato mais emblemático. O presunto de Guijuelo, produzido a 50 km dali, concorre de igual para igual com os melhores presuntos ibéricos. As lentilhas de La Armuña e o leitão assado completam o cenário.
Para comer barato, siga para a Calle Van Dyck, ao norte do centro. Os bares se sucedem servindo tapas caprichadas por poucos euros. O Bambú, citado no guia Michelin, serve petiscos criativos em um clima animado. O Vinodiario atrai tanto moradores quanto visitantes pelas tapas para compartilhar e pela excelente carta de vinhos. É bom reservar.
Para uma experiência gastronômica mais refinada, o En la Parra conquistou uma estrela Michelin. A chef Rocío Parra trabalha com ingredientes regionais de forma criativa em um espaço intimista de vinte lugares.
Onde dormir em Salamanca e arredores?
O centro histórico continua sendo a melhor escolha para uma primeira viagem. As ruas ao redor da Plaza Mayor concentram hotéis de charme e apartamentos de temporada. O Hotel Rector 5 estrelas ocupa um palácio do século XVI para quem tem orçamento confortável. O NH Collection Palacio de Castellanos equilibra luxo e preços razoáveis.
Quem tem orçamento apertado pode procurar a região universitária, onde pensões e albergues oferecem quartos entre 25€ e 50€ por noite (cerca de 155 a 310 reais). No verão, alguns alojamentos estudantis abrem as portas para viajantes. Locações por temporada também cobrem o centro para estadias mais independentes.
Como chegar e se locomover em Salamanca?
Salamanca não tem aeroporto internacional. A forma mais prática é voar até Madrid-Barajas e seguir de trem AVE a partir de Madrid-Chamartín. A viagem leva 1h30 e custa entre 20€ e 40€ (cerca de 125 a 250 reais) dependendo da antecedência da reserva. A empresa Avanza Bus também opera linhas diretas do aeroporto em cerca de 2h30.
De carro a partir de Madri, conte com cerca de 2h30 de viagem pela rodovia A6. Uma vez na cidade, o carro se torna inútil: o centro histórico pode ser percorrido inteiramente a pé em menos de 30 minutos. Estacionamentos subterrâneos ajudam a parar perto da Plaza Mayor.
Quando ir?
A primavera e o outono oferecem as melhores condições, com temperaturas amenas e menor movimento. A Semana Santa atrai multidões consideráveis, mas proporciona um espetáculo litúrgico impressionante. O verão pode ser sufocante, com termômetros passando regularmente dos 35°C. No inverno, espere o frio seco da Meseta e noites geladas, mas também uma cidade mais sossegada e diárias de hotel nos menores patamares.
Salamanca é simplesmente a minha cidade preferida na Espanha!
Situada fora das rotas turísticas, mas não longe de Madri, esta cidade é mágica.
Aqui a história está em toda parte, nas ruas, nos monumentos, nas igrejas, na universidade tão antiga...
Eu voltei lá várias vezes e a magia continua funcionando, acho essa cidade muito cativante.
Tome uma bebida na venerável Plaza Mayor, você vai entender...