Azerbaijão, quando o fogo queima sob a modernidade
O solo do Azerbaijão queima. Literalmente. Chamas de gás natural irrompem da terra há milênios na península de Abchéron, berço do zoroastrismo, a religião fascinada pelo fogo. Hoje, são as Flame Towers de Baku que incendeiam o céu noturno, arranha-céus cobertos de LED cujos reflexos dançam sobre o mar Cáspio.
O país mais rico do Cáucaso graças ao petróleo, antiga terra persa de língua turca moldada pelo período soviético, não se parece com nada conhecido. É exatamente isso que torna a viagem tão marcante.
Uma viagem fascinante, mas leia isto antes de reservar
Este país atrai os viajantes curiosos, aqueles que se entediam com destinos padronizados. Amantes de arquitetura, de trilha no Grande Cáucaso, de culinária turco-persa e da história da Rota da Seda encontram aqui material suficiente para uma ou duas semanas sem cair na rotina.
A capital por si só une um centro histórico protegido pela UNESCO, edifícios futuristas desenhados por Zaha Hadid e uma cena gastronômica rica. Fora de Baku, as vilas de montanha parecem congeladas em outro século.
Por outro lado, quem busca praias paradisíacas vai se decepcionar, pois a costa do Cáspio não tem nada de tropical. Viajantes que dependem de uma infraestrutura turística impecável também devem ajustar as expectativas fora de Baku, onde o inglês é escasso e as estradas podem ser desafiadoras. É um destino para aventureiros organizados, não para quem prefere improvisar tudo de última hora.
Alerta de segurança para viajantes do Brasil
Quem viaja com passaporte brasileiro deve consultar as recomendações atualizadas do Itamaraty antes de planejar a viagem para o Azerbaijão. O país exige atenção quanto a certas restrições locais, e as normas consulares devem ser verificadas com antecedência. (Quem viaja com outra nacionalidade confere as regras do próprio passaporte).
A diplomacia na região exige cautela. Se decidir visitar o país, evite qualquer conversa sobre política, abstenha-se de fotografar edifícios oficiais ou instalações militares e mantenha os contatos da embaixada brasileira à mão.
Conselho de amigo: as zonas de fronteira com a Armênia e a região de Nagorno-Karabakh são estritamente desaconselhadas devido à presença de minas terrestres. As fronteiras terrestres do país permanecem fechadas para entrada, o que significa que só é possível entrar no Azerbaijão por via aérea.
Mulheres viajando sozinhas no Azerbaijão
O Azerbaijão é um país muçulmano laico, com uma sociedade consideravelmente mais aberta do que a de vizinhos como o Irã. As mulheres não têm nenhuma obrigação de vestir trajes específicos nas ruas. Baku, com seu perfil cosmopolita, é muito segura nesse aspecto. Nas zonas rurais, a mentalidade é mais conservadora, sendo prudente adotar roupas discretas, sem necessidade de cobrir a cabeça. A criminalidade é muito baixa em todo o território.
Um orçamento surpreendentemente acessível
Espere gastar cerca de 30 a 50 euros por dia (cerca de 185 a 310 reais) no estilo mochileiro, e entre 60 e 90 euros (cerca de 370 a 550 reais) para um padrão intermediário. Uma refeição completa em um restaurante local custa de 5 a 8 euros (cerca de 30 a 50 reais), uma diária em pousada local sai por 15 a 30 euros (cerca de 90 a 185 reais), e uma passagem de ônibus interurbano raramente passa de 5 euros (cerca de 30 reais). Baku é a cidade mais cara do país, mas o restante do Azerbaijão pratica preços bastante convidativos.
Baku, a capital de mil faces
É difícil encontrar uma capital tão dual. O coração histórico, Icheri Sheher, é uma cidadela fortificada tombada como patrimônio mundial. Suas ruas de pedra abrigam a Torre da Donzela, o Palácio dos Shirvanshahs, do século XV, e antigos caravançarais transformados em restaurantes de tapetes. O ritmo ali convida a caminhar sem pressa e a saborear um chá preto servido em um copo em formato de pera.
Algumas ruas adiante, o contraste impressiona. O Centro Heydar Aliyev, obra de Zaha Hadid, desenha curvas brancas que lembram uma espaçonave pousada na cidade. O Museu do Tapete, instalado em um edifício moldado como um tapete enrolado, exibe uma tradição artesanal reconhecida pela UNESCO. O Boulevard de Baku, um calçadão com vários quilômetros de extensão à beira do Cáspio, oferece o ângulo perfeito para observar as Flame Towers ao entardecer.
