Hachioji, a outra face de Tóquio
São 6h30 da manhã na estação Takaosanguchi. Os primeiros trilheiros descem do trem, com garrafas térmicas de chá verde nas mãos, prontos para subir as encostas do monte Takao antes que a multidão chegue. Em poucas horas, essa montanha sagrada onde ascetas ainda meditam receberá milhares de toquioenses em busca de área verde. Bem-vindo a Hachioji, uma cidade de 550.000 habitantes que os guias de viagem frequentemente ignoram, preferindo reduzi-la a um mero ponto de partida para uma caminhada.
É um destino para você?
Vamos direto ao ponto. Se você procura os néons de Shinjuku ou a agitação de Shibuya, siga seu rumo. Hachioji é voltada para viajantes que querem respirar, caminhar, comer pratos locais e descobrir um Japão menos produzido. A cidade atrai caminhantes de todos os níveis com as trilhas acessíveis do monte Takao, mas também entusiastas da história devido às ruínas de seu castelo feudal e ao seu passado como capital da seda.
Essa antiga cidade-parada na rota Kōshū Kaidō ainda mantém um bairro de gueixas ativo, algo raro no Japão. Por outro lado, se você tem apenas um dia em Tóquio e ainda não viu os grandes clássicos, deixe Hachioji para uma próxima viagem. A cidade merece um dia inteiro dedicado a ela, ou até dois para os mais curiosos.
Um orçamento camarada para a região metropolitana de Tóquio
Espere gastar entre 3.000 e 5.000 ienes por dia (cerca de 115 a 195 reais) sem contar a hospedagem. O trem saindo de Shinjuku custa 430 ienes (cerca de 17 reais), o funicular do monte Takao sai por 930 ienes (cerca de 36 reais) ida e volta, e uma tigela de Hachioji ramen gira em torno de 900 ienes (cerca de 35 reais). A hospedagem continua mais barata que no centro de Tóquio, com quartos de hotel a partir de 7.000 ienes (cerca de 270 reais).
O monte Takao, a montanha dos espíritos
Com seus 599 metros de altitude e três estrelas no Guia Michelin, o monte Takao atrai quase três milhões de visitantes todos os anos. Esse número pode assustar, mas não desanime. O segredo está no horário e na escolha da trilha.
A maioria dos visitantes escolhe a trilha número 1, larga e pavimentada, que passa por todos os pontos de interesse. Resultado: filas garantidas no fim de semana. Prefira as trilhas 3 ou 6, menos movimentadas e mais imersivas. A trilha 6 margeia um riacho onde você pisa em pedras de travessia, o que traz um frescor bem-vindo no verão. A trilha 4 oferece uma ponte suspensa e florestas de katsura, cujas folhas exalam um aroma que lembra caramelo no outono.
Dica de amigo: O passe Mt. Takao Discount Ticket da linha Keio combina trem, funicular e desconto no onsen por 1.690 ienes (cerca de 65 reais). Vale a pena se você for usar os três.
Na altura intermediária fica o templo Yakuō-in, fundado em 744 por ordem do imperador Shōmu. Esse templo budista da escola Shingon mistura elementos budistas e xintoístas em uma arquitetura de cores vivas que contrasta com a sobriedade comum dos templos japoneses. Por toda parte, estátuas de tengu montam guarda. Essas criaturas míticas de nariz longo ou bico de corvo protegem a montanha há séculos. Os fiéis vêm rezar por sucesso em exames ou cura de doenças.
O castelo desaparecido e a cidade da seda
Hachioji deve seu nome ao castelo de Hachioji, uma fortaleza construída entre 1582 e 1587 pelo clã Hōjō. A história do lugar é trágica. Em 1590, as tropas de Toyotomi Hideyoshi tomaram a cidadela de assalto. Mulheres e crianças que se abrigaram na torre principal pularam na cachoeira vizinha em vez de se renderem. A lenda diz que as águas permaneceram vermelhas por três dias.
Consideradas um dos 100 castelos mais bonitos do Japão, essas ruínas valem a visita pela atmosfera singular. As muralhas de pedra e o portão restaurado dão uma ideia da grandiosidade antiga da fortaleza. Conte com uma hora de caminhada para chegar ao topo onde fica o santuário Hachiōji Gongen.
Após a queda do castelo, Hachioji se transformou em um polo de produção de seda. A cidade era chamada de Sōto, a "cidade da amoreira", já que as folhas dessas árvores alimentavam os bicho-da-seda. Essa indústria prosperou até o início do século XX, com a seda bruta sendo enviada para o porto de Yokohama para exportação. A trilha Kinu no Michi, antiga rota dos comerciantes de seda, ainda pode ser percorrida a pé pela floresta.
