Eram 14h30, fazia 36 °C, e meu sobrinho de seis anos sentou-se no chão bem no meio de um sítio romano, anunciando calmamente que não caminharia mais. Nunca mais. Nem para lugar nenhum. A mãe dele tentou a negociação, eu tentei o sorvete de pistache, e acabamos voltando nós três, derrotados, com metade do roteiro por água abaixo.
Naquele dia, entendi uma coisa que dez anos de vida em Nice deveriam ter me ensinado antes: no Sul no verão, a questão não é o que fazer, mas quando fazer. Aquele mesmo sítio romano, às 9h da manhã, é uma maravilha. Às 14h30, é um castigo.
Não sou de Gard, é bom deixar claro: sou de Nice, com família na Ligúria. Mas de verão mediterrâneo eu entendo perfeitamente. E o Gard tem atrações suficientes para uma semana inteira sem nenhum tédio.
Aqui estão cinco atividades que eu recomendo e, acima de tudo, o horário exato em que você deve fazê-las. Mas, antes das atividades, vamos falar sobre o que ninguém te explica: como o departamento está organizado e por que isso muda tudo.
O Gard com a família: o que você precisa saber antes de reservar
Onde fica o Gard, exatamente?
Mapa do Gard
O Gard é um departamento na Occitânia, espremido entre a Provença, a leste, e o Languedoc, a oeste. Sua prefeitura é Nîmes. O rio Ródano o margeia de um lado, as Cévennes o fecham ao noroeste, e ele desce até o Mediterrâneo pela Pequena Camargue.
O que você precisa lembrar se resume a uma frase: tudo fica em um raio de cinquenta quilômetros. Nîmes, a Ponte do Gard, Uzès, Aigues-Mortes, as praias, a vegetação da região. Nenhum trajeto passa de três quartos de hora se você estiver bem localizado. Isso é raro, e é justamente o que faz dele um destino familiar muito vantajoso.
Por que viajar de férias com crianças?
Por um motivo que li no blog de uma viajante e que resume tudo: aqui, encontramos vestígios romanos a cada esquina, mas sem a multidão de Roma.
Na prática, o Gard reúne quatro coisas que as crianças quase nunca encontram juntas:
- Do romano espetacular e compreensível à primeira vista, sem fundações para imaginar
- Um rio próprio para banho, o Gardon, com praias de pedrinhas e passeios de canoa
- O mar, a trinta minutos, com praias selvagens e não apenas espreguiçadeiras pagas
- Gratuidade: menores de 18 anos não pagam entrada nos espaços de descoberta do Pont du Gard, e o acesso ao próprio site é gratuito
Onde ficar no Gard?
Este é o verdadeiro dilema da viagem, e ele é mais sutil do que parece. Quatro opções se apresentam:
Dormir em Nîmes. Prático para a cidade, mas você estará a quarenta minutos do mar e sem piscina, em uma cidade de pedra branca que retém o calor o dia todo. Com crianças, em julho, é uma aposta arriscada.
Subir para as Cévennes. Mais fresco, maravilhoso, mas você se isola do mar e do litoral. Uma viagem totalmente diferente.
Ficar no litoral. Le Grau-du-Roi, La Grande-Motte: a praia está logo ali, mas no verão a região fica lotada e os preços sobem.
Mirar no eixo Nîmes-Montpellier. É o meio-termom que eu recomendo. Fica-se bem no centro de gravidade do triângulo: a cidade de um lado, o mar do outro, o Pont du Gard a quarenta minutos. A nossa escolha: este camping 4 estrelas em Nîmes (Les Amandiers). Para ser mais exata, ele fica em Gallargues-le-Montueux, bem no meio do caminho entre Nîmes e Montpellier, a vinte e cinco minutos das arenas, a meia hora do mar, a vinte e cinco minutos de Aigues-Mortes, com um parque aquático e um clube infantil no local.
Este último ponto não é apenas um detalhe de folheto. Você vai ver daqui a dois minutos por que uma piscina no local da hospedagem é, no verão em Gard, uma peça fundamental do roteiro e não apenas um mero bônus.
Piscina do nosso camping
Quando ir?
Se você tiver escolha, junho ou setembro. As temperaturas são agradáveis, as atrações ficam mais tranquilas e os preços são mais amigáveis. Setembro ainda tem uma vantagem que junho não tem: o mar acumulou o calor de todo o verão.
Se você não tiver escolha por causa da escola das crianças, será julho ou agosto. E aí precisamos encarar os fatos: as médias do verão frequentemente ultrapassam os 30 °C, e picos de 36 ou 37 °C não são raros. Isso não é motivo para desistir. É apenas um motivo para organizar seus dias de outra forma, e esse é justamente o objetivo deste artigo.
