Verona, muito mais do que uma sacada e uma história de amor
São 18h na Piazza Bra, e as arquibancadas de pedra rosa ganham tons dourados sob o sol poente. Em poucas horas, 15 mil pessoas vão ocupar este anfiteatro romano para assistir a Aida sob as estrelas.
Vinte séculos separam os gladiadores dos tenores, mas as paredes continuam intactas. Shakespeare escolheu este cenário para o amor impossível de Romeu e Julieta. Milhões de turistas chegam todos os anos para fotografar uma sacada que nem existia antes de 1936. No entanto, a verdadeira essência da cidade está em outro lugar: em suas praças silenciosas, onde os veroneses levam a vida como se os visitantes não estivessem ali.
Uma cidade para quem ama o norte da Itália
Verona agrada a quem quer provar a Itália longe do excesso de turistas de Veneza ou Florença. A cidade pode ser explorada a pé em dois ou três dias, e seu patrimônio atravessa diferentes eras, com vestígios romanos, palácios medievais e igrejas renascentistas. Quem gosta de vinho vai se sentir no paraíso. As colinas da Valpolicella começam a vinte minutos do centro e produzem o Amarone, um dos tintos mais encorpados do país.
Por outro lado, se você busca praias ou agito noturno intenso, melhor escolher outro destino. As noites em Verona se resumem a um spritz na calçada e um jantar sem pressa. Famílias com crianças pequenas aproveitam o ritmo tranquilo e as curtas distâncias entre as atrações, embora haja poucas atividades voltadas especificamente para os menorzinhos.
Um orçamento padrão do norte italiano
Espere gastar de 100 a 180 euros (cerca de 620 a 1.120 reais) por noite em um bom hotel no centro histórico, ou de 60 a 90 euros (cerca de 370 a 560 reais) nos bairros mais afastados. Uma refeição completa em uma trattoria custa entre 25 e 40 euros (cerca de 155 a 250 reais) por pessoa, já com vinho incluído. A entrada na Arena sai por 10 euros (cerca de 62 reais), ou você pode optar pelo Verona Card por 20 euros (cerca de 124 reais), que dá acesso a todos os museus e ao transporte público.
A Arena e a Piazza Bra
A Arena di Verona foi construída no ano 30 depois de Cristo. Terceiro maior anfiteatro romano em tamanho, atrás apenas do Coliseu e do de Cápua, podia receber 30 mil espectadores. Um terremoto em 1117 destruiu o anel externo, do qual restou apenas uma seção conhecida como Ala. O interior permanece preservado e a acústica continua impressionante.
Desde 1913, o Festival lyrique de Vérone realiza óperas ali durante todo o verão europeu, de junho a setembro. Se você não assistir a uma apresentação, vale a pena visitar o interior durante o dia. Suba até as arquibancadas mais altas para ter uma vista panorâmica da cidade e imaginar as lutas de gladiadores que aconteciam ali dois milênios atrás.
Conselho de amigo: reserve seus ingressos online e chegue bem cedo para fugir das filas. Os assentos nas arquibancadas de pedra são rígidos, então vale a pena alugar uma almofada por 2 a 5 euros (cerca de 12 a 31 reais) com os vendedores na entrada.
O centro medieval e suas praças
A Piazza delle Erbe ocupa o espaço do antigo fórum romano. Hoje, uma feira anima o local todas as manhãs sob guarda-sóis coloridos. As fachadas medievais e renascentistas que cercam a praça contam sete séculos de história comercial. É aqui que os moradores locais tomam o aperitivo, longe das mesinhas lotadas da Piazza Bra.
A poucos passos dali, a Piazza dei Signori tem um clima mais solene. A estátua de Dante está em seu centro desde 1865. As Arche Scaligere, túmulos góticos da família que governou a cidade no século XIV, ficam em uma rua logo ao lado. A Torre dei Lamberti, com 84 metros de altura, oferece o melhor mirante para observar os telhados de telhas vermelhas e as curvas do rio Ádige.
A Casa de Julieta e o mito shakespearianos
Vamos ser francos: a Casa di Giulietta é uma atração turística criada artificialmente. A sacada foi adicionada em 1936 para atender às expectativas dos visitantes. A construção do século XIII pertencia à família Dal Cappello, cujo nome lembra levemente os Capuletos de Shakespeare, mas a conexão termina aí.
Ainda assim, o fascínio em torno do mito tem seu lado curioso. Milhares de cartas chegam todos os anos endereçadas a Julieta, e voluntários respondem a todas elas. O pátio tem entrada gratuita e vive lotado. Visitar o interior custa 6 euros (cerca de 37 reais) e dá o direito de pisar na famosa sacada. Se você foge de multidões, melhor passar direto ou chegar bem na hora da abertura.