Para fechar o dia com chave de ouro
É impossível deixar Hachioji sem provar o Hachioji ramen. Essa especialidade local criada em 1959 se destaca por três elementos: um caldo à base de molho de soja, uma camada de banha de porco na superfície e, acima de tudo, uma porção generosa de cebolas picadas fininho. A gordura abranda a picância das cebolas cruas e revela sua doçura natural. O restaurante Goemon, perto da estação Nishi-Hachioji, atrai filas por um bom motivo.
Depois da trilha, siga para o Keio Takaosan Onsen Gokurakuyu, uma fonte termal ligada diretamente à estação Takaosanguchi. A água captada a 1.000 metros de profundidade abastece banhos internos e externos. O banho gaseificado deixa bolhas microscópicas na pele, uma sensação curiosa e agradável. Evite os fins de semana se puder, pois o movimento pode atrapalhar a experiência. A entrada custa 1.000 ienes (cerca de 38 reais) nos dias úteis e 1.200 ienes (cerca de 46 reais) aos finais de semana.
Onde comer e beber em Hachioji?
A cena gastronômica de Hachioji gira em torno de produtos locais. A região cultiva vegetais renomados, especialmente a bardana, presente em vários pratos. Nas encostas do monte Takao, as barraquinhas servem soba com tororo, macarrão de sarraceno acompanhado de inhame ralado, um prato pensado para devolver energia aos caminhantes.
Para ramen, teste o Binbintei perto da estação JR ou o restaurante Takao no Sakura no shopping iias Takao. Os tenguyaki, pequenos bolinhos recheados com pasta de feijão doce em formato de máscara de tengu, funcionam como um ótimo lanche durante a subida. No fim do dia, a área ao redor da estação de Hachioji oferece izakayas para saborear o peixe ayu grelhado no espeto, uma especialidade do vale do rio Akigawa ali perto.
Onde ficar em Hachioji e arredores?
Duas opções principais dependem do seu roteiro. Se quiser ficar aos pés do monte Takao para sair cedo, o Takao Forest Hotel oferece atividades como cerâmica e trilhas guiadas. Para mais praticidade e opções variadas de restaurantes, hospede-se perto da estação central de Hachioji. O Keio Plaza Hotel Hachioji traz o conforto de uma grande rede, enquanto o APA Hotel Hachioji-eki Kita continua econômico e funcional.
Cerca de vinte estabelecimentos dividem espaço na cidade, indo de business hotels a ryokans mais tradicionais. Os preços costumam ser de 20% a 30% mais baixos do que no centro de Tóquio para um nível equivalente de conforto.
Como chegar e circular em Hachioji?
Saindo de Shinjuku, a linha Keio chega à estação Takaosanguchi em 50 minutos por 430 ienes (cerca de 17 reais). É um trem direto e prático. Se você tiver o passe JR Pass, pegue a linha JR Chuo até a estação Takao (coberta pelo passe) e mude para a linha Keio até Takaosanguchi. A estação central de Hachioji fica na linha JR Chuo, a 35 minutos de Shinjuku em um trem expresso.
A partir dos aeroportos, reserve cerca de duas horas de viagem saindo de Narita via Tóquio e Shinjuku. Saindo de Haneda, uma hora e meia basta combinando a linha Keikyu e depois a linha Keio. Uma vez na cidade, os ônibus atendem pontos distantes como as ruínas do castelo. O monte Takao é explorado a pé, mas o funicular e o teleférico ajudam a poupar energia.
Quando ir?
A primavera e o outono oferecem as melhores condições. As cerejeiras do monte Takao florescem duas semanas depois das do centro de Tóquio, geralmente em meados de abril. Em novembro, os bordos e ginkgos ganham tons de vermelho e dourado, atraindo multidões. Se você aguenta o calor, o começo de agosto coincide com o festival de Hachioji: 19 carros alegóricos da era Edo, danças de gueixas e 250 barracas de comida ocupam as ruas por três dias. Evite os finais de semana de novembro se não gosta de aglomeração, pois o monte Takao vira um dos pontos mais disputados da região para observar o momiji.
Uma cidadezinha bem graciosa na região metropolitana de Tóquio. É muito fácil de acessar (dá para ir com a linha de trem Chuo, então zero dor de cabeça nesse aspecto). Achei que tem um clima calmo, bem autêntico. A atração principal é, com certeza, o Monte Takao (que eu recomendo). Mas também tem várias atrações de qualidade como o museu de arte, o castelo, os parques...