Roma, 28 séculos de história e um espresso a cada esquina
Todo dia, por volta das 6h30, um canhão dispara a festim do alto da colina do Janículo. O estrondo ecoa por toda a cidade. Essa tradição diária, mantida desde 1847, servia originalmente para sincronizar os relógios das igrejas romanas. Ela resume bem o espírito da capital italiana: um gesto antigo, ainda vivo, que a maioria dos turistas ignora completamente.
Uma cidade que vai muito além dos cartões-postais
Roma não é um museu a céu aberto. É, antes de tudo, uma metrópole vibrante com quase três milhões de habitantes, barulhenta, caótica e, às vezes, cansativa. As ruínas milenares dividem espaço com scooters costurando o trânsito em fila dupla. As mesas dos cafés tomam conta das calçadas. O charme funciona justamente nesse contraste entre a grandiosidade do passado e a energia meio caótica do presente.
Destino ideal para:
- Quem ama história e arquitetura, da Antiguidade ao Barroco
- Fãs da gastronomia italiana, da carbonara ao supplì (tradicional croquete de arroz romano)
- Casais em busca de romantismo e longas caminhadas ao entardecer
- Viajantes solo: a cidade é segura, bem conectada e fácil de explorar
Destino pouco recomendado para:
- Quem foge de multidões: as principais atrações ficam lotadas de abril a outubro
- Viajantes com mobilidade reduzida: calçamento irregular, falta de rampas e estações de metrô sem elevador
- Orçamentos apertados: hospedagem no centro encarece bastante, especialmente em anos de Jubileu
Quanto custa viajar para Roma
Roma continua mais em conta do que capitais como Paris ou Londres, mas os preços subiram consideravelmente nos últimos tempos. Aqui estão alguns valores de referência por pessoa e por dia:
| Tipo de despesa | Média |
|---|---|
| Noite em hostel ou hotel 2 estrelas | 40 € a 70 € (cerca de R$ 250 a R$ 440) |
| Noite em hotel 3 a 4 estrelas bem localizado | 100 € a 180 € (cerca de R$ 625 a R$ 1.130) |
| Refeição rápida (pizza al taglio, supplì) | 5 € a 10 € (cerca de R$ 30 a R$ 60) |
| Refeição sentada em trattoria | 15 € a 25 € (cerca de R$ 95 a R$ 155) |
| Transporte mais 1 atração principal | 20 € a 35 € (cerca de R$ 125 a R$ 220) |
| Total diário estilo mochileiro | 80 € a 120 € (cerca de R$ 500 a R$ 750) |
| Total diário estilo confortável | 160 € a 250 € (cerca de R$ 1.000 a R$ 1.570) |
Preparando-se para a realidade das ruas
O centro histórico é totalmente caminhável, mas as distâncias enganam. Conte com uma caminhada de 25 minutos entre o Coliseu e a fontana de Trevi, passando por calçadas de paralelepípedos que exigem cuidado. No verão, os termômetros passam facilmente dos 35 °C, o que torna passeios ao ar livre exaustivos entre o meio-dia e as 16h. Quanto à segurança, o principal incômodo são os batedores de carteira no metrô e perto dos pontos turísticos. Mantenha sua bolsa ou mochila à vista e tudo correrá bem.
A barreira de idioma não é um problema nas áreas turísticas, já que o inglês é amplamente falado. Por outro lado, os horários locais podem surpreender: muitos comércios fecham das 13h às 16h, e os restaurantes só abrem para o jantar a partir das 19h30.
O centro histórico: onde tudo começou
O Coliseu impressiona tanto ao vivo quanto nas fotos. Suas arquibancadas com capacidade para 50.000 pessoas, os corredores subterrâneos e os restos do sistema de roldanas ajudam a dimensionar a grandiosidade dos espetáculos daquela época. Logo ao lado, o Fórum romano expõe as ruínas do que foi o coração político do Império. Um ingresso combinado dá acesso aos dois locais e ao monte Palatino, com validade de 24 horas.