Excursões a partir de Baku
A península de Abchéron concentra as atrações mais peculiares do país. O templo de Ateshgah, antigo local de culto zoroastrista alimentado por chamas de gás natural, pode ser visitado em cerca de uma hora em Surakhany. Yanar Dag, a "montanha que queima", é uma encosta em combustão perpétua. O efeito é mais marcante à noite, embora a chama seja mais modesta do que a imaginação sugere.
A 50 minutos ao sul, a reserva de Gobustan reúne mais de 6.000 petróglifos com 40.000 anos de história e vulcões de lama em atividade. É a viagem de meio período mais procurada a partir da capital. Recomenda-se contratar um tour guiado, pois localizar os vulcões por conta própria é difícil e as estradas não são sinalizadas.
A rota do Cáucaso: Sheki e seu encanto inconfundível
Sheki é considerada por quase todos os viajantes o desvio mais bonito do Azerbaijão. Essa antiga parada da Rota da Seda, protegida pela UNESCO, fica espremida aos pés do Grande Caucase, a cerca de 5 horas de ônibus de Baku. Seu Palácio dos Khans de Sheki, construído em 1797, é uma obra-prima em miniatura. As janelas em shebeke, vitrais geométricos montados sem pregos ou cola com milhares de fragmentos de vidro colorido, projetam fachos de luz colorida sobre os afrescos internos.
A cidade ainda vive de seu artesanato. Oficinas de seda continuam operando no centro histórico, e o antigo caravançarai do século XVIII funciona hoje como um hotel onde é possível se hospedar por cerca de 50 AZN (cerca de 155 reais) a diária. O bazar local transborda de pakhlava de Sheki, mais delicada e perfumada do que a versão de Baku, além de halva artesanal.
Conselho de amigo: entre Baku e Sheki, pare em Shamakhi para conhecer sua mesquita Juma e siga rumo ao vilarejo de Lahij, um burgo medieval empoleirado a 1.375 metros de altitude, onde artífices do cobre martelam panelas e utensílios o dia todo em oficinas abertas para a rua. A estrada de acesso beira precipícios vertiginosos: espetacular com tempo firme, mas intransitável sob chuva forte.
Vilarejos de alta montanha: Khinalig e os picos do Cáucaso
Partindo de Quba, a duas horas de ônibus ao norte de Baku, uma estrada sinuosa sobe por três horas até Khinalig, um dos vilarejos habitados mais antigos e elevados do Cáucaso, situado a 2.200 metros de altitude. Seus 2.000 moradores falam um idioma próprio, o khinalug, sem parentesco com nenhuma outra língua. O isolamento geográfico preservou tradições pastorais quase intocadas.
As casas de pedra escalonam-se na encosta da montanha em frente a um horizonte de picos nevados. Pousadas locais oferecem cama e refeição por cerca de 20 manats (cerca de 65 reais). A trilha até o vilarejo vizinho de Laza, debruçado sobre cachoeiras, constitui uma das caminhadas mais gratificantes de todo o Cáucaso. Planeje essa incursão entre junho e setembro, pois no restante do ano a neve bloqueia o acesso.
A própria Quba merece uma pausa. Sua área urbana abriga Krasnaya Sloboda, a única cidade exclusivamente judaica fora de Israel, habitada pelos chamados Judeus das Montanhas. Um museu local documenta sua trajetória única. A região também é famosa por seus tapetes e pomares de maçã.
Ganja, Gabala e o sul: o Azerbaijão fora do radar
Ganja
Ganja, a segunda maior cidade do país, exibe um ritmo mais pacato e marcos históricos ligados ao poeta Nizami Gandjavi, figura central da literatura persa. A cidade serve como base estratégica para visitar o lago Göygöl, um espelho d'água de tom azul-profundo cercado por florestas, a cerca de 30 quilômetros. Poucos turistas estrangeiros chegam até lá.
Gabala
Gabala, mais ao norte, atrai famílias azerbaijanas com suas quedas d'água, o teleférico de Tufandag e florestas densas. No inverno, as estações de esqui de Tufandag e Shahdag permitem esquiar no Cáucaso por um passe diário de cerca de 25 a 35 AZN (cerca de 80 a 110 reais). A temporada é curta, de meados de dezembro ao final de fevereiro, mas as pistas costumam estar vazias.
