A Sérvia, esse país dos Bálcãs que não faz nada pela metade
O primeiro café sérvio abriu as portas em Belgrade em 1522, ou seja, 33 anos antes do de Istambul. Esse detalhe histórico resume bem o espírito do país: uma vantagem nas tendências, mas uma discrição que às vezes beira o anonimato. A Sérvia continua sendo um dos segredos mais bem guardados da Europa, cercada por vizinhas que aparecem muito mais na mídia.
A Sérvia: é um destino para você?
Este país atrai quem busca autenticidade longe das multidões. Se você sonha com praias de areia branca, mude de rumo, pois a Sérvia não tem litoral. Por outro lado, se você gosta de capitais que fervem até o amanhecer, mosteiros medievais escondidos nas montanhas e a sensação de ser o único turista em um local protegido pela UNESCO, você está no lugar certo.
Na parte prática, prepare-se para algumas adaptações. O alfabeto cirílico domina as placas de trânsito, embora os mais jovens falem inglês sem problemas. A rede hoteleira vem melhorando, mas ainda é irregular fora dos grandes centros. O custo de vida é bem baixo se comparado à Europa Ocidental: espere gastar entre 1.500 e 1.900 dinares sérvios (cerca de 75 a 95 reais) em uma refeição farta em um bom restaurante. Os sérvios levam a hospitalidade a sério, e recusar um gole de rakija oferecido por um morador local soa quase como ofensa.
Belgrado, a capital que nunca dorme
A capital sérvia se espalha no encontro dos rios Danúbio e Sava, uma posição estratégica que fez com que fosse destruída e reerguida cerca de 40 vezes ao longo dos séculos. Essa resiliência aparece nas ruas, onde a arquitetura otomana divide espaço com construções austro-húngaras e marcas dos bombardeios de 1999, mantidas de propósito como memória recente.
A fortaleza de Kalemegdan avista o encontro dos dois rios. No fim da tarde, os moradores vão para lá caminhar, tomar um café ou apenas ver a paisagem. O bairro de Skadarlija, com suas ruas de pedra e tabernas centenárias, transporta o visitante para a Belgrado boêmia do século XIX. Músicos ciganos caminham entre as mesas, e não é raro terminar a noite cantando clássicos tradicionais com quem você acabou de conhecer.
Os splavovi, clubes flutuantes únicos no mundo
A fama noturna de Belgrado passa muito pelos splavovi, barcos adaptados como bares e boates ancorados nas margens dos rios. Mais de 200 estabelecimentos flutuantes oferecem estilos variados, desde techno underground e R&B até música balcânica e pop comercial. A temporada ferve de maio a setembro, mas alguns funcionam o ano todo. As festas começam tarde, raramente antes da meia-noite, e vão até o dia clarear.
Dica de amigo: evite as sextas e sábados se você odeia filas. As noites de quinta-feira entregam a mesma energia com menos gente e preços de bebidas mais camaradas.
Novi Sad e a Voivodina, a outra face sérvia
A uma hora de carro ao norte de Belgrado, Novi Sad mostra um ritmo completamente diferente. A influência austro-húngara aparece nos prédios em tons pastel do centro. A imponente fortaleza de Petrovaradin, chamada de o "Gibraltar do Danúbio", vigia a margem desde o século XVII. Seus túneis subterrâneos somam mais de 16 quilômetros de galerias, e o relógio guarda uma curiosidade: o ponteiro maior marca as horas, e o menor marca os minutos.
Todo mês de julho, essa fortaleza recebe o festival EXIT, um dos maiores eventos musicais da Europa, reunindo 200.000 pessoas ao longo de quatro dias. Criado em 2000 como um protesto estudantil pró-democracia, hoje ele mistura grandes nomes da música mundial e novos artistas em mais de 40 palcos.
Sremski Karlovci e os vinhedos de Fruška Gora
A pequena cidade de Sremski Karlovci, a quinze minutos de Novi Sad, guarda o coração vinícola do país. As adegas familiares abrem as portas para provar o bermet, um vinho de sobremesa temperado com ervas e especiarias típico da região. A lenda diz que o Titanic levava garrafas dele no porão em sua viagem inaugural. O parque nacional de Fruška Gora, que abraça a cidade, esconde 16 mosteiros ortodoxos erguidos entre os séculos XV e XVIII, alguns ainda morada de monges.
Os mosteiros medievais, tesouros espirituais e artísticos
A Sérvia abriga alguns dos mosteiros ortodoxos mais impressionantes da Europa, geralmente isolados em vales tranquilos. O mosteiro de Studenica, reconhecido pela UNESCO, remonta ao século XII. Suas pinturas bizantinas estão entre as mais bem conservadas do continente. A igrejinha de São Nicolau, a menor do complexo, guarda os trabalhos mais antigos e marcantes.
Mais ao sul, Sopoćani preserva afrescos do século XIII de uma delicadeza impressionante, mesmo após séculos de abandono e ação do tempo. O mosteiro de Manasija, cercado por onze torres de defesa, lembra o período em que esses locais funcionavam tanto como abrigos quanto como centros de resistência frente às invasões otomanas.
