Tóblisi, a capital que carrega suas cicatrizes como medalhas
O cheiro de enxofre te atinge antes mesmo de você entender de onde vem. Em Abanotubani, o bairro dos banhos, cúpulas de tijolo ocre exalam uma névoa espessa que se mistura ao aroma de pão quente grudado nas paredes de um toné, o forno tradicional georgiano. Um grafite cobre a fachada de um prédio cujos balcões de madeira se inclinam para a rua.
Essa mistura crua de beleza e decadência é a verdadeira alma da capital georgiana. Destruída 26 vezes ao longo de sua história, a cidade se recusa a passar por uma maquiagem artificial para agradar.
Uma destination feita para você?
Tóblisi atrai um público bem amplo, mas não agrada a todo mundo. É uma cidade para ser explorada a pé, com ruas de paralelepípedos em subidas íngremes, calçadas muitas vezes esburacadas e um trânsito caótico. O conforto sai por um preço acessível, mas a infraestrutura ainda é a de um país pós-soviético em plena transformação.
Destino adequado para:
- Amantes de gastronomia e vinho com ótimo custo-benefício
- Viajantes curiosos por história e arquitetura cheia de contrastes
- Mochileiros e nômades digitais em busca de preços baixos
- Casais que procuram um roteiro original longe das multidões
- Fãs de arte urbana e cultura underground
Destino inadequado para:
- Viajantes com mobilidade reduzida: as ladeiras são íngremes e as calçadas são irregulares
- Quem procura praias ou resort à beira-mar
- Pessoas sensíveis ao calor intenso de julho e agosto
- Viajantes estritamente veganos: a culinária gira em torno de queijo, pão e carne
Um orçamento mínimo, bem mínimo
Esse é um dos grandes atrativos de Tóblisi: a cidade foi eleita a destination europeia mais acessível para uma viagem curta. O lari georgiano joga a favor do real, e os preços continuam muito baixos em comparação com a Europa Ocidental.
| Tipo de gasto | Faixa de preço |
|---|---|
| Noite em hostel, quarto compartilhado | 7 a 18 € (cerca de 45 a 115 reais) |
| Noite em hotel confortável, quarto duplo | 35 a 70 € (cerca de 225 a 450 reais) |
| Lanche rápido: khachapuri, khinkali de rua | 3 a 7 € (cerca de 20 a 45 reais) |
| Refeição em restaurante | 10 a 25 € (cerca de 65 a 160 reais) |
| Transporte e passeios para um dia | 5 a 15 € (cerca de 30 a 95 reais) |
| Orçamento diário mochileiro | 15 a 35 € (cerca de 95 a 225 reais) |
| Orçamento diário confortável | 55 a 100 € (cerca de 355 a 645 reais) |
Circular, se comunicar e se adaptar
A cidade é ótima para ser explorada a pé na parte histórica, mas prepare calçados firmes: os paralelepípedos são traiçoeiros e as subidas rumo a Narikala ou Sololaki exigem fôlego. O metrô custa 1 GEL por viagem, o equivalente a cerca de 0,35 € (cerca de 2 reais). Os aplicativos Bolt e Yandex Go funcionam perfeitamente para deslocamentos mais longos.
O alfabeto georgiano parece indescifrável à primeira vista, mas tudo vem acompanhado de letras latinas. Os jovens falam inglês com cada vez mais frequência nas áreas turísticas. Algumas palavras em georgiano ajudam a quebrar o gelo: gamarjoba para olá, madloba para obrigado.
É perigoso viajar para a Geórgia?
Não. A Geórgia está entre os trinta e cinco países mais seguros do mundo segundo o Gallup Law and Order Index. Os riscos se resumem a golpes em táxis e pequenos furtos de carteira em locais muito cheios. O verdadeiro perigo é o trânsito, pois os motoristas raramente respeitam a faixa de pedestres.