O sul do Azerbaijão
No extremo sul, Lankaran e a costa subtropical encostam na fronteira com o Irã. O Parque Nacional de Hirkan protege florestas reliquiares da era terciária e uma fauna rara, incluindo o leopardo-do-cáucaso. A área recebe poucos visitantes estrangeiros, garantindo uma autêntica sensação de exploração.
O Azerbaijão no prato: sabores persas, sotaques turcos e fartura caucasiana
A culinária azerbaijana é uma das grandes revelações da viagem. O prato nacional, o plov, consiste em arroz com açafrão guarnecido de frutas secas, castanhas e carne, cozido lentamente sob uma crosta dourada na versão de gala chamada shah plov. Trata-se de uma preparação festiva, servida nos restaurantes tradicionais com um cerimonial que vale a pena conferir.
Os qutab, panfinhas recheadas com carne moída ou ervas frescas, são vendidos em toda parte por valores simbólicos. O piti, ensopado de cordeiro e grão-de-bico cozido em panela de barro individual, funciona como a refeição reconfortante das montanhas. Em Sheki, peça um piti de Sheki em um dos restaurantes do bazar, pois a receita local difere levemente da de Baku e o ambiente eleva a experiência.
O chá preto, servido em copos armudu em forma de pera acompanhado de geleia ou cubos de açúcar, pontua cada encontro e cada refeição. Os azerbaijanos consomem litros da bebida, e recusar uma xícara pode ser interpretado como descortesia.
Quando ir ao Azerbaijão?
As melhores épocas para visitar são de abril a junho e de setembro a outubro. A primavera traz temperaturas amenas e o festival de Novruz, o ano novo persa celebrado por volta de 20 de março, movimenta o país inteiro durante cinco dias com danças, fogueiras e banquetes. O outono pinta as montanhas com tons avermelhados e abriga celebrações como o Festival da Romã em Goychay, em novembro.
O verão, de junho a agosto, castiga Baku com calor intenso, e os termômetros ultrapassam os 40 °C com frequência. Por outro lado, é o único período propício para trilhas de alta montanha em direção a Khinalig ou Laza. O inverno é ameno na costa, mas rigoroso nas montanhas, com ventos fortes em Baku que podem alcançar 130 km/h.
Como ir ao Azerbaijão?
Como as fronteiras terrestres estão fechadas para entrada, o avião é a única via de acesso. Partindo do Brasil, há conexões eficientes via Europa ou Oriente Médio através de companhias como a Turkish Airlines, com tarifas variáveis conforme a temporada. Voos diretos para o aeroporto Heydar Aliyev em Baku também operam a partir de cidades como Londres, Paris, Roma e Viena.
O visto eletrônico é emitido online pelo portal ASAN Viza por 25 USD (cerca de 145 reais) em até 3 dias úteis. Confira os prazos de validade ao receber o documento. Qualquer permanência além do permitido gera multas e trâmites burocráticos complexos que só podem ser resolvidos no Serviço Estatal de Migração em Baku, nunca no aeroporto.
Como se deslocar no Azerbaijão?
A rede de ônibus intermunicipais é a alternativa mais prática. As marshrutkas, minivans frequentes e econômicas, ligam Baku a Quba em 2 horas por 5 AZN (cerca de 15 reais), e a Sheki em 6 horas por cerca de 8 AZN (cerca de 25 reais). As partidas ocorrem no Terminal Rodoviário Internacional de Baku, conectado ao metrô pela estação Avtovagzal. Os principais eixos rodoviários também contam com ônibus rodoviários confortáveis, que compensa reservar com antecedência para rotas concorridas como Sheki ou Ganja.
Um trem noturno conecta Baku a Sheki e poupa tempo em deslocamentos longos. A malha ferroviária é enxuta, mas cumpre horários com pontualidade. Para alcançar vilarejos isolados como Khinalig ou Lahij, um táxi particular a partir da cidade mais próxima é indispensável: espere gastar de 50 a 60 AZN (cerca de 155 a 185 reais) no trecho entre Quba e Khinalig. O aplicativo Bolt opera muito bem em Baku e em outros grandes centros urbanos para corridas urbanas.
O aluguel de carros é viável, porém indicado apenas para motoristas experientes. As rodovias principais estão em bom estado, mas as vias secundárias e de montanha costumam ser estreitas, mal iluminadas e divididas com rebanhos de animais. Dirigir à noite fora de Baku é fortemente desaconselhado.