Verdun, a cidade que a história ainda tem muito a contar
Em 10 de novembro de 1920, um trem partiu da estação de Verdun em direção a Paris. A bordo, havia um caixão sem nome: o Soldado Desconhecido, escolhido entre oito corpos não identificados nas galerias da Citadelle souterraine. Pouca gente sabe que ele partiu daqui, de uma pequena estação na região da Lorena projetada por Gustave Eiffel em 1868.
Verdun carrega esse tipo de história em cada uma de suas pedras, mas não se resume ao seu passado militar. Os calçadões às margens do rio Meuse, os confeitos de amêndoa fabricados desde 1783 e os vinhedos das Côtes de Meuse mostram que a vida continua por aqui, de forma obstinada, bem acima das antigas trincheiras.
Um destino que não deixa ninguém indiferente
Vamos direto ao ponto. Verdun é, antes de tudo, um lugar de memória. Se a Primeira Guerra Mundial não desperta o seu interesse, grande parte da visita vai perder o sentido.
Para quem é apaixonado por história, famílias que buscam transmitir conhecimento ou viajantes em busca de significado, esta é uma parada marcante. O Ossuaire de Douaumont, reconhecido como patrimônio mundial da UNESCO desde 2023, raramente deixa alguém indiferente.
Além da memória, a floresta domenial que cobre os antigos campos de batalha recebeu o selo de proteção ambiental da França. Os ciclistas aproveitam a EuroVélo 19 ao longo do rio Meuse. Mas, se você procura uma cidade agitada à noite, Verdun não é a escolha ideal: são apenas 18.000 habitantes, em um ambiente calmo e discreto.
Famílias bem-vindas, agasalhem-se bem
O centro da cidade é compacto e pode ser percorrido a pé em meia jornada. A Citadelle souterraine oferece um passeio em cabines com óculos de realidade aumentada que fascina as crianças, mas atenção: faz cerca de 8°C nas galerias subterrâneas, mesmo no auge do verão.
Um orçamento bastante acessível para a região do Grande Leste
Espere gastar de 50 a 80 EUR (cerca de 315 a 500 reais) por noite em um hotel decente, de 12 a 20 EUR (cerca de 75 a 125 reais) por uma refeição, e entre 5 e 10 EUR (cerca de 30 a 60 reais) por local visitado. O tour guiado de ônibus pelos campos de batalha sai por 29 EUR (cerca de 180 reais) por adulto.
Os campos de batalha: o coração da experiência
Foram 300 dias de combate em 1916. Foram 300.000 mortos franceses e alemães em menos de 20 km². Nenhum livro torna essa realidade tão palpável quanto a visita aos locais.
O Ossuário de Douaumont e a necrópole
A construção de 137 metros de comprimento abriga os restos mortais de 130.000 soldados franceses e alemães não identificados, distribuídos em 46 túmulos de granito. Pelas janelas externas, é possível avistar os montes de ossos. É um cenário impressionante.
Em frente ao ossuário, a necrópole nacional alinha 16.142 túmulos na encosta. O acesso ao claustro é gratuito, mas a subida até a torre e a exibição do filme são pagas. Foi aqui que François Mitterrand e Helmut Kohl apertaram as mãos em 1984, um gesto que se tornou o símbolo da reconciliação franco-alemã.
Dica de amigo: venha cedo pela manhã ou no fim da tarde para fugir dos grupos escolares. Em julho e agosto, os refletores no topo da torre varrem o campo de batalha quando cai a noite. O efeito é marcante.
Os fortes e a Trinchéia dos Baionetas
O Fort de Douaumont, o mais poderoso do cinturão fortificado, pode ser explorado por meio de suas galerias subterrâneas. O Fort de Vaux conta a história de um cerco desesperado. Lembre-se de calçar sapatos firmes, pois os túneis são úmidos e escorregadios.
A Tranchée des Baïonnettes exibe fuzis que emergem do solo, vestígios de soldados soterrados vivos. Fleury-devant-Douaumont, tomado e retomado 16 vezes em dois meses, faz parte da lista de vilarejos mortos pela pátria: tem um prefeito e zero habitantes. Permaneça nas trilhas sinalizadas, já que munições não detonadas ainda podem ser encontradas no solo.
