NGV, o templo da arte australiana que faz bater o coração cultural de Melbourne
Logo na entrada, a parede d'água recebe você com uma cascata majestosa que desliza pela fachada de pedra azul. Atravesse essa porta líquida e olhe para cima. Acima de sua cabeça, 16.000 pedaços de vidro lapidado explodem em um caleidoscópio de cores primárias. Este é o maior teto de vitral suspenso do mundo, e ele dita o tom: você está na galeria de arte mais antiga e mais visitada da Austrália.
Por que a Galeria Nacional de Victoria merece a visita?
Fundada em 1861 logo após a corrida do ouro que garantiu a fortuna da colônia de Victoria, a NGV materializa a ambição cultural de uma cidade que queria rivalizar com as capitais europeias. Hoje, o espaço abriga mais de 76.000 obras divididas em duas sedes: a NGV International, localizada na St Kilda Road para a arte internacional, e o The Ian Potter Centre na Federation Square para a arte australiana.
O que torna esta instituição única? A entrada é gratuita para as coleções permanentes. Os moradores de Melbourne costumam passar para ver uma obra de Monet ou Picasso durante a pausa para o almoço. Essa democratização da arte transforma o local no museu mais frequentado do país, com recordes de público impressionantes: a exposição de Yayoi Kusama entre 2024 e 2025 atraiu mais de 570.000 visitantes, consolidando-se como a mostra de artes visuais mais visitada já realizada na Austrália.
O Grande Hall: uma catedral de luz e vidro
Uma concepção monumental
O coração arquitetônico da NGV International pulsa no Grand Hall. Projetado pelo arquiteto Sir Roy Grounds e inaugurado em agosto de 1968, este edifício brutalista de pedra azul esconde uma maravilha em seu interior: o teto criado por Leonard French. O artista australiano passou cinco anos (1963-1967) concebendo esta obra monumental.
As dimensões impressionam: 60,9 metros de comprimento, 15,24 metros de largura e 13,72 metros de altura. Os 224 triângulos de vidro talhado à mão pesam 300 kg cada um. French precisou aprender a técnica do vitral do zero, partindo placas de vidro francês e belga com 2,5 cm de espessura a golpes de martelo sobre uma bigorna, com a ajuda de três colaboradores.
Enaltecido pela luz e pelas cores
O resultado é um verdadeiro tapete persa de luz. As facetas do vidro refratam e refletem a luz natural, projetando no chão um balé de tons vermelhos, azuis, púrpuras e amarelos que se transforma ao longo do dia. A criação incorpora elementos cósmicos, como zodíacos, galáxias e constelações. French gostava de ver os visitantes deitados no chão para contemplar sua obra-prima, apesar dos protestos dos seguranças.
A dica de amigo: visite o Grand Hall no fim da tarde, quando a luz oblíqua do sol faz as cores do vitral brilharem com intensidade. Sente-se nos bancos estilo Bauhaus criados em 2024 por Helen Kontouris, cujos padrões geométricos dialogam diretamente com as linhas do teto.
As coleções permanentes: uma viagem por continentes
A NGV International distribui seu acervo em quatro níveis ao redor de um átrio banhado por luz natural. O andar térreo recebe as grandes exposições temporárias itinerantes. Os três andares superiores guardam as coleções permanentes, organizadas por região e cronologia.
Arte asiática (nível 1)
A coleção asiática, iniciada em 1862 com a doação de dois pratos chineses, reúne hoje 4.000 obras. O visitante encontra cerâmicas chinesas milenares, esculturas budistas, xilogravuras japonesas e tecidos indianos. A instalação Reflection Model (Itsukushima), assinada por Takahiro Iwasaki, destaca-se pela delicadeza extrema.
Arte britânica e europeia (níveis 1 e 2)
As 16.000 obras internacionais abrangem oito séculos de história artística europeia. O nível 1 apresenta a produção do século XIII ao século XV. O nível 2 mergulha em períodos posteriores com mestres flamengos, impressionistas franceses e peças dos séculos XIX e XX.
Não perca as telas de Monet, Picasso, Rembrandt e Turner. A galeria possui um acervo de impressionismo francês especialmente notável, frequentemente ampliado por empréstimos internacionais, a exemplo da mostra de 2025-2026 em parceria com o Museum of Fine Arts de Boston.
Arte contemporânea (nível 3)
O nível 3, com uma atmosfera mais intimista, expõe aquisições contemporâneas e exibições temporárias que questionam as práticas artísticas atuais. A moda, o design e a arquitetura também encontram espaço aqui, com peças de Iris van Herpen e outros criadores vanguardistas.
As grandes exposições e eventos
A NGV promove mais de 40 exposições por ano. O programa Melbourne Winter Masterpieces atrai todas as temporadas de inverno empréstimos excepcionais vindos de museus internacionais. O NGV Triennial, lançado em 2017, celebra a cada dois ou três anos a arte e o design contemporâneo global. A edição de estreia atraiu 1,3 milhão de pessoas.
Nas noites de sexta-feira, o evento NGV International Friday Nights transforma a galeria em um ponto de encontro animado com música, bar e horário estendido até as 22h. O clima é descontraído, ideal para apreciar arte de uma perspectiva diferente.
Do lado de fora, vale a pena caminhar pelo jardim de esculturas localizado na parte posterior do edifício. Essa área verde convida a uma pausa contemplativa em meio às instalações monumentais ao ar livre.
Horários
*Informações sujeitas a variação