Dica de amigo: reserve seus ingressos pela internet com antecedência e escolha horários antes das 9h ou depois das 15h. As filas passam facilmente de uma hora no meio do dia. No primeiro domingo de cada mês, a entrada é gratuita nos museus estatais, mas a quantidade de gente nas ruas chega a ser incômoda.
O Panteão, a dez minutos a pé, continua sendo um dos monumentos antigos mais bem preservados do planeta. Sua cúpula de 43 metros de diâmetro, com um óculo aberto de 9 metros no topo, deixa entrar um facho de luz natural que se movimenta pelo interior ao longo do dia. A entrada passou a ser paga em 2023, custando 5 € (cerca de 30 reais). É um preço simbólico perto do espetáculo arquitetônico que você vai ver.
Trastevere, Monti e Testaccio: três bairros, três atmosferas
O Trastevere, do outro lado do rio Tibre, é o bairro que todo guia indica pelo clima de vila italiana. Vale ponderar: à noite, as ruelas ao redor da Piazza di Santa Maria ficam lotadas. Se quiser um pouco de sossego, caminhe para a zona sul do bairro, na direção da Via di San Francesco a Ripa. As trattorias ali são mais baratas e as mesas na calçada, menos cheias.
O bairro Monti, antigo reduto operário que virou ponto de encontro de designers e bares de vinho, mostra uma faceta bem diferente. A Via del Boschetto reúne lojas independentes e cafés onde os próprios romanos se encontram. É também uma excelente base para explorar a pé o Coliseu ou a estação Termini.
O Testaccio é o bairro de quem gosta de comer bem em Roma. A antiga região dos matadouros abriga hoje o Mercato Testaccio, um mercado coberto onde você saboreia algumas das melhores carbonara e cacio e pepe da cidade, servidas em balcões simples por preços justos.
As surpresas que os guias tradicionais deixam de fora
O bairro Coppedè, espremido entre a Via Tagliamento e a Piazza Buenos Aires, parece cenário de filme fantástico. Os prédios misturam Art Nouveau, elementos góticos e detalhes medievais em um visual único e praticamente vazio de turistas.
Na colina do Aventino, o famoso buraco da fechadura do portão dos Cavaleiros de Malta enquadra perfeitamente a cúpula da basílica de São Pedro através de um túnel verde de ciprestes. Bem perto dali, o Giardino degli Aranci oferece um mirante panorâmico imperdível ao pôr do sol. Para quem gosta de lugares subterrâneos, a basílica de São Clemente desce em três níveis diferentes, revelando desde uma igreja medieval até um templo romano dedicado ao deus Mitra do século II.
A Villa Borghese, um parque imenso ao norte do centro, guarda um dos acervos artísticos mais ricos da Itália. A Galleria Borghese expõe obras-primas de Bernini, Caravaggio e Rafael em um ambiente intimista que exige reserva antecipada com hora marcada.
Fontes, praças e caminhadas ao entardecer
A fontana de Trevi é monumental, mas o banho de multidão durante o dia tira parte do encanto. Vá depois das 22h: a iluminação artificial deixa o mármore com tons dourados e a praça finalmente esvazia. A Piazza Navona, famosa pelas fontes de Bernini e casarões barrocos, fica mais agradável no fim da tarde, quando a luz baixa projeta sombras longas sobre o piso de paralelepípedo.
A Piazza di Spagna e sua escadaria monumental rumo à igreja Trinità dei Monti continuam sendo paradas obrigatórias. Para um passeio mais autêntico, caminhe pela margem do Tibre ao crepúsculo, partindo da ponte Sant'Angelo até a ponte Sisto. A luz dourada sobre os edifícios em tons de ocre vale mais do que qualquer monumento.
Onde comer e beber em Roma?
A culinária romana se apoia em pilares sólidos: a carbonara feita exclusivamente com guanciale e pecorino romano, a cacio e pepe de simplicidade desconcertante e a amatriciana com molho de tomate e pimenta. O supplì, croquete de arroz recheado com mozzarella que puxa fios, é o rei dos lanches de rua. Para a sobremesa ou o café da manhã, o maritozzo, um pão doce fofinho recheado com uma montanha de chantilly, acompanha perfeitamente o espresso.