Margem esquerda do Ádige: Veronetta e os jardins Giusti
O bairro de Veronetta, do outro lado do rio, continua fora do radar da maioria dos turistas. O Ponte Pietra, erguido pelos romanos no ano 100 antes da nossa era, leva até lá. Ele foi dinamitado pelos alemães em 1945, mas os veroneses o reconstruíram pedra por pedra com os blocos resgatados do fundo do rio.
Os jardins Giusti merecem a visita. Esse jardim renascentista do século XVI reúne ciprestes centenários, labirintos de buxo e grutas artificiais. Goethe costumava caminhar por ali em sua passagem pela Itália. O mirante no ponto mais alto oferece uma vista em perspectiva de toda a cidade. A entrada custa 13 euros (cerca de 80 reais), ou 9 euros (cerca de 56 reais) com o Verona Card. Vá durante a semana para caminhar pelas alamedas quase sozinho.
Conselho de amigo: do Castel San Pietro, que pode ser alcançado por um funicular ou por uma escadaria íngreme, a vista da cidade no pôr do sol é imperdível. Os moradores costumam fazer piquenique por lá aos domingos.
Onde comer e beber em Verona?
O risotto all'Amarone é o prato mais tradicional da cidade. O arroz Vialone Nano, cultivado na planície do Pó, absorve o vinho tinto encorpado da Valpolicella e ganha uma cor avermelhada. O sabor é intenso, levemente adocicado, com notas de frutas em calda. Espere pagar de 12 a 20 euros (cerca de 74 a 124 reais) dependendo do restaurante.
Os bigoli, uma massa espessa que lembra um espaguete mais robusto, aparecem frequentemente acompanhados de molho de pato ou anchovas. A pastissada de caval, um cozido de carne cavalar preparado lentamente com vinho e especiarias, existe desde o século V. É um prato que divide opiniões, mas que enche os veroneses de orgulho. A Osteria al Duca o prepara à risca, servido com polenta cremosa.
Para o momento do aperitivo, escolha uma mesa na Piazza delle Erbe por volta das 18h. Um spritz sai por 4 a 6 euros (cerca de 25 a 37 reais) e costuma vir acompanhado de cicchetti, os tradicionais petiscos venezianos. A Gelateria Savoia, aberta desde 1939, serve sorvetes artesanais em frente ao Teatro Filarmonico.
Onde se hospedar em Verona e arredores?
O centro histórico é a melhor opção para uma primeira viagem. Você estará a poucos passos de todas as atrações e poderá aproveitar o movimento das ruelas à noite. Os preços são altos, especialmente durante o festival de ópera ou em feiras de negócios como a Vinitaly em abril.
A região da Cittadella, localizada entre a estação ferroviária e o centro, oferece um bom equilíbrio de custos e localização. Dali, você chega à Piazza Bra em dez minutos de caminhada. O Borgo Trento, do outro lado do Ádige, atrai quem busca mais tranquilidade. As praças arborizadas e a atmosfera residencial contrastam com o burburinho turístico.
Para quem viaja com o orçamento mais restrito, o StraVagante Hostel oferece camas e quartos limpos a partir de 60 euros (cerca de 370 reais). O Hotel Milano & SPA, a 50 metros da Arena, conta com um terraço na cobertura com jacuzzi e vista direta para o anfiteatro. Em alta temporada, reserve com várias semanas de antecedência.
Como chegar e circular em Verona?
O aeroporto Valerio Catullo fica a 11 quilômetros do centro. O ônibus Aerobus leva até a estação Porta Nuova em quinze minutos por 7 euros (cerca de 43 reais). Saindo de Paris, há voos com conexão ou diretos sazonais com duração aproximada de 1h30. O trem costuma ser a alternativa mais prática, já que Verona fica na rota principal Milão-Veneza-Trieste.
Saindo de Milão ou Veneza, a viagem de trem de alta velocidade dura cerca de 1h15. Partindo de Florença, conte com cerca de 1h30. Os trens regionais, mais econômicos, levam cerca de trinta minutos a mais. Uma vez na cidade, tudo é feito a pé, já que o centro histórico é compacto e fechado para carros. Os ônibus urbanos atendem os bairros periféricos caso seja necessário.
Quando ir?
A primavera e o outono trazem as condições ideais, com temperaturas amenas, luz dourada sobre as pedras antigas e menor circulação de pessoas. O verão atrai os fãs de ópera, mas o calor pode ser intenso e os hotéis costumam lotar durante o festival. O inverno agrada a quem busca calmaria, embora alguns pontos turísticos reduzam o horário de funcionamento.
Se Verona é bem conhecida por ser o cenário da história de amor entre Romeu e Julieta, a cidade também é muito bonita. O centro histórico medieval é muito bem preservado. É um verdadeiro prazer caminhar pelas ruelas de paralelepípedos. A cidade também é animada e conta com vários cafés, bares, restaurantes e lojas.