Qual é o melhor momento para reservar?
Duas reservas a distinguir.
A hospedagem: durante as férias escolares francesas, as famílias viajam em massa, os locais ficam lotados e os preços sobem bastante. Nos meses de julho e agosto no Gard, reservar logo no inverno ou no início da primavera é o mais sensato. Quanto mais você demorar, menos opções de datas terá, e é justamente nas datas que reside a maior parte da diferença de preço.
Bom saber
Para o Pont du Gard, compre seus ingressos online. A bilheteria fecha trinta minutos antes dos espaços culturais, e as visitas guiadas que sobem até o último nível têm vagas limitadas. Na alta temporada, elas esgotam rápido.
Como chegar no Gard?
De trem: o TGV faz o trajeto entre Paris e Nîmes em 2h50. É a forma mais simples de viajar, e a estação fica bem no centro.
De carro: a rodovia A9 atravessa a região. Para ir ao Pont du Gard, pegue a saída 23 em Remoulins, sentido Uzès.
De avião: os aeroportos de Nîmes e Montpellier atendem à região, sendo que Montpellier oferece muito mais opções de voos.
Como se locomover por lá?
Costumo viajar sem carro, tanto por convicção quanto por comodidade, e já escrevi um artigo inteiro sobre Marselha sem veículo. Então, sendo bem sincera: no Gard com crianças, o carro é quase indispensável. As atrações ficam espalhadas pela vegetação de garrigue, e tentar visitar cinco lugares em uma semana sem transporte próprio é praticamente um esporte de combate.
Dito isso, existem três alternativas reais:
- O ônibus liO liga a estação de Nîmes à rotatória do Pont du Gard. Passagens online, em agências ou a bordo.
- A ciclovia Beaucaire-Uzès, com 32 km de pista totalmente segura, passa bem perto do Pont du Gard. É a mais longa do departamento.
- Nîmes pode ser inteiramente visitada a pé. Arena, Maison Carrée, museu, Jardins de la Fontaine: fica tudo muito perto.
1. As arenas de Nîmes e o Museu da Romanidade, mas antes das 11h
Por que as arenas funcionam tão bem com crianças
Interior das Arenas de Nîmes (© foto de Nicolas Buffler)
As arenas de Nîmes são o anfiteatro romano mais bem conservado do mundo romano. Contemporâneas do Coliseu de Roma, elas abrigavam 23.000 espectadores e ainda hoje são usadas para shows e festas tradicionais (*férias*). Um audioguiper gratuito está disponível em dez idiomas, o que é ótimo se você estiver viajando com parentes estrangeiros.
Para as crianças, o impacto é impressionante: a gente entra, olha para cima e entende de uma vez só o que era uma cidade romana. Nenhum livro didático faz isso.
O museu que salva o final da manhã
Logo em frente, o Musée de la Romanité é uma grata surpresa. Ele levou o Troféu Môm'Art, o selo que premia os espaços culturais realmente pensados para as famílias, e dá para perceber o porquê. Estações táteis permitem que as crianças manuseiem reproduções de moedas, sintam tecidos antigos e mexam em maquetes. Há jogos em que elas cozinham ou se vestem como romanos, além de uma caça ao tesouro disponível em vários idiomas.
E ainda tem o detalhe decisivo quando estão fazendo 35 °C lá fora: é climatizado. O terraço na cobertura tem visitação gratuita e oferece uma vista panorâmica incrível das arenas.
Como planejar a manhã
Então, arenas ou museu se tivermos que escolher apenas um? Os dois, mas nessa ordem. As arenas logo na abertura, quando a pedra ainda está fresca e os ônibus de excursão ainda não chegaram. O museu quando o sol começa a apertar. Depois, retorno ao camping por volta das 14h.
Distância do camping: cerca de 25 km, 25 minutos pela A9.
Dica de ouro: o passe turístico da cidade inclui as arenas, a Maison Carrée, a Torre Magna e o museu. Vale a pena a partir de duas visitas.
Estacionamento: o estacionamento das Halles é o mais prático para fazer tudo a pé.
Atenção
Nîmes é uma cidade de pedra branca a quarenta minutos do mar, sem brisa marinha para salvá-la. No verão, é um forno. É um destino de manhã, não de dia inteiro. Não tente aguentar até as 17h, você vai pagar caro por isso.