Mulheres viajando sozinhas costumam se sentir seguras. Alguns casos de olhares insistentes foram relatados à noite em áreas boêmias, mas as precauções habituais resolvem: prefira o Bolt em vez de pegar táxis na rua e nunca tire os olhos do seu copo nos bares. O número de emergência universal é o 112.
A cidade velha e Abanotubani: o coração pulsante
É aqui que a maioria dos visitantes passa as primeiras horas. As ruelas de paralelepípedos da velha Tóblisi reúnem fachadas antigas, balcões de madeira esculpida e bares de vinho modernos. A rua Shardeni concentra o movimento turístico, mas os restaurantes ali costumam ser medianos, com cardápios repetitivos de comida georgiana a preços inflacionados.
Descendo em direção ao rio Kura, o bairro de Abanotubani e suas casas de banho sulfurosas merecem uma visita sem pressa. Foram essas fontes termais que deram nome à cidade, já que "tbili" significa "quente" em georgiano.
Dica de amigo: suba até a fortaleza de Narikala a pé pela trilha que contorna o bairro de Sololaki em vez de ir de teleférico. A caminhada de vinte minutos revela ótimos ângulos das duas margens do rio. Vá uma hora antes do pôr do sol.
Rustaveli e Vera: a outra face da cidade
A avenida Rustaveli funciona como a versão georgiana de uma grande alameda europeia, larga e repleta de teatros, museus e prédios neoclássicos. O garimpo de brechós ali é excelente. O Metro Vintage, escondido embaixo de um hotel, vende peças de segunda mão a 10 GEL (cerca de 22 reais).
Logo atrás, o bairro residencial de Vera conquistou expatriados e nômades digitais. Há cafeterias aconchegantes, mercadinhos de bairro onde os vegetais têm sabor de verdade e um padeiro que assa pão em um forno subterrâneo. Acreditamos de verdade que é nesses cantinhos, longe dos grupos de turistas, que Tóblisi mostra sua melhor face.
Fabrika e a cena alternativa de Tóblisi
A antiga fábrica de costura soviética Fabrika, transformada em hostel, espaço de coworking e polo criativo, simboliza a renovação da cidade. À noite, o pátio interno vira um ponto de encontro onde locais e viajantes se reúnem para beber cerveja artesanal.
Para quem gosta de arquitetura brutalista, o prédio do Banco da Geórgia se destaca com seus blocos empilhados como peças gigantes. Mais adiante, o monumento das Crônicas da Geórgia, espécie de Stonehenge georgiano no alto de um morro com vista para a represa conhecida como mar de Tóblisi, rende fotos marcantes.
Dica de amigo: não vá embora de Tóblisi sem caminhar até a pequena cachoeira escondida nos fundos do jardim botânico. A tradição local diz que sacudir as correntes de ferro presas à rocha três vezes garante o seu retorno à Geórgia.
Mtatsminda e os mirantes
O funicular de Mtatsminda, em funcionamento desde 1938, leva os passageiros até o topo de uma colina onde funciona um parque de diversões de estilo soviético. O principal motivo da subida é a vista panorâmica de toda a capital. Os frequentadores recomendam pedir ponchiki, sonhos recheados com creme, assim que chegam lá em cima.
Onde comer e beber em Tóblisi?
A culinária georgiana surpreende. As refeições giram em torno de pratos marcantes como o khachapuri, um pão recheado com queijo derretido cuja versão ajara tem formato de barca com gema de ovo e manteiga, e os khinkali, grandes pastéis cozidos em formato de bolsinha que devem ser comidos com as mãos.
Dica de amigo: nunca corte um khinkali com faca. Segure-o pelo topo, morda a massa com cuidado, sugue o caldo quente e depois coma o restante. A massinha do topo fica no prato para ajudar a contar quantos você conseguiu comer.
