A capital do lámen onde o Japão desacelera
20h de uma noite de outubro. Ao longo do rio Naka, cerca de trinta yatai iluminam a noite. Atrás de seus balcões minúsculos, os chefs grelham espetinhos yakitori enquanto os clientes, sentados em bancos bambas, saborean seu lámen tonkotsu conversando com desconhecidos. Bem-vindo a Fukuoka, a grande metrópole japonesa que recusa o estresse.
Fukuoka: ela é para você?
Esta capital de Kyushu atende perfeitamente quem quer descobrir o Japão sem a opressão das multidões turísticas. Por aqui, esqueça as filas intermináveis em frente aos templos ou os empurrões nos transportes. A cidade se explora a pé no centro, os moradores levam a vida sem pressa, e a cena gastronômica rivaliza com a de Osaka pela metade do preço. Procura o Japão autêntico com conforto moderno? Pode vir.
Por outro lado, se você busca atrações espetaculares no estilo de Tóquio ou templos em cada esquina como em Kyoto, Fukuoka vai te decepcionar. A cidade aposta na qualidade de vida, e não na quantidade de locais tombados pela UNESCO. O clima também merece nota: o verão aperta forte com 30°C e umidade sufocante, enquanto o inverno continua ameno, mas venta bastante. Os próprios japoneses falam pouco inglês por aqui, mesmo em comparação com outras grandes cidades.
O orçamento necessário
Reserve de 60 a 80 euros por dia com tudo incluso para um viajante de orçamento intermediário (cerca de 370 a 500 reais). Uma tigela de lámen tonkotsu custa entre 600 e 900 ienes (4 a 6 euros, ou cerca de 25 a 38 reais), os hostels giram em torno de 25 a 30 euros a noite (cerca de 150 a 190 reais), e um hotel 3 estrelas perto da estação Hakata começa em 70 euros (cerca de 440 reais). O metrô é seu aliado: 260 ienes o trajeto (cerca de 10 reais), ou 820 ienes o passe diário (cerca de 52 reais). Os yatai continuam em conta se você se contentar com um prato e uma cerveja, caso contrário a conta sobe rápido.
Hakata e o centro: a energia urbana
O bairro de Hakata se organiza ao redor da estação de mesmo nome, terminal do Shinkansen. É o polo econômico, mas vai muito além disso. O Canal City Hakata merece uma visita por sua arquitetura mirabolante, suas lojas de cultura pop e seu Ramen Stadium, que reúne oito restaurantes de lámen diferentes no quinto andar. Perfeito para comparar os estilos. O santuário Kushida, fundado em 757, guarda a entrada do antigo Hakata. Seu festival anual Yamakasa em julho exibe carros alegóricos de uma tonelada carregados correndo por homens em trajes tradicionais.
A dez minutos a pé, Tenjin assume o controle no quesito compras e vida noturna. O Tenjin Chikagai, um labirinto subterrâneo com 600 metros de extensão, abriga 150 lojas e cafés sob uma arquitetura neo-europeia um tanto kitsch. Muito prático nos dias de chuva ou calor intenso. O parque Ohori, logo ao norte, oferece um respiro revigorante. Seu enorme lago central é cruzado por três pontes que ligam outras tantas ilhotas. Os locais aproveitam para fazer a corrida matinal ou um piquenique nos fins de semana.
Dica de amigo: compre o Fukuoka Tourist City Pass por 1500 ienes (cerca de 95 reais). Ele dá acesso ilimitado ao metrô e aos ônibus durante o dia, com direito a descontos em várias atrações. Há a versão Dazaifu por 2000 ienes (cerca de 125 reais) se você planeja fazer a excursão.
Nakasu: o reino dos yatai
Esta mini-ilha espremida entre dois braços de rio concentra a vida noturna. Cerca de vinte yatai se instalam todas as noites a partir das 18h ao longo do cais. Essas barracas móveis sobre rodas servem lámen, guioza, yakitori e oden em um clima descontraído e único. O conceito? Você se senta no balcão (no máximo oito lugares), faz o pedido e acaba batendo papo com quem está sentado do seu lado. O clima ferve por volta das 21h, quando os funcionários de escritório aparecem em peso.
Vale lembrar que os yatai não são uma opção barata. Uma tigela de lámen custa de 800 a 1000 ienes, mas a experiência vale a pena pelo menos uma vez. Evite aqueles que exibem fotos plastificadas em inglês, sinal claro de que visam apenas os turistas. Prefira procurar as filas formadas por japoneses. O yatai Yamanaka, perto da ponte Tenjin, faz por merecer sua fama pelo caldo cremoso de lámen.