2. O Pont du Gard: a versão que ninguém te vende
Pont du Gard
Todo mundo vai te dizer que o Pont du Gard é um aqueduto romano de 48 metros, patrimônio da UNESCO, e que você precisa conhecer. É verdade. A primeira vez que a gente fica diante dele, dá para entender por que ele recebe mais de um milhão de visitantes por ano. O que contam bem menos para você é o que vem a seguir.
O que isso realmente custa
Primeiro mal-entendido, e não é pequeno: o acesso ao local é livre. É gratuito para pedestres e ciclistas. O que se paga é o estacionamento, 9 € por carro e por dia, independentemente do número de passageiros e da duração da sua visita. E os espaços de descoberta (museu de 2.500 m², cinema, exposição) custam 8 € por adulto, sendo gratuitos para menores de 18 anos que venham em família.
Faça as contas para uma família de quatro pessoas com duas crianças: 9 € de estacionamento, mais 16 € de museu, ou seja, 25 € para o dia inteiro. Estamos bem longe do que a maioria dos guias dá a entender.
Espace Ludo, o atrativo perfeito para famílias
Reservado para crianças de 5 a 12 anos, este é o lugar de onde você terá que arrancar os seus filhos à força. Lá, eles montam um mosaico romano, comandam uma barraca de mercado galo-romana e aprendem como a água era dominada por cinquenta quilômetros com uma inclinação de apenas 25 centímetros por quilômetro. A proeza técnica vira brincadeira.
O truque que muda tudo: venha à noite
Esse é o conselho que dou a todos os meus amigos que passam por aqui. No verão, o local fica aberto até a meia-noite. E um espetáculo de som e luz é projetado nos arcos às 22h30, durando cerca de vinte minutos.
Na prática: em vez de chegar às 14h em um estacionamento lotado sob 36 °C, você chega no fim da tarde, quando o calor começa a dar uma trégua. Você dá um mergulho. Faz um piquenique às margens do rio, o que é permitido. E termina a noite diante de um aqueduto de dois mil anos iluminado na escuridão. O bilhete do estacionamento vale para o dia todo, então isso não custa nem um centavo a mais.
Nenhuma criança esquece a Ponte do Gard iluminada às 22h30. Muitas esquecem a Ponte do Gard às 14h, entre dois goles de água morna.
A segurança, e essa informação falta em todo lugar
Atenção
O banho nas praias do Gardon não é vigiado. Por decreto municipal, o banho é feito por conta e risco próprios. É proibido pular da ponte e das pedras, bem como nadar diretamente sob o monumento. A rocha é polida pelas cheias, sendo francamente escorregadia: sapatos de água são obrigatórios para as crianças e para você também.
Distância a partir do camping: cerca de 45 km, 40 a 45 minutos.
3. Uma descida do Gardon de canoa, em versão para a família
Canoagem no Gardon a partir de Collias (© foto de Mboesch)
Por que esta é a minha atividade preferida da lista
Por um motivo simples: é a única onde a água é a atividade. A gente não sofre com o calor, a gente está dentro dele.
Ver a Ponte do Gard a partir da água, erguendo a cabeça, é uma experiência totalmente diferente de observá-la do mirante com quatrocentas pessoas em volta. É o mesmo princípio de qualquer outro lugar no Mediterrâneo: a paisagem muda completamente dependendo de onde a gente a olha.
O formato e as idades
Os percursos para famílias partem de Collias e passam sob os arcos do Pont du Gard. Conte com 2 a 3 horas, incluindo as paradas, e meio dia no total se somarmos o translado e a preparação. É acessível a partir dos 6-7 anos, desde que a criança saiba nadar.
Várias locadoras operam na região de Collias: Kayak Vert, Canoë Collias, Cap Canoë, Canoë le Tourbillon.
Dito isso, vamos ser sinceros sobre o que realmente interessa às crianças: não é a engenharia romana. É encontrar a maior rocha, pular do caiaque e espirrar água nos pais. É melhor aceitar isso logo de cara, o dia vai render muito mais.
Dica
Reserve o horário da manhã. À tarde, o Gardon fica lotado e o reflexo do sol na água é difícil de aguentar para as crianças.
A opção de bicicleta, se você não curtir canoa
A ciclovia de 32 km entre Beaucaire e Uzès passa bem pertinho do Pont du Gard. As locadoras locais oferecem mountain bikes elétricas de aro 20, indicadas a partir de 6 a 8 anos, além de cadeirinhas e reboques para os menores. Chegar ao Pont du Gard de bicicleta, vendo-o surgir no horizonte, vale muito mais a pena do que pagar estacionamento.