Os pkhali, pastas de vegetais com nozes, o lobio, ensopado de feijão, e o badrijani, berinjelas com pasta de nozes, completam a mesa. Na hora de escolher onde sentar, fuja dos restaurantes da rua Shardeni e procure as tavernas de bairro. O Racha, um restaurante familiar subterrâneo perto da praça da Liberdade, serve comida farta e caseira a preços muito baixos. A Geórgia também se orgulha de ser o berço da viticultura, com uma tradição de oito mil anos: prove os vinhos âmbar fermentados em qvevri, grandes ânforas de argila enterradas no solo.
Onde se hospedar em Tóblisi e arredores?
Para uma primeira viagem, ficar na velha Tóblisi ou em Sololaki deixa as principais atrações a uma curta caminhada. O Fabrika Hostel é a referência para quem viaja sozinho, com quartos coletivos e um ambiente bastante animado. O Envoy Hostel, com seu terraço voltado para a fortaleza, é outra escolha certeira.
O bairro de Vera atende melhor quem busca estadias mais longas ou prefere tranquilidade, oferecendo apartamentos com varanda por valores justos. Para uma experiência hoteleira sofisticada, o Stamba Hotel ocupa uma antiga gráfica soviética com muito estilo.
Como chegar a Tóblisi?
Partindo da França, a Air France e a Georgian Airways operam voos diretos de Paris-CDG três a quatro vezes por semana. A Transavia também oferece rotas a partir de Paris-Orly. O voo dura cerca de 4h45 e as passagens de ida e volta custam entre 200 e 400 € (cerca de 1.280 a 2.580 reais) conforme a temporada.
Como alternativas mais em conta, a Pegasus Airlines e a Turkish Airlines fazem escala em Istambul, com tarifas a partir de 150 € (cerca de 965 reais) para a ida e volta. O aeroporto de Tóblisi fica a 17 km do centro: uma corrida de Bolt sai por volta de 10 € (cerca de 65 reais), enquanto o ônibus da linha 37 custa quase nada.
Como se deslocar em Tóblisi?
O centro pode ser percorrido a pé sem grandes dificuldades, apesar dos desníveis. O metrô custa 1 GEL por viagem com o cartão recarregável MetroMoney. O teleférico até Narikala e o funicular até Mtatsminda complementam o transporte gastando poucos laris.
Os aplicativos Bolt e Yandex Go funcionam bem e cobram pouco, com corridas urbanas que raramente passam de 2 a 3 € (cerca de 13 a 20 reais). Evite pegar táxis sem aplicativo, sobretudo no aeroporto. O estilo de direção local é agressivo, por isso pense bem antes de alugar um carro para explorar o interior do país.
Quando ir?
A primavera, de abril a junho, e o outono, de setembro a outubro, são as melhores épocas. As temperaturas ficam entre 20 e 25 °C e a luz do sol é belíssima. O outono coincide com a época da colheita das uvas e com o festival Tbilisoba, que toma conta da cidade com celebrações de rua. É melhor evitar julho e agosto se você não gosta de calor forte, pois os termômetros ultrapassam com frequência os 33 °C.
Tbilissi é uma cidade de escala humana, e suas dimensões tornam a visita muito agradável. Para uma estadia de alguns dias, não perca:
- a parte alta da cidade e sua vista imperdível do vale (menção honrosa à Qartlis Deda, imponente estátua de mulher que é o símbolo da Geórgia),
- os banhos que deram origem à fundação da cidade (uma pequena cachoeira e um cânion ficam escondidos bem no coração da cidade...),
- procurar um lugar de urbex (a Geórgia está cheia deles, assim como de vestígios da URSS),
- a visita ao Chronicle of Georgia, um monumento espetacular que relembra a história da Geórgia,
- visitar o museu nacional georgiano, para ter uma ideia da rica história do país,
- comer khachapuri e khinkali,
- visitar a igreja de Metekhi, uma das mais antigas da Geórgia...
Eu adorei pessoalmente visitar esta cidade e descobrir sua riqueza cultural, cujo tamanho também agrada quem (como eu) não gosta muito de grandes metrópoles!