Rouen, a cidade dos cem campanários onde Joana d'Arc foi queimada
São 8h da manhã na place du Vieux-Marché. As bancas da feira transbordam de queijos camembert artesanais e maçãs reineta, enquanto a igreja moderna de formas onduladas se ergue bem onde Joana d'Arc pereceu em 1431. Essa justaposição brutal entre memória trágica e vida cotidiana resume Rouen melhor do que qualquer guia. Capital da Normandia, esta cidade de 110.000 habitantes revela um centro medieval de uma densidade rara, onde as casas enxaimel se apertam umas contra as outras como se quisessem se proteger do tempo que passa.
Rouen: um destino para quem ama história e arquitetura em pedra
Se você procura um destino onde caminhar baste para viajar no tempo, Rouen foi feita para você. Cada ruela do centro esconde fachadas esculpidas, pátios recônditos e placas de ferro forjado. Quem é apaixonado por arquitetura medieval e renascentista vai encontrar aqui um prato cheio. Os fãs de impressionismo também: Monet pintou a catedral mais de trinta vezes sob diferentes luzes.
Por outro lado, se você sonha com praias ou grandes espaços naturais, melhor escolher outro destino. Rouen é uma cidade de pedra e de patrimônio construído, não um refúgio de natureza. O turismo fica concentrado em um perímetro bem restrito. Em um fim de semana intenso, você consegue ver todos os principais pontos de interesse.
Um orçamento bastante acessível para uma capital regional
Espere gastar de 70 a 120 euros por dia para duas pessoas (cerca de 440 a 760 reais), já com hospedagem inclusa. Um quarto de hotel decente no centro custa em torno de 80 euros a diária (cerca de 500 reais), e uma refeição em restaurante sai entre 15 e 30 euros por pessoa (cerca de 95 a 190 reais). Os museus municipais têm entrada franca no primeiro domingo do mês.
O coração medieval: onde tudo acontece
O centro histórico de Rouen pode ser explorado a pé em poucas horas, mas vale a pena caminhar sem pressa. A cathédrale Notre-Dame impõe sua fachada de renda de pedra, uma obra-prima gótica que Monet imortalizou. Por dentro, a tour de Beurre lembra que os moradores ricos de Rouen pagavam para poder comer manteiga durante a Quaresma. O dinheiro arrecadado ajudou a financiar essa torre de 75 metros.
A poucos passos dali, o Gros-Horloge atravessa a rua de pedestres de mesmo nome. Esse relógio astronômico do século XIV, banhado a ouro fino, indica as fases da lua e o dia da semana. Vale a pena subir no campanário para entender o mecanismo e ver os telhados da cidade do alto.
Dica de amigo: Volte para ver a catedral ao anoitecer no verão. O espetáculo gratuito de som e luz projeta as telas de Monet diretamente na fachada. O efeito é impressionante e dura cerca de vinte minutos.
L'Îlot Saint-Maclou: o lugar mais misterioso da Normandia
Poucos turistas se aventuram até esse claustro escondido atrás da église Saint-Maclou. No entanto, é o canto mais singular de Rouen. Esse antigo ossário do século XVI, construído durante as grandes epidemias de peste, exibe colunas de madeira esculpidas com caveiras, tíbias e ferramentas de coveiro. A atmosfera é surpreendentemente tranquila. Hoje, as galerias abrigam a Escola de Belas-Artes.
A própria igreja Saint-Maclou merece uma visita pelo seu pórtico flamboyant, considerado um dos exemplos mais marcantes do gótico tardio na França. As cinco portas de madeira esculpida datam do Renascimento e retratam cenas bíblicas com um realismo impressionante.
A margem esquerda: a Rouen que se renova
Atravesse o rio Sena para descobrir outra face da cidade. O quartier Saint-Sever e os antigos armazéns portuários passam por uma transformação há dez anos. O 106, um antigo galpão industrial convertido em casa de shows e espetáculos, simboliza essa revitalização. Os armazéns agora abrigam galerias de arte, wine bars e restaurantes menos padronizados que os do circuito turístico.
O panorama XXL oferece uma experiência imersiva original: uma tela circular de 3.000 m² que coloca você no meio de reconstituições históricas em tamanho real, como a Roma Antiga ou a Grande Barreira de Corais. O conceito divide opiniões, mas as crianças adoram.