Dica de amigo: tome seu café em pé no balcão, seguindo o costume local. O preço sobe de 1,20 € para até 4 € assim que você se senta na mesa. Além disso, se uma cesta de pães chegar à sua mesa sem que você tenha pedido, saiba que ela será cobrada na conta. Diga educadamente que não quer para evitar surpresas.
Alguns endereços recomendados incluem o Roscioli, no centro histórico, famoso pelas massas e pela adega impecável; o Da Enzo al 29, no Trastevere, para uma comida caseira e sem frescuras; a Pizzarium, perto do Vatican, referência em pizza ao pedaço; e a Trattoria Pennestri, no Testaccio, que apresenta releituras caprichadas dos clássicos. Evite restaurantes com fotos dos pratos na fachada: costuma ser sinal furada.
Onde ficar em Roma?
O Centro Storico coloca você a poucos passos de tudo, mas os preços disparam. O bairro Monti funciona como um excelente meio-termo: central, bem conectado ao transporte e com vida de bairro autêntica. O Trastevere atrai pela vida noturna animada, embora o barulho na rua possa incomodar na hora de dormir. Para diárias mais camaradas, vale a pena olhar opções em San Giovanni, Pigneto ou Ostiense, bairros bem atendidos por metrô e ônibus.
Na alta temporada ou durante eventos especiais como o Jubileu, reservar com dois a três meses de antecedência é fundamental. Aluguéis de temporada costumam valer mais a pena do que hotéis para estadias superiores a três noites, principalmente para quem viaja em família.
Como chegar a Roma?
O aeroporto de Fiumicino é o principal terminal e conta com o trem expresso Leonardo Express, que chega à estação Termini em 32 minutos por 14 € (cerca de 88 reais), com partidas a cada 15 minutos. Uma alternativa mais econômica é o trem regional FL1, que para nas estações de Trastevere, Ostiense e Tiburtina por cerca de 8 € (cerca de 50 reais). Vindo do aeroporto de Ciampino, voltado para companhias de baixo custo, ônibus de traslado levam até Termini em 40 minutos por valores entre 5 € e 7 €.
Para quem chega de trem de alta velocidade, a linha Frecciarossa conecta Roma a Florença em 1h30, a Nápoles em 1h10 e a Milão em menos de 3h.
Como se deslocar em Roma?
O centro histórico é feito para ser percorrido a pé. Para distâncias maiores, a rede pública ATAC integra metrô, ônibus e bondes. O bilhete unitário custa 1,50 € (cerca de 9,50 reais) e vale por 100 minutos. O passe turístico de 72 horas, vendido a 52 € (cerca de 325 reais), dá direito a transporte ilimitado e entrada gratuita em duas atrações, sendo um ótimo investimento para quem planeja visitar o Coliseu e a Galleria Borghese.
Os táxis oficiais são brancos e trazem o emblema SPQR nas portas. Uma corrida dentro do centro custa entre 8 € e 15 €. O aplicativo Uber opera na cidade apenas na modalidade executiva Uber Black, o que encarece a corrida em relação aos táxis comuns. Andar de carro pelo centro é desaconselhado devido às chamadas ZTL (zonas de tráfego limitado controladas por câmeras), que aplicam multas pesadas para veículos não autorizados.
Quando ir?
Os melhores meses para visitar a cidade são abril, maio, setembro e outubro, quando as temperaturas ficam agradáveis entre 18 °C e 25 °C, a luz do sol é bonita e o fluxo de turistas é administrável. O verão costuma ser abafado, lotado e parcialmente desacelerado em meados de agosto, quando os romanos saem de férias e muitos comércios fecham as portas. O inverno traz tarifas menores e atrações vazias, mas a chuva é frequente e escurece mais cedo.
Roma é a cidade dos superlativos, tudo lá é mais. A história super rica, a gastronomia maravilhosa, o sol generoso. É preciso planejar bem o tempo para conseguir aproveitar tanta riqueza. Sinceramente, os pontos turísticos principais atraem gente demais para o meu gosto. Uma dica: vá bem de manhãzinha ou à noite para visitar a Fontana di Trevi ou a Piazza Navona. E por fim, evite o verão, que é muito quente e cansativo por causa da multidão...