Dica de amigo: alugue um carro para visitar os mosteiros, pois o transporte público é escasso por lá. O aluguel sai por cerca de 3.000 a 4.800 dinares por dia (cerca de 150 a 240 reais), dando a liberdade necessária em um país de distâncias fáceis de rodar.
Natureza selvagem: cânions, montanhas e florestas profundas
O cânion do rio Uvac entrega um dos visuais mais marcantes dos Bálcãs. O rio desenhou curvas sinuosas no calcário, formando laços fechados que podem ser vistos de vários mirantes. Os grifos, abutres que voltaram a povoar a área com sucesso, voam alto sobre o desfiladeiro. Um passeio de barco permite navegar rente aos paredões e ver essas aves de perto.
O parque nacional de Tara, no oeste, protege as matas mais densas do país e abriga ursos-pardos. O mirante de Banjska Stena oferece vista panorâmica do lago Perućac, represado no rio Drina. Bem perto fica Drvengrad, um vilarejo feito inteiramente de madeira pelo cineasta Emir Kusturica para o filme "A Vida É um Milagre", que hoje funciona como um museu a céu aberto.
As Portas de Ferro e o espetacular Danúbio
O parque nacional de Đerdap fica na parte em que o Danúbio corta os Cárpatos, formando o desfiladeiro mais impressionante do rio. A fortaleza de Golubac, cravada em uma rocha na entrada do cânion, vigia a passagem desde o século XIV. Depois de uma restauração recente, é um dos castelos medievais mais bem cuidados da região. O sítio arqueológico de Lepenski Vir, logo ao lado, mostra vestígios de uma civilização com mais de 8.000 anos.
A Sérvia na mesa: fartura e carnes grelhadas
A comida sérvia não combina com quem tem estômago fraco. Os pratos são bem servidos, os temperos são fortes e a carne manda na cozinha. Os ćevapi, pequenos rolinhos de carne moída grelhada, chegam dentro de um pão plano chamado lepinja, acompanhados de cebola crua e kajmak, um creme de leite fermentado bem denso e saboroso. Cada cidade jura ter a receita definitiva.
A pljeskavica, um hambúrguer gigante e bem temperado, disputa o topo das preferências. No inverno, a sarma, charutos de repolho fermentado recheados com carne e arroz, cozinha lentamente nas panelas de família. O ajvar, uma pasta cremosa de pimentão vermelho assado e berinjela, acompanha praticamente tudo. As tabernas tradicionais servem essas delícias em um clima animado, muitas vezes com música ao vivo.
Nos brindes, a rakija é a rainha indiscutível. Essa aguardente de frutas ganha versões de ameixa, marmelo, damasco, uva e mel. Os sérvios costumam fabricar a própria bebida em casa e adoram dividir com os visitantes. O teor alcoólico costuma passar dos 40 graus.
Quando ir para a Sérvia?
A primavera e o outono entregam o clima ideal para turistar. Entre maio e junho, os termômetros ficam na faixa dos 20°C a 25°C, os dias esticam e as calçadas ganham vida com mesinhas ao ar livre. Já setembro e outubro cobrem os parques e parreirais com os tons dourados do outono.
O verão pode castigar pelo calor, principalmente em Belgrado, onde passa facilmente dos 35°C em julho e agosto. Ainda assim, é a época mais agitada, com o festival EXIT em julho e uma agenda cultural cheia. O inverno atrai quem quer esquiar nas pistas de Kopaonik, a principal estação de esqui do país, embora deixe os passeios ao ar livre menos convidativos.
Como ir para a Sérvia?
O aeroporto Nikola Tesla de Belgrado recebe voos diretos de várias capitais europeias. Air Serbia, Air France e easyJet operam rotas frequentes. Quem viaja com passaporte brasileiro não precisa de visto para turismo por até 90 dias, bastando apresentar o passaporte válido. A moeda oficial é o dinar sérvio, mas cartões de crédito são aceitos na maioria dos estabelecimentos urbanos.
Como se deslocar na Sérvia?
Os ônibus conectam bem as principais cidades. As saídas entre Belgrado e Novi Sad acontecem a cada 15 ou 30 minutos e custam cerca de 600 dinares (cerca de 30 reais) para uma viagem de uma hora e meia. Um trem de alta velocidade também liga as duas cidades em menos de sessenta minutos, com mais conforto que o ônibus e preço similar.
Para explorar os mosteiros, cânions e parques nacionais, o carro alugado continua sendo a melhor opção. As rodovias principais estão em bom estado, mas as estradas secundárias exigem atenção, sobretudo nas áreas de serra. Os táxis urbanos cobram tarifas baixas: uma corrida de 10 quilômetros em Belgrado dificilmente passa de 600 dinares (cerca de 30 reais).
O famoso trem Belgrado-Bar, que liga a capital ao litoral de Montenegro, corta paisagens de montanha impressionantes ao longo de mais de 450 quilômetros. A viagem dura cerca de 11 horas e vale como passeio, embora o conforto a bordo seja simples.