Dica de amigo: No domingo de manhã, a feira da place Saint-Marc, na margem esquerda, atrai bem menos turistas do que a da Vieux-Marché. Os preços são mais em conta e o clima é bem mais local.
Além do centro: passeios rápidos de bonde
O jardin des Plantes, acessível de bonde, oferece um refúgio verde muito bem-vindo. Suas estufas tropicais guardam coleções botânicas importantes. A entrada é gratuita. Para mergulhar na história industrial da região, siga até o musée de la Corderie Vallois, em Notre-Dame-de-Bondeville, uma antiga fiação de algodão que ainda funciona.
Quem gosta da obra de Flaubert pode visitar o pavilhão onde o escritor nasceu, dentro do antigo Hôtel-Dieu. O museu reconta sua vida e sua obra em um ambiente bem preservado. Madame Bovary foi escrita a poucos quilômetros dali, em Croisset, onde ainda existe outro pavilhão-museu.
Onde comer e beber em Rouen?
A gastronomia de Rouen gira em torno do pato, preparado à moda de Rouen com um molho encorpado de sangue e vinho tinto. O prato, pesado e marcante, é servido em endereços tradicionais como La Couronne, a estalagem mais antiga da França em funcionamento desde 1345. Espere gastar pelo menos 40 euros (cerca de 250 reais) por esse ritual gastronômico.
Para uma refeição mais simples, as ficelles picardes (panquecas recheadas com presunto e cogumelos) e o mirliton, um bolinho de amêndoas, são apostas certeiras da região. O cidre bouché do Pays de Bray acompanha perfeitamente as especialidades normandas. No quesito endereços, a rue Martainville e arredores reúnem os bistrôs mais animados, frequentados por estudantes e moradores locais em vez de grupos de turistas.
Onde dormir em Rouen e arredores?
O quartier de la cathédrale oferece a localização mais prática, com hotéis de charme instalados em antigas casas enxaimel. Os preços ali são naturalmente mais altos. A região da estação de trem tem opções mais econômicas, a dez minutos a pé do centro histórico.
Para quem busca mais tranquilidade e economia, vale a pena olhar as cidades vizinhas como Bonsecours, no alto das colinas, ou Mont-Saint-Aignan, um bairro universitário com boa ligação de transporte. Quem prefere o clima de campo encontra excelentes pousadas (chambres d'hôtes) nos vilarejos do vale do Sena, a quinze minutos de carro.
Como chegar e circular em Rouen?
O trajeto de trem entre Paris e Rouen leva 1h20 saindo da estação Saint-Lazare, com partidas frequentes e passagens entre 15 e 30 euros (cerca de 95 a 190 reais). Saindo de Lille, conte com 2h30 de viagem com uma troca em Paris. Quem viaja de carro da Bélgica ou dos Países Baixos pode pegar a rodovia A28, já que Rouen fica a 2h30 de Bruxelles.
Na cidade, o bonde e os ônibus cobrem toda a área urbana com eficiência. A passagem avulsa custa 1,80 euro (cerca de 11 reais). O centro para pedestres é fácil de explorar a pé, o que continua sendo a melhor maneira de descobrir as ruelas medievais. Os estacionamentos subterrâneos no centro cobram cerca de 2 euros por hora (cerca de 13 reais).
Quando ir?
A primavera e o início do outono oferecem o melhor equilíbrio entre clima agradável e menor movimento de turistas. Maio e setembro são especialmente convidativos. O verão traz os espetáculos de luz e som na catedral, mas também traz multidões de viajantes. No inverno, o mercado de Natal transforma o centro da cidade, com direito a uma pista de patinação montada em frente à catedral.
Eu morei 3 anos em Ruão, e embora nem sempre seja necessariamente a cidade mais agradável para se viver (por culpa das muitas fábricas nos arredores, principalmente), ela continua perfeita para quem ama história. Entre os duques, a Segunda Guerra Mundial (a prefeitura ainda tem marcas de tiros), Joana d'Arc, os impressionistas, a casa de Flaubert, as batalhas contra a Prússia, a casa de Corneille... não vai faltar o que fazer!