4. O Seaquarium du Grau-du-Roi, para o dia em que o céu fechar
Tanque de tubarões do Seaquarium de Le Grau-du-Roi
Não é obrigatório, mas...
Vou ser direto: não é a atividade mais bonita do Gard. É a melhor carta na manga para um dia de mistral, chuva ou de calor intenso mesmo.
O que se vê por lá
O Seaquarium abriga mais de 200 espécies de peixes, uma colônia de focas, leões-marinhos e, acima de tudo, mais de 25 espécies de tubarões em um túnel transparente dos dois lados. O efeito em uma criança de oito anos é garantido. No total, são quase 1.800 animais, com um percurso muito focado na educação e um tanque de toque que as crianças adoram.
O argumento decisivo é logístico
O aquário fica a poucos metros da praia. Dá para emendar o aquário de manhã e a praia à tarde, sem precisar pegar o carro de novo. E bem perto fica a praia de l'Espiguette: vários quilômetros de areia selvagem e dunas, a anos-luz das praias cheias de espreguiçadeiras pagas. É a que eu escolheria.
Distância a partir do camping: cerca de 30 a 35 km, 35 minutos.
Atenção
O Seaquarium é o plano B de todas as famílias da região nos dias de mau tempo. Num dia nublado em agosto, fica lotado já às 11h. Esteja lá na abertura ou deixe para lá.
5. Aigues-Mortes e a Petite Camargue, no fim do dia
Aigues-Mortes, suas muralhas e suas salinas
O local
Uma cidade medieval totalmente fortificada, erguida bem no meio das salinas. Muralhas que podem ser percorridas a pé, a Torre de Constança e a animada e arborizada Praça Saint-Louis. Um trenzinho turístico faz um passeio pelas salinas em 1h30, com direito a uma parada para subir em uma camelle, aquelas colinas de sal que ficam rosadas ao pôr do sol, , com a companhia frequente de flamingos cor-de-rosa.
A hora certa é tudo, e é aí que a mágica acontece
Aigues-Mortes dentro das muralhas às 15h em agosto, é uma verdadeira tortura. Pedra branca por toda parte, zero sombra, multidão compacta. A mesma cidade às 18h30 fica irreconhecível: a luz ganha tons dourados, as muralhas ficam cor de ocre, os terraços da Place Saint-Louis enchem-se de famílias e todo mundo janta ao ar livre em um clima que não tem mais nada a ver.
Foi exatamente isso que notei em Vernazza, nas Cinque Terre, ao visitar a região na baixa temporada: mesma vila, outro momento, experiência oposta. A regra é universal no Mediterrâneo.
O bônus que marca as crianças
Adicione as manades: aproxime-se dos touros e cavalos da Camargue acompanhado por um gardian (pastor de cavalos), de manhã ou ao entardecer. É o tipo de coisa sobre a qual eles ainda estarão falando quando as aulas recomeçarem.
Distância a partir do camping: cerca de 25 km, 25 minutos. É o local mais próximo da sua base, sendo o candidato ideal para um passeio ao fim do dia sem grande logística, quando todo mundo já descansou.
Dica
Estacione um pouco mais afastado e entre a pé por um dos portões das muralhas. Cruzar uma muralha do século XIII a pé tem o seu charme. Estacionar em um estacionamento dentro das muralhas, muito menos.
Meu conselho de verdade: o ritmo, não a lista
O roteiro de um dia que funciona
Se você tivesse que guardar apenas uma coisa deste artigo, não seria nenhuma das cinco atividades. Seria isto:
- Antes das 11h: o patrimônio, as cidades, a história. Nîmes, as arenas, os museus. As pedras ainda estão frescas e os estacionamentos vazios
- Das 13h às 17h: água. Piscina, rio, mar. Não é uma sugestão, é uma regra. Nenhuma visita turística sobrevive a esse horário em julho e agosto
- Depois das 18h: as vilas, as muralhas, os terraços, o som e luz. É o melhor momento do dia, e quase ninguém aproveita
Por que a piscina do camping não é um mero detalhe
É exatamente aí que um camping com uma verdadeira área aquática deixa de ser apenas um argumento de marketing para se tornar o eixo central das suas férias. No Les Amandiers, a piscina e o clube infantil são exatamente o que permite manter esse ritmo: as crianças gastam energia durante as horas mais quentes enquanto os pais descansam à sombra, e às 18h todo mundo está pronto para explorar as muralhas de Aigues-Mortes.
Curtir o Gard em família são cinco coisas maravilhosas, programadas para os horários certos, com muita água pelo caminho. Boa viagem e não se esqueça dos calçados de água.
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