Le Bec-Hellouin, o vilarejo normando que formou os arcebispos de Cantuária
Em 1034, um cavaleiro chamado Herluin largou as armas para fundar um mosteiro às margens de um riacho, em um vale do departamento de Eure. Nove séculos depois, esse riacho continua correndo entre as casas enxaimel, e os monges voltaram.
A palavra "bec" vem do nórdico antigo bekkr, que significa riacho. Tudo aqui deriva dessa água discreta: a abadia, o vilarejo, os jardins, o silêncio.
Um vilarejo para quem sabe desacelerar
Este vilarejo de 400 habitantes, integrado à associação dos Mais Belos Vilarejos da França, convida à contemplação. Amantes de patrimônio religioso, entusiastas da permacultura, ciclistas pedalando pela ciclovia ou casais em busca de calmaria vão encontrar o lugar perfeito. Le Bec-Hellouin se visita em meio dia, mas merece ser saboreado por um fim de semana inteiro.
Se você procura agito à noite, grandes lojas ou agito noturno, este destino certamente não é para você. O vilarejo tem apenas alguns restaurantes e galerias de arte, nada além disso. Sem armadilhas para turistas ou multidões sufocantes. Apenas ruelas floridas, uma abadia milenar e o som da água.
Um orçamento acessível para a Normandia
Espere gastar de 75 a 100 € (cerca de 460 a 615 reais) por noite em uma pousada estilo chambre d'hôtes, de 25 a 35 € (cerca de 155 a 215 reais) por pessoa em restaurantes, com entrada gratuita nos jardins da abadia. Um fim de semana para dois sai por cerca de 250 a 350 € (cerca de 1.535 a 2.150 reais) com tudo incluído, sem contar o transporte.
A Abadia Notre-Dame du Bec, mil anos de história viva
A torre Saint-Nicolas, com 45 metros de altura e arquitetura anglo-normanda, domina a entrada. É o único vestígio medieval que permanece de pé, já que seus quatro sinos desapareceram durante a Revolução Francesa. Dois monges desta abadia, Lanfranco de Pavia e Anselmo de Cantuária, tornaram-se arcebispos de Cantuária no século XI. Após séculos de destruição, os beneditinos só retornaram ao local em 1948.
Os jardins têm visita livre. Para ver o claustro do século XVII e a biblioteca, é preciso acompanhar a visita guiada conduzida pelos próprios monges. De abril a setembro: às segundas, quartas, quintas, sextas e sábados às 10h30, 15h e 16h. Fechado às terças-feiras.
Dica de amigo: passe na loja dos monges antes de ir embora. As cerâmicas e velas feitas no local têm excelente acabamento, e sua compra financia diretamente a vida monastica. As faianças costumam esgotar rápido no verão.
O vilarejo e suas fachadas enxaimel
A praça Guilherme o Conquistador concentra as fachadas de madeira mais bonitas, cada uma pintada com uma cor diferente. Na primavera, as sacadas transbordam de flores. O posto de turismo, na rua de Canterbury, distribui um guia de caminhada com explicações sobre cada residência. Algumas galerias de arte e ateliês de ceramistas pontuam o passeio, incluindo a Galerie Curiosités. O mercado de oleiros no início de abril e a feira gastronômica Gourmand'Art em julho valem a viagem.
A fazenda de Bec-Hellouin, referência mundial em permacultura
A 500 metros da abadia, Charles e Perrine Hervé-Gruyer criaram em 2003 o que hoje é um modelo estudado pelo INRA (instituto francês de pesquisa agronômica). Mais de 800 variedades de frutas e legumes crescem na fazenda orgânica de Bec-Hellouin, cultivada à mão, sem tratores ou pesticidas. O documentário A Amanhã dedicou um capítulo inteiro ao projeto.
Visitas possíveis todas as sextas-feiras, das 16h às 19h, durante a venda direta de produtos. Em julho e agosto, a abertura acontece mais cedo, às 15h. Fechamento anual de 22 de dezembro a 31 de março. A Escola de Permacultura, certificada pelo selo Qualiopi, oferece cursos intensivos de 12 dias para quem deseja sair da curiosidade e ir para a prática.
A ciclovia e os arredores
A ciclovia Évreux-Le Bec-Hellouin, com 42 km de pista pavimentada construída sobre uma antiga ferrovia, é perfeita para pedalar. O trecho final desce por colinas arborizadas até o rio Bec. Em Pont-Authou, ela se conecta à rota cicloturística da Risle em direção a Pont-Audemer.
O castelo de Harcourt, a 8 km, abriga um arboreto com 500 espécies distribuídas em 11 hectares. O castelo do Campo de Batalha, a 14 km, restaurado por Jacques Garcia, surpreende com seus jardins barrocos. Pont-Audemer, a 20 km, conhecida como a Pequena Veneza normanda, completa muito bem um roteiro de poucos dias.
Dica de amigo: se vier pedalando, pegue o trem Paris-Évreux e siga pela ciclovia. São 42 km planos ou em leve declive, com áreas de piquenique pelo caminho. Leve água, pois a sombra é escassa no trecho central.
Onde comer e beber em Le Bec-Hellouin?
As opções são reduzidas, mas de boa qualidade. A Auberge de l'Abbaye, um antigo casarão do século XVIII na praça principal, serve pratos tradicionais normandos caprichados por cerca de 29 € (cerca de 180 reais) no menu de almoço. O foie gras mal passado e a torta fina de maçã são apostas certeiras. Em Brionne, a 6 km, o Petit Pont é uma ótima alternativa. Aproveite também a feirinha da fazenda às sextas-feiras para comprar vegetais orgânicos de frescor incomparável.
Onde dormir em Le Bec-Hellouin e arredores?
L'Atelier de Tess, em frente à abadia, e Les Chambres de la Tour, na praça Guilherme o Conquistador, são os melhores endereços do vilarejo. Casas de temporada a partir de 280 € (cerca de 1.715 reais) a semana na baixa temporada. A Auberge de l'Abbaye conta com 10 quartos de hotel. As cidades vizinhas de Malleville-sur-le-Bec e Freneuse-sur-Risle complementam a oferta com acomodações charmosas em estilo vagonete e chalés rurais com preços acessíveis.
Como chegar e se locomover em Le Bec-Hellouin?
Saindo de Paris, são 2h15 pela rodovia A13 até a saída 24 em direção a Brionne, totalizando 160 km. De Rouen, são 40 km pela estrada D39. Há estacionamento gratuito na entrada do vilarejo. O carro continua sendo praticamente indispensável para explorar os arredores.
De trem, a estação de Brionne, a 7 km, recebe trens regionais TER vindos de Rouen. Bernay, a 25 km, tem conexão direta com a estação Paris Saint-Lazare. A linha de ônibus 380, que faz o trajeto entre Évreux e Honfleur, passa pelo vilarejo, mas os horários são limitados.
Quando ir?
De maio a setembro para ver as flores, aproveitar as visitas guiadas completas e visitar a fazenda aberta ao público. O outono traz cores deslumbrantes para o vale. Evite o período entre o fim de dezembro e o fim de março, pois muitos estabelecimentos fecham e o ritmo do vilarejo fica bem lento.
O vilarejo de Le Bec-Hellouin não é grande, mas atrai muitos turistas. Provavelmente são todas aquelas casas enxaimel e com telhados de palha (algumas delas), sua abadia, suas ruas estreitas, a ciclovia verde ao longo do rio Le Bec que fazem o charme deste vilarejo normando. Durante a temporada, há muitos eventos, como encontros de carros e motos antigos, feiras de antiguidades...