Dazaifu: a excursão obrigatória
A 16 quilômetros do centro, esta pequena cidade foi durante cinco séculos o centro administrativo de toda a região de Kyushu. O santuário Dazaifu Tenmangu atrai estudantes que vão rezar para passar nas provas. A divindade cultuada ali, Sugawara no Michizane, era um erudito do século IX. As 6.000 ameixeiras da propriedade florescem em fevereiro e março em um espetáculo em tons de rosa e branco que supera até as cerejeiras. A rua comercial que leva ao santuário vende os umegae mochi, bolinhos de arroz grelhados recheados com pasta de feijão doce.
Bem pertinho dali, o templo Komyozen-ji exibe dois jardins zen de pedras raras. No jardim da frente, quinze rochas formam o ideograma que significa luz. Vinte minutos bastam para a visita, mas o ambiente convida a sentar em silêncio. Conte 45 minutos de trem partindo de Hakata pela linha Nishitetsu, com baldeação em Futsukaichi.
Passeios na natureza e praias
O templo Nanzoin, em Sasaguri, abriga um Buda reclinado de bronze com 41 metros de comprimento. Trata-se de uma das maiores estátuas desse tipo no mundo, pesando cerca de 300 toneladas. O complexo se espalha por uma colina arborizada pontilhada de santuários menores. É acessível em 25 minutos de trem JR saindo de Hakata.
Mais a oeste, a península de Itoshima oferece praias razoáveis e o santuário Sakurai Futamigaura, que virou um sucesso no Instagram graças às suas duas rochas sagradas unidas por uma corda grossa. O pôr do sol bem entre as rochas atrai muitos fotógrafos. Há ônibus direto de Hakata, com 50 minutos de viagem.
Onde comer e beber em Fukuoka?
A cidade leva sua gastronomia a sério. O lámen tonkotsu da casa se destaca pelo caldo esbranquiçado, obtido após cozinhar ossos de porco por horas a fio. O Ichiran, em Nakasu, continua sendo o endereço mais famoso com suas cabines individuais para comer com foco total. Já o Hakata Issou, perto do Canal City, serve um caldo ainda mais encorpado.
O mercado Yanagibashi, apelidado de a cozinha de Fukuoka, abre bem cedo. As bancas de peixes dividem espaço com quitandas de frutas e verduras. Vários pequenos restaurantes no fundo do mercado servem sashimis ultra frescos no almoço. Não perca o goma saba, cavala marinada no molho de gergelim, uma especialidade local. Os morangos Amaou, gigantes e doces, são vendidos de janeiro a maio.
Onde ficar em Fukuoka e arredores?
Dê preferência aos bairros de Hakata ou Nakasu para uma primeira viagem. Hakata deixa a estação do Shinkansen a cinco minutos a pé, o que ajuda muito com as malas. O Tokyu Stay Hakata oferece quartos de verdade com cozinha compacta e máquina de lavar embutida no armário, ideal para estadias mais longas. O WeBase Hakata, na vertente de hostel, oferece tanto dormitórios quanto quartos privativos com áreas comuns bem movimentadas.
Tenjin atende melhor quem gosta da noite e quer bares e restaurantes por perto. O bairro ferve até tarde, o que pode incomodar quem tem o sono leve. Para quem busca luxo, o Miyako Hotel Hakata, perto da estação, conta com banquete termais no terraço.
Como chegar e circular em Fukuoka?
O aeroporto de Fukuoka fica a apenas seis minutos de metrô do centro. Voando do Brasil, espere pelo menos uma conexão em cidades como Doha, Dubai ou Amsterdã, com duração total em torno de 24h. O Shinkansen partindo de Tóquio leva 5h30 (18.000 ienes sem o JR Pass, ou cerca de 1.130 reais), e saindo de Osaka são 2h30.
Na cidade, o metrô conta com três linhas que cobrem o essencial. Os ônibus atendem as regiões periféricas. Esqueça o JR Pass para andar por Fukuoka, já que a empresa local Nishitetsu não entra no pacote. Um cartão de transporte recarregável (Suica, Pasmo) facilita bastante os pagamentos.
Quando ir?
As melhores épocas são a primavera (do final de março a maio) pelas cerejeiras e temperaturas agradáveis, e o outono (de outubro a novembro) pelas cores vibrantes das folhas e pela ausência de chuvas fortes. Evite junho e julho, temporada de chuvas com risco de tufões, e agosto, quando o calor passa regularmente dos 35°C. O inverno é ameno, mas venta bastante, com alguns dias de neve nas áreas mais altas.
Se você estiver visitando Kyushu, com certeza vai passar pela cidade de Fukuoka! Foi uma descoberta muito legal para mim, bem menos lotada que Tóquio ou Osaka. O bairro de Tenjin é muito bacana para passear à noite, assim como os Yatai (as barraquinhas de comida) onde a gente come muito bem!! Uma passada pelo Canal City com suas fontes bonitas, nada de tédio! Não perca o jardim japonês do parque Ohori, que é absolutamente sublime, especialmente à noite!