Belgrado, a capital rebelde dos Bálcãs
São 23h às margens do rio Sava, e a cidade mal começa a despertar. Nos splavovi, aquelas baladas flutuantes amarradas ao longo do rio, os graves já ecoam. A algumas centenas de metros, a silueta massiva da fortaleza de Kalemegdan se destaca no crepúsculo. Belgrado não se parece com nenhuma outra capital europeia. Destruída e reconstruída mais de quarenta vezes ao longo de sua história, ela carrega suas cicatrizes com um orgulho um tanto displicente, quase provocante.
Belgrado: um destino para mentes curiosas
Esta cidade se destina a quem busca algo além de fachadas impecáveis e roteiros padronizados. Quem curte vida noturna vai encontrar aqui uma das cenas mais intensas da Europa, e os apaixonados por história conseguem ler vinte séculos de tumulto nas paredes da cidade velha. Belgrado também combina perfeitamente com quem viaja de olho no orçamento e não abre mão da qualidade da experiência.
Por outro lado, se você procura uma arquitetura romântica no estilo de Praga ou Viena, siga adiante. A cidade não é feia, mas também não tenta seduzir logo no primeiro olhar. Visitantes que precisam de monumentos grandiosos a cada esquina correm o risco de se decepcionar. E quem não suporta fumaça de cigarro precisa de paciência, pois os sérvios ainda fumam bastante em ambientes fechados.
Um orçamento muito camarada para a Europa
Belgrado continua sendo uma das capitais mais baratas do continente. Espere gastar entre 40 e 60 euros por dia para uma estadia confortável, já com hospedagem inclusa (cerca de 250 a 380 reais). Uma refeição em uma kafana tradicional raramente passa de 10 euros (cerca de 60 reais), e o transporte público custa menos de um euro a passagem (cerca de 6 reais).
A cidade velha e Kalemegdan: o coração pulsante de Belgrado
Tudo começa em Stari Grad, o menor bairro da cidade, mas também o mais denso em história. A Praça da República serve como ponto de encontro para os moradores há gerações. A estátua equestre do príncipe Mihailo, com o dedo apontado para Constantinopla, lembra a libertação do jugo otomano. A partir dali, a rua de pedestres Knez Mihailova estende seu quilômetro de fachadas em estilo Art nouveau até a fortaleza.
A fortaleza de Kalemegdan merece algumas horas de visita. Celtas, romanos, bizantinos, otomanos e austro-húngaros a defenderam ou destruíram em revezamento. Hoje, é um parque onde as famílias fazem piquenique aos domingos, enquanto os casais vão ver o pôr do sol no encontro dos rios Danúbio e Sava. Não perca a igrejinha Ružica, coberta de hera por fora e decorada com lustres feitos de cartuchos de obuses por dentro.
Dica de amigo: faça um desvio até Kosančićev venac, a rua mais antiga de Belgrado fora dos muros. Essa viela em curva abriga a residência da princesa Ljubica e a catedral de São Miguel, em um sossego inesperado.
Skadarlija e Dorćol: a alma boêmia
Skadarlija ganhou o apelido de Montmartre de Belgrado. Essa rua de paralelepípedos com 400 metros reúne as kafanas mais famosas da cidade, onde músicos tocam o tamburica até o amanhecer. Os restaurantes Tri Šešira e Dva Jelena recebem visitantes há mais de um século. Os preços continuam razoáveis apesar do fluxo de turistas, e o ambiente à noite vale muito a pena.
Logo ao norte, o bairro de Dorćol apresenta uma versão mais contemporânea dessa agitação. Ali, galerias de arte dividem espaço com bares de coquetéis e cafés onde estudantes conversam sobre tudo. O espaço cultural Dorćol Platz reúne artistas e moradores em eventos frequentes. Para um café excepcional, passe na porta da Kafeterija Magazin 1907, instalada em um prédio histórico de três andares.
Zemun: a antiga vila austríaca
A quinze minutos de ônibus do centro, Zemun já foi uma cidade totalmente separada, do outro lado da fronteira austro-húngara. Suas ruas estreitas mantêm um charme da Europa Central que Belgrado acabou perdendo. No topo da colina, a torre Gardoš oferece vista panorâmica dos telhados de telhas vermelhas e do rio Danúbio.
Os calçadões à beira-rio em Zemun são repletos de restaurantes especializados em peixes frescos grelhados. O clima ali é mais tranquilo do que no centro, lembrando o de uma cidade do interior. O mercado de Zemun, um dos mais antigos da região, vale a visita pelos produtos frescos e pela movimentação da manhã.
Dica de amigo: pegue o trem urbano BeoVoz na estação Vukov Spomenik até Zemun. O trajeto corta os blocos de concreto de Novi Beograd e oferece um panorama curioso da arquitetura socialista.