A cidade de Verdun: além da guerra
O Mémorial de Verdun, reformado em 2016 para o centenário, é o melhor ponto de partida para compreender a batalha. Seus três andares misturam objetos de época, depoimentos e reconstituições imersivas. Na minha opinião, é o museu mais bem estruturado do local.
Na cidade, o Centre Mondial de la Paix ocupa o antigo palácio episcopal do século XVIII. A cathédrale Notre-Dame, uma das mais antigas da França, vale a pena a visita. Ao longo do canal do Puty, as torres medievais da Porte Chaussée se refletem na água.
O espetáculo "Des Flammes à la Lumière"
De junho até o final de julho, um espetáculo de som e luz ao ar livre reúne centenas de figurantes voluntários para recontar a vida dos soldados e civis durante a Grande Guerra. Faça suas reservas com antecedência.
Onde comer e beber em Verdun?
A especialidade emblemática de Verdun são os confeitos de amêndoa conhecidos como dragées. Essas amêndoas cobertas de açúcar são produzidas aqui desde 1783 pela maison Braquier, que pode ser visitada com audioguia. A tradição remonta à coroação do rei Henrique III.
No quesito gastronômico, a culinária da Lorena domina os cardápios: quiche lorraine, embutidos fuseaux lorrains, o cozido potée meusienne e a mirabelle (uma ameixa local) servida em tortas, aguardente ou cerveja artesanal. As Côtes de Meuse, um pequeno vinhedo de produção restrita, produzem vinhos brancos e cinzas que surpreendem. Não deixe de levar também a confiture de groseilles épépinées à la plume d'oie, uma geleia de groselha sem caroço extraídos um a um com pena de ganso, especialidade de Bar-le-Duc que o escritor Victor Hugo adorava.
Le Clapier, bem no centro, é uma escolha certeira para saborear pratos tradicionais. Nos arredores do campo de batalha, o restaurante L'Abri des Pèlerins, em Douaumont, é a única opção gastronômica bem no coração do sítio comemorativo.
Onde dormir em Verdun e arredores?
O centro da cidade continua sendo a melhor opção para uma estadia prática. Para quem busca um ambiente carregado de história, o hotel quatro estrelas Jardins du Mess, instalado no antigo cassino dos oficiais às margens do rio Meuse, oferece espaço de bem-estar e restaurante gastronômico.
A 30 minutos de distância, o château d'Hattonchâtel proporciona um cenário espetacular com vista para a planície da Woëvre. Os entusiastas da natureza podem seguir direto para o Lac de Madine, situado no coração do Parque Natural Regional da Lorena.
Como chegar e se locomover em Verdun?
A estação ferroviária Meuse TGV, construída com madeira da região, fica a 25 km de distância. É possível chegar de Paris-Est em 1h e de Strasbourg em 1h10. Ônibus de traslado sincronizados com os horários dos trens conectam a estação TGV a Verdun em 30 minutos.
De carro, são 2h45 de viagem saindo de Paris pela rodovia A4, 1h20 de Reims e 1h10 de Nancy. Para explorar os campos de batalha, um carro é praticamente indispensável, pois os locais estão espalhados pela floresta sem contar com transporte público regular. É possível alugar veículos diretamente na estação Meuse TGV.
Quando ir?
O período ideal vai de abril a outubro. O espetáculo "Des Flammes à la Lumière" acontece de junho até o final de julho, e as cerimônias do 11 de novembro marcam um momento de grande solenidade. O inverno costuma ser rigoroso e alguns locais fecham as portas de janeiro a fevereiro.
Verdun é uma cidade bonita onde é muito agradável caminhar pelos cais de Londres. É também uma cidade com uma forte história ligada à guerra. Eu recomendo visitar a cidadela, assim como os diferentes fortes ao redor, principalmente o forte de Douaumont. O museu recentemente reformado é muito interessante também.