A zona sul: templos e panoramas
O bairro de Vračar se espalha por uma colina ao sul do centro. Seu principal monumento, o templo de São Sava, figura entre as maiores igrejas ortodoxas do mundo. A construção começou em 1935 e ainda não foi totalmente finalizada. O interior impressiona pelas proporções grandiosas e pelos mosaicos dourados, mesmo com algumas áreas ainda em obras.
Vračar também atrai pela atmosfera residencial e pela enorme quantidade de cafés. O mercado Kalenić, inaugurado em 1926, continua sendo um dos mais animados da cidade para comprar frutas, legumes e produtos locais. As cerejas da Sérvia, colhidas em junho, já justificam a viagem.
Onde comer e beber em Belgrado?
A culinária sérvia é robusta e sem frescuras. Os ćevapi, mini salsichas grelhadas servidas com pão sírio e cebola, formam o lanche nacional por excelência. A pljeskavica é um hambúrguer temperado que faz qualquer lanche industrial parecer brincadeira. Para acompanhar tudo, o ajvar, uma pasta de pimentões vermelhos assados, aparece em praticamente todas as mesas.
As kafanas proporcionam uma imersão gastronômica mais ampla. O restaurante Manufaktura, na cidade velha, serve pratos sérvios com um toque moderno acompanhados por vinhos da região de Fruška Gora. Para provar uma rakija artesanal de verdade, vá ao Belgrade Urban Distillery, o primeiro bar dedicado exclusivamente a essa aguardente de frutas. Quem gosta de cerveja artesanal vai curtir a cervejaria Dogma, perto de Ada Ciganlija.
Dica de amigo: de manhã, faça como os locais e peça um burek recheado com queijo ou carne em uma pekara, acompanhado de um iogurte de beber. Gaste menos de 3 euros (cerca de 18 reais) nesse café da manhã reforçado.
Onde dormir em Belgrado e arredores?
Ficar em Stari Grad permite fazer quase tudo a pé. Os apartamentos por temporada são comuns e costumam sair mais em conta do que os hotéis tradicionais. O Balkan Soul Hostel atende bem quem viaja sozinho com um bom custo-benefício. Para quem busca mais conforto, o Mama Shelter Belgrade oferece quartos modernos e um terraço na cobertura com vista panorâmica.
Vračar proporciona uma opção mais sossegada, ótima para famílias ou para quem prefere um clima de bairro residencial. O hotel Envoy, perto da rua Knez Mihailova, junta serviços de alto padrão com tarifas razoáveis. Em Zemun, algumas pousadas cheias de charme permitem escapar da correria do centro sem perder a conexão de transporte com o restante da cidade.
Como chegar e circular em Belgrado?
O aeroporto Nikola Tesla fica a 18 quilômetros do centro. O ônibus 72 leva até a estação Zeleni Venac em 45 minutos por menos de 2 euros (cerca de 12 reais). Os táxis cobram tarifas baratas, mas o ideal é combinar o valor da corrida antes de entrar. O aplicativo CarGo funciona como o Uber e ajuda a evitar surpresas desagradáveis.
Há voos diretos partindo de capitais europeias e ótimas conexões via grandes hubs para quem chega de fora. De ônibus, Belgrado se conecta bem com as capitais vizinhas: espere cerca de 8 horas de viagem saindo de Zagreb ou Sófia, e 6 horas de Sarajevo.
Na cidade, a rede de bondes, ônibus e trólebus atende bem a maioria dos bairros. Uma passagem avulsa custa por volta de 90 dinares (cerca de 5 reais), e o bilhete diário tem excelente custo-benefício. Dá para explorar todo o centro a pé em apenas meio período.
Quando ir?
A primavera e o outono oferecem o clima ideal, com temperaturas agradáveis e menor fluxo de turistas. O verão costuma ser abafado, com máximas que ultrapassam os 35 graus, mas é também a época dos festivais ao ar livre e da vida noturna fervilhante. O inverno costuma ser frio e cinzento, e a poluição gerada pelo aquecimento à carvão deixa o ar pesado em algumas áreas. Evite janeiro e fevereiro se você tiver sensibilidade respiratória.
Fui para lá para um casamento, sem nenhuma expectativa em especial, e gostei muito da cidade, que eu não esperava encontrar tão animada. Belgrado oferece principalmente belos passeios, especialmente perto da fortaleza e do parque Kalemegdan, ou também do parque Tašmajdan. O museu nacional, que conta a história do país, é interessante de visitar. É um destino ainda pouco turístico, então dá para aproveitar todos os pontos turísticos com calma.
Desde este ano, todos os transportes públicos são gratuitos (com exceção do transfer para o aeroporto), o que facilita bastante a locomoção. Um ponto de atenção é que os moradores falam relativamente pouco inglês, fora das grandes praças do centro da cidade. Um guia de conversação